Aprendendo com as epidemias passadas

 crédito: The Flint Journal

Interrupção precoce do isolamento social e instabilidades políticas podem agravar a crise

 

As pandemias passadas e ultrapassadas, como a peste negra, varíola e gripe espanhola, ainda são fontes históricas que servem de base para o enfrentamento de novas crises sanitárias. O que todas possuem em comum é um contágio generalizado, causado por uma doença nova ou que ainda não possui cura ou tratamento. Portanto, as medidas de intervenções não-farmacológicas (INF) são de grande importância para dar tempo à ciência e aos sistemas de saúde durante esse enfrentamento.

 

Dentre todas as expressões popularizadas devido à pandemia – lockdown, Sars-Cov-2, achatamento de curva, entre outras –, aqui temos mais uma: INFs. No contexto pandêmico, elas são ações que pessoas e comunidades podem adotar para retardar a propagação da doença, como é o caso do fechamento de escolas, mercados e também da adesão ao isolamento social. No entanto, essas medidas impactam negativamente a economia, o que leva algumas pessoas a questionar se o isolamento social é realmente efetivo e se ele não causaria problemas maiores no pós-pandemia, como fome e desemprego.

 

Sobre a questão econômica, um estudo realizado por economistas norte-americanos afirma que o PIB dos Estados Unidos deve diminuir 6,2% ainda este ano, devido à soma de fatores como as mortes ocasionadas pela pandemia e as INFs adotadas para contê-las. No entanto, apesar da inevitável recessão econômica em curto prazo, a pesquisa também estimou que, em um planejamento de 30 anos, os benefícios econômicos das vidas que estão sendo salvas agora superam o valor das perdas projetadas para o PIB em cerca de 5,2 trilhões de dólares. E essas informações foram adquiridas com base em análises estatísticas e estimativas obtidas a partir de históricos da gripe espanhola, de 1918.

 

Sobre a efetividade das INFs, estudos atuais já comprovam seus efeitos na contenção do contágio e na redução das mortes causadas pelo novo coronavírus. Uma pesquisa, realizada com dados de mais de 180 municípios dos Estados Unidos, apontou que a adoção de medidas de distanciamento social impostas pelo governo reduzia a taxa de crescimento diário de casos em 5,4% entre 1 e 5 dias, 6,8% entre 6 e 10 dias, 8,2% entre 11 e 15 dias, e 9,1% entre 16 e 20 dias. Já no Brasil, um estudo ainda não publicado (em pré-print) analisou o impacto das INFs na zona metropolitana de São Paulo, apontando que as medidas de isolamento foram capazes de reduzir em cerca de 50% a taxa de multiplicação de casos notificados na cidade, no período entre março e meados de abril.

 

O médico e historiador americano Howard Markel, diretor do Centro de História da Medicina da Universidade de Michigan nos Estados Unidos, deu uma entrevista ao JAMA – Journal of the American Medical Association – discutindo padrões observados em epidemias passadas que causaram o agravamento dos danos à saúde pública. Em um dos estudos que coordenou em 2007, durante uma das pandemias de influenza, Markel afirmou que há uma correlação estatística bastante significativa entre a duração das INFs e a queda de mortalidade, desde que as primeiras sejam adotadas cedo durante uma pandemia.

 


Markel, no entanto, afirma que outros fatores são importantes na redução da mortalidade, e um dos mais importantes é a organização do governo no combate à pandemia. Segundo ele, a instabilidade política leva à adoção tardia de medidas essenciais para a saúde pública. “Essas batalhas internas entre políticos, repetidas vezes, têm um efeito muito negativo na administração de cuidados para a pandemia. […] Eu argumentaria que em tempos de crise contagiosa, a política precisa terminar com o micróbio. Temos que trabalhar juntos para elaborar as melhores políticas e os melhores métodos para garantir a saúde do povo“, afirma.

Escrito por Maria Eduarda Ledo

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