Combinação preocupante

Pesquisa mostra piora da função cognitiva no transtorno de déficit de atenção e hiperatividade quando associado ao quadro de desordens alimentares.

A presença de desordens alimentares em pacientes que possuem transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) se associa a um quadro mais grave de ambos os transtornos, comprometendo o processo de tomada de decisão. Essa é a conclusão de trabalho publicado em novembro da revista Frontiers in Psychiatry por cientistas do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Ao esclarecerem o impacto da combinação de outras comorbidades no TDAH, os achados podem dar origem a linhas de tratamento mais eficazes.

Apesar de mais frequente em crianças, o TDAH também acomete até 5% dos adultos no mundo inteiro. Estudos apontam que a chance de esses pacientes serem diagnosticados com transtorno alimentar (TA) é quase quatro vezes maior do que na população em geral. No entanto, a associação dos transtornos alimentares ao TDAH nem sempre foi óbvia. As primeiras evidências de que, dentro da população de pacientes com TDAH, havia casos de TA foram publicadas em 2004, em pesquisa liderada pelo psiquiatra Paulo Mattos, pesquisador IDOR e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). De lá para cá, Mattos vem liderando um grupo de pesquisa que visa entender as manifestações clínicas do transtorno quando combinado ao quadro de distúrbios alimentares.

Na publicação mais recente, os pesquisadores testaram a hipótese de que a presença de TA em pacientes com TDAH estaria associada a piores níveis de atenção e comprometimento na tomada de decisão. Por quatro anos, a equipe recrutou estudantes de medicina para participarem do estudo. Dos 726 alunos interessados, 90 possuíam as características necessárias para fazer parte da pesquisa, e foram então divididos em grupo TDAH, grupo TDAH + TA e controles – ou seja, voluntários que não apresentam nenhum transtorno psiquiátrico.

Os participantes foram submetidos a uma bateria de exames a fim de avaliar traços de ansiedade, depressão, impulsividade, QI, função executiva, atenção e tomada de decisão. O objetivo era entender como essas características se manifestam em cada grupo.

A análise dos resultados revelou que o grupo TDAH + TA possuía maior massa corporal e mais sintomas de hiperatividade/impulsividade, quando comparado ao grupo TDAH e controles. Já sob testes que medem atenção, o grupo com ambos os transtornos também cometeu mais erros, demonstrando capacidade de atenção reduzida. Para o psiquiatra Bruno Nazar, doutorando da UFRJ sob orientação de Mattos que conduziu o estudo, “os achados reforçam que o paciente com TDAH sem comorbidades psiquiátricas tem um funcionamento cognitivo melhor do que pessoas com TDAH junto de algum outro diagnóstico”.

Tomada de decisão

A capacidade de tomada de decisão foi medida com um teste em que os indivíduos precisam identificar e escolher, dentre quatro opções, qual a pilha de cartas que mais trará ganhos financeiros. Duas das pilhas trazem grandes ganhos imediatos, mas enormes perdas futuras, enquanto as outras duas trazem pequenas recompensas, mas perdas discretas. O objetivo do teste é reconhecer as pilhas mais recompensadoras a fim de acumular o maior montante possível.

O grupo que possuía ambos os transtornos apresentou comprometimento do processo de tomada de decisão, escolhendo, com maior frequência, as pilhas de cartas mais desvantajosas. Para os pesquisadores, a redução da capacidade de tomar decisões reflete o mau funcionamento de áreas cerebrais responsáveis pelo controle da impulsividade. “Pela primeira vez, foi avaliado como a presença de um transtorno alimentar impacta a capacidade de tomada de decisões de pessoas com TDAH. Pouco se sabe sobre o funcionamento cognitivo do TDAH na presença de outras comorbidades psiquiátricas”, afirma Nazar.

Mattos acredita que os achados do estudo podem apontar novas direções de tratamento: “é importante que as equipes multidisciplinares saibam que o TDAH se manifesta de uma outra maneira, mais grave, quando associado ao transtorno alimentar”, finaliza.

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