Escala que mede disfunção de órgãos em pacientes críticos é atualizada após quase 30 anos e incorpora tecnologias modernas da medicina intensiva 

 
Recém-publicado na revista JAMA e desenvolvido com participação de pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), o novo escore Sequential Organ Failure Assessment 2 (SOFA-2) atualiza um dos principais instrumentos usados globalmente para avaliar a gravidade de pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). A atualização revisa limites, adiciona critérios e integra tecnologias que não existiam ou não eram amplamente utilizadas no momento da criação do SOFA original, em 1996. 

O Dr. Jorge Salluh, pesquisador do IDOR e membro do Comitê Coordenador do estudo, liderou o grupo de dados e validação do projeto. “Este estudo foi decisivo pra modificar o escore porque ele reuniu várias condições importantes. A primeira foi um grande número de especialistas diferentes nas áreas de medicina intensiva, estatística, epidemiologia, Big Data, etc. O segundo foi a criação de uma metodologia muito robusta, justamente para que não fosse um estudo baseado somente em opiniões de especialistas, mas uma pesquisa aprofundada, com diversas revisões sistemáticas e meta-análises baseadas em dados vigentes”, afirma. 

Por que atualizar o SOFA agora 

Hoje provavelmente soaria estranho saber de alguém que viaja de carro utilizando um mapa impresso 30 anos atrás. Mas era, de certa forma, o que UTIs do mundo inteiro faziam até a semana passada, quando o assunto era classificar a gravidade dos pacientes críticos em uma escala internacional. 

O SOFA é uma pontuação aplicada diariamente em pacientes de UTI para avaliar o funcionamento de seis sistemas do corpo: cérebro, fígado, rim, hemostasia (relacionada à coagulação), sistema respiratório e sistema cardiovascular. Cada sistema recebe uma nota de 0 a 4, resultando em um total que varia entre 0 e 24. Quanto maior a pontuação, maior a gravidade clínica. 

Com o avanço da medicina intensiva, surgiram novas drogas, dispositivos e estratégias de suporte orgânico que mudaram radicalmente a forma como o paciente grave é tratado. O SOFA-1, criado antes até da popularização consolidada da internet, claramente não acompanhava essa evolução. 

O resultado desse atraso eram situações em que pacientes com quadros clínicos muito diferentes recebiam pontuações semelhantes, dificultando a comparação entre casos, o acompanhamento da evolução ao longo do tempo e até mesmo a construção de estudos científicos comparáveis entre países e hospitais. 

 

Como o SOFA-2 foi desenvolvido 

A criação do SOFA-2 já estava em debate entre médicos e pesquisadores há anos, mas sua definição recente é resultado de um esforço internacional. Mais de 60 especialistas em medicina intensiva participaram de um processo colaborativo estruturado, apontando novas necessidades de classificação e buscando a construção de um consenso científico que pudesse ser aplicado globalmente. 

Depois disso, o escore foi testado em bases de dados que contemplaram mais de mil e trezentas UTIs de 9 países entre 2014 e 2023. No total, foram mais de 3,3 milhões de internações analisadas, uma validação ampla o suficiente para garantir que o SOFA-2 fosse aplicável em diferentes contextos, tanto em centros altamente equipados quanto em locais com recursos limitados. 

Por que demoraram 30 anos para atualizar o SOFA? 

Como o SOFA-1 era fácil de aplicar e adotado por UTIs de todo o mundo, essa atualização precisava ser cientificamente robusta e globalmente aplicável, o que só foi possível de realizar com as tecnologias atuais e com o grande número de dados do atual estudo. 

“Diversos artigos ao longo dos últimos anos pontuaram a necessidade de atualização do escore, devido aos grandes avanços que aconteceram na monitoração, diagnóstico e tratamento de pacientes graves. Porém, é desafiador atualizar uma escala acessível e amplamente utilizada no mundo, nem todas as ferramentas necessárias para essa atualização estavam disponíveis. Nos últimos anos, tivemos uma aceleração na integração de dados graças à inteligência artificial e ao chamado Big Data, que permitiram as condições ideais pra poder reavaliar o SOFA”, explica o pesquisador do IDOR, Dr. Jorge Salluh, que compôs o Comitê Diretor do projeto, liderando o grupo de dados e validação. 

Ou seja, a atualização do SOFA-1 para o SOFA-2 não era algo simples como atualizar um catálogo, mas sim criar um novo sistema de catalogação que incluísse as novas tecnologias, dispositivos e medicamentos que se acumularam ao longo de três décadas, e que funcionasse para UTIs no mundo todo, das menores às mais equipadas. 

O que muda na prática clínica 

Embora os mesmos seis sistemas orgânicos tenham sido mantidos, a forma de pontuá-los foi atualizada para refletir a prática contemporânea. 

Sistema respiratório: 
Agora incorpora modalidades modernas de suporte, como ventilação não invasiva e ECMO, um procedimento que substitui temporariamente a função pulmonar. Os limites usados para avaliar a oxigenação também foram ajustados. 

Sistema cardiovascular: 
Além das doses de norepinefrina e epinefrina, o escore passa a contabilizar outros vasopressores e dispositivos de suporte mecânico circulatório, possibilitando uma descrição mais precisa do choque. 

Rins: 
Além da creatinina e do volume urinário, o uso de terapia de substituição renal (diálise) agora conta pontos, incluindo quando ela é crônica. 

Cérebro: 
O SOFA-2 introduz a detecção de delírio, que muitas vezes passa despercebido, mas é um forte indicador de disfunção neurológica em UTIs. 

Uma nova era para classificação de pacientes graves 

A principal função do SOFA-2 não é prever sozinho o risco de morte de um paciente, mas oferecer uma linguagem padronizada e atualizada para medir a disfunção orgânica ao longo do tempo. Isso permite comparações mais consistentes entre equipes, hospitais, estudos e países. 

Ao atualizar um de seus instrumentos mais usados, a medicina intensiva dá um passo importante para alinhar conhecimento científico, prática clínica e tecnologias emergentes. O SOFA-2 reflete a realidade atual das UTIs e prepara o campo para novas pesquisas, protocolos e políticas de cuidado. 

“Um destaque importante é que foram analisados dados de mundo real, ou seja, não são informações de um ambiente controlado, e sim do cotidiano de UTIs de vários países entre alta, média e baixa renda. Temos agora um escore muito robusto. Tudo o que não estava presente no escore original está presente hoje no SOFA-2, que acabamos de publicar”, destaca Salluh.