Um estudo conduzido por pesquisadores da Rede D’Or e do IDOR publicado na revista Anaesthesia, periódico oficial da Association of Anaesthetists (Reino Unido), foi reconhecido entre os 10 mais citados do mundo pela revista no biênio 2024–2026.
Os resultados contribuem diretamente para a prática clínica, uma vez que investigou o impacto do uso de medicamentos à base de semaglutida no preparo para cirurgias. Esse tipo de medicamento, utilizado no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, atua retardando o esvaziamento do estômago, o que faz com que os alimentos permaneçam por mais tempo no organismo. Em contexto cirúrgico, esse efeito pode representar um risco, já que a presença de conteúdo gástrico aumenta a chance de aspiração durante a anestesia.
Para analisar essa questão, os pesquisadores acompanharam 220 pacientes submetidos a cirurgias eletivas. Parte deles havia utilizado semaglutida nos 10 dias anteriores ao procedimento, enquanto o restante não fazia uso do medicamento. No dia da cirurgia, todos foram avaliados por meio de ultrassom gástrico, exame não invasivo que permite identificar a presença de conteúdo no estômago mesmo após o jejum recomendado.
Os resultados mostraram uma diferença expressiva entre os grupos. Entre os pacientes que usaram semaglutida recentemente, 40% apresentavam conteúdo gástrico residual aumentado. Já entre aqueles que não utilizavam o medicamento, esse número foi de 3%.
Importante destacar que a interrupção do uso da medicação por até 10 dias antes da cirurgia não foi suficiente para reduzir esse risco de forma consistente. Embora não tenham sido registrados casos de aspiração pulmonar, a presença de conteúdo gástrico representa um fator de atenção para a equipe médica.
Os achados indicam a necessidade de revisão de protocolos e reforçam o papel do ultrassom gástrico como ferramenta de avaliação individual no pré-operatório. Esse tipo de abordagem pode contribuir tanto para aumentar a segurança quanto para evitar cancelamentos desnecessários de procedimentos.
A pesquisa foi desenvolvida a partir de uma iniciativa da área de Qualidade da Rede D’Or, com foco em gestão de risco e aprimoramento dos processos assistenciais na linha cirúrgica, também reconhecida na Mostra de Qualidade. O reconhecimento internacional do artigo reflete essa integração entre prática assistencial e produção científica, evidenciando como iniciativas estruturadas em saúde podem gerar dados relevantes para a qualificação contínua do cuidado.
Escrito por Manuelly Gomes
Revisado por Claudio Ferrari