Pesquisa mostra que bebês prematuros apresentam padrões distintos de regulação do gene SLC6A4, associado à resposta ao estresse, já no primeiro mês de vida   

A prematuridade é um dos principais fatores de risco para atrasos no desenvolvimento neurológico e de condições como ansiedade, depressão, autismo e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Essas condições podem estar relacionadas também às experiências de estresse precoce, especialmente aquelas vivenciadas em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTINs), como dor, ruído, procedimentos invasivos e separação materna. 

Nesse cenário, pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), investigaram como a prematuridade pode influenciar a ação do gene SLC6A4, responsável pelo transporte de serotonina. Esse hormônio atua na regulação do humor, do sono e das respostas ao estresse. O estudo analisou a regulação epigenética, um mecanismo que regula a atividade dos genes sem alterar o DNA. Um desses processos é a metilação do DNA, capaz de reduzir a atividade gênica. 

A pesquisa avaliou a metilação na região promotora do gene SLC6A4 em 46 recém-nascidos, incluindo bebês extremamente prematuros, muito prematuros e a termo (nascidos no tempo certo). As coletas sanguíneas foram realizadas em três momentos: ao nascimento, no quinto dia e no trigésimo dia de vida. Ao todo, foram analisadas 13 regiões específicas do DNA, conhecidos como CpGs, que funcionam como pontos de regulação da expressão gênica. 

Os resultados mostraram que, já ao nascimento, bebês prematuros apresentaram níveis mais elevados de metilação do SLC6A4 em comparação com bebês a termo, com valores ainda mais altos entre os extremamente prematuros. Isso sugere que a própria interrupção da gestação e o estresse pré-natal já deixam “marcas” no genoma antes mesmo do início dos cuidados intensivos. 

Ao longo do tempo, os padrões se comportaram de maneira distinta entre os grupos. Enquanto os bebês nascidos no tempo certo mostraram um aumento gradual de metilação, fato esse que os pesquisadores chamam de plasticidade epigenética ou capacidade de adaptação, os bebês prematuros mantiveram níveis estáveis e mais restritos. Esse resultado sugere que o sistema de resposta ao estresse pode se ajustar de forma diferente nos primeiros dias de vida, dependendo da maturidade gestacional. 

O estudo contribui para a compreensão dos mecanismos biológicos que conectam a prematuridade ao risco aumentado de alterações no neurodesenvolvimento. A equipe de pesquisadores pretende monitorar essas crianças ao longo dos anos para verificar se os padrões de metilação de fato colaboram para o surgimento de comportamentos específicos na infância, como ansiedade ou irritabilidade, entre outros possíveis desfechos, além do potencial uso como um biomarcador. 

Avançar nesse campo pode ajudar a identificar, ainda nos primeiros dias de vida, quais bebês estão mais vulneráveis aos efeitos do estresse precoce. Dessa forma, novas estratégias em medicina de precisão em neonatologia poderiam ser implementadas, considerando não apenas aspectos clínicos imediatos, mas também seus efeitos a longo prazo.

 

Escrito por Manuelly Gomes
Revisado por Claudio Ferrari