Algo na água


Estudo liderado pelo IDOR e UFRJ correlaciona qualidade da água consumida com a severidade das malformações ocasionadas pelo vírus da zika.

Nos anos de 2015 e 2016, o Brasil sofreu com o surto epidêmico do vírus da zika em todo país. Apesar da concentração de casos no Centro-Oeste, foi no Nordeste que houve a maior incidência de microcefalia associada ao vírus da zika. A gravidade das malformações descritas na região Nordeste chamou a atenção de cientistas, que levantaram a hipótese de que o agravamento poderia advir da combinação entre a epidemia e fatores ambientais evitáveis. A pesquisa contou com a ação conjunta do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), das universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ) e Rural de Pernambuco (UFRPE) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Mais que uma coincidência

A Região Nordeste do Brasil é conhecida pelas particularidades de sua zona semiárida, o sertão e agreste nordestinos, áreas caracterizadas pelos menores índices de chuva do país. Acometidas frequentemente por secas prolongadas, a região encarou uma implacável estiagem de 2012 a 2017: segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia, a pior já registrada. Concomitantemente, o país enfrentava nesse período uma epidemia de zika, que atingiu seu ponto crítico nos anos de 2015 e 2016.

Devido ao problema de distribuição de água potável no semiárido nordestino, principalmente nos períodos de estiagem, sua população mais pobre recorre muitas vezes ao consumo de água com tratamento inadequado, através de caminhões-pipa e reservatórios pouco higienizados. A água ingerida sob essas condições tende a conter microrganismos, que no caso da epidemia de zika podem ter intensificado a ação do vírus no Nordeste brasileiro. O estudo analisou dados disponibilizados pelo SisAgua (Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano), constatando que, entre 2014 e 2018, cerca de um terço da água consumida na região apresentava mais de 20 mil cianobactérias por mililitro. O estudo revelou ainda que metade dos reservatórios de água do Nordeste possuía alta incidência de saxitoxina, substância produzida pelas cianobactérias e potencialmente danosa ao sistema nervoso de humanos e animais. Nas outras regiões do Brasil, essa mesma incidência foi bem menos expressiva, não chegando a 5% em alguns estados e atingindo um máximo de 25%, na região Sudeste.

Considerando essas informações, os cientistas testaram os efeitos da saxitoxina quando combinada ao vírus da zika. Os experimentos foram feitos em camundongos e em organoides cerebrais humanos, que são desenvolvidos em laboratório a partir de células de doadores voluntários. Em ambos os casos, foi observado que a combinação entre a toxina e o vírus resultava no agravamento da neurotoxicidade do zika, triplicando a mortalidade celular e causando alterações similares à microcefalia nos filhotes de camundongos, cujas mães foram infectadas durante a gestação enquanto consumiam água com saxitoxina. Esses resultados confirmam que a toxina exacerba a morte celular ocasionada pelo zika, tanto em organoides cerebrais humanos como nos animais, o que ajudaria a explicar a maior incidência de malformações cerebrais no Nordeste quando comparada aos dados do Centro-Oeste, região com a maior ocorrência de infecções, e com o Sudeste, que possuiu um número similar de casos de zika mas notavelmente menores registros de microcefalia.

O neurocientista Stevens Rehen, pesquisador do IDOR e da UFRJ e autor correspondente do trabalho, defende que este estudo alerta para um problema de saúde pública na região Nordeste. Rehen — que também participou do esforço multi-institucional que correlacionou, pela primeira vez, o vírus da zika com a ocorrência de microcefalia — lembra que, para além dos agravantes das arboviroses (viroses transmitidas por insetos como o mosquito), a baixa qualidade da água consumida na região é um fator extremamente danoso para a população local, acarretando problemas de saúde e maior vulnerabilidade a várias doenças.