Clima e estação não são suficientes na contenção da pandemia

Transmissão de SARS-CoV-2 é reduzida em climas quentes e úmidos, mas outros aspectos são mais decisivos no controle da pandemia.

Em janeiro, quando os indícios de uma possível pandemia mundial começavam a se ilustrar na província chinesa de Hubei, nossos cientistas acreditaram que o Brasil só seria gravemente atingido em meados de 2020, quando ocorrem as temperaturas mais baixas e climas mais secos no país. No entanto, no meio de março já contávamos com mais de 50 casos confirmados nacionalmente, o que obrigou as autoridades sanitárias a instalar medidas de contenção antes mesmo da chegada do outono.
Esperar que a pandemia tivesse início em um período mais próximo do inverno não foi uma ingênua aposta dos especialistas. Na realidade, a relação entre sazonalidade e ciclo de doenças virais respiratórias é amplamente reconhecida há milhares de anos, não apenas cientificamente como popularmente. Achamos comum ver mais pessoas resfriadas no inverno, mesmo aqui no Brasil que não tem quedas grandes de temperatura como nos países localizados em regiões temperadas. A razão para isso é que o clima e a umidade influem diretamente no potencial de transmissão de infecções respiratórias causadas por vírus, como o da influenza, o sincicial respiratório e o rinovírus.
Para o novo coronavírus, a regra da sazonalidade também se aplica, e a pergunta que pode ficar pairando é: por que tivemos o início da pandemia ainda no verão? Em uma declaração realizada pela National Academies, instituição científica não-governamental e sem fins lucrativos dos Estados Unidos, especialistas em doenças infecciosas confirmaram que mesmo que os estudos comprovem a menor incidência do vírus em relação ao aumento da temperatura e umidade, no laboratório os cientistas não podem controlar todos os multifatores que envolvem uma transmissão em massa, e essas condições vão muito além do clima e da estação.
Outro estudo, que buscou avaliar dados históricos de diagnósticos com outros coronavírus para melhor entender a atual transmissão do SARS-CoV-2, defende que as maiores ou menores incidências costumam variar não apenas de acordo com os fatores climáticos, mas também com os esforços de cada país para conter a epidemia. E, mesmo assim, os autores afirmam que a otimização desses dois fatores não resulta, necessariamente, na contenção da pandemia. 
Porém, os próprios fatos já haviam nos dado esta notícia. Apenas no Equador, cuja metrópole mais afetada não chega a marcar 19 graus Celsius no dia mais frio, foi registrada a maior morte per capita de toda a América Latina. Enquanto isso, países frios como a Alemanha, que foram afetados antes dos sulamericanos, contabilizam um número muito mais controlado de mortes pela COVID-19. Isso demonstra que fatores como adesão às medidas de contenção, desigualdade social reduzida e políticas de testagem e mapeamento de contaminados são os fatores mais relevantes no controle da pandemia.

Ressaltar o fato de que nossa tropicalidade nada pôde fazer por nós não é um lamento, mas sim um alerta. Acabamos de entrar no outono, e o inverno ainda está por vir. Agora, mais do que nunca, é hora de seguir religiosamente as rotinas de higienização das mãos, isolamento social e uso de máscaras ao sair à rua. É bom nos dedicarmos a viver o presente sabendo que esta situação só vai melhorar se houver o engajamento que a pandemia nos exige como cidadãos e como sociedade, que se dá através do avanço com atitudes pró-sociais de cuidado e autocuidado.

Por Maria Eduarda Ledo

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