Como as favelas enfrentarão o coronavírus?

Estudo aponta para fragilidade das populações mais pobres durante a quarentena.


Imagem de Free-Photos por Pixabay

A condição das favelas brasileiras é uma questão a ser enfrentada pelo poder público nos próximos meses, visto que as comunidades têm passado por muitas dificuldades quanto às recomendações do Ministério da Saúde para contenção do coronavírus (COVID-19). Segundo um estudo inédito do Instituto Data Favela, parte dessas recomendações, tais como o isolamento social, são inalcançáveis para 72% dos moradores de comunidade, já que muitos não possuem poupança financeira para comprar mantimentos durante o período da quarentena e precisam dividir em casa itens como copos e talheres.

O estudo, que entrevistou 1142 pessoas em 262 comunidades do país, buscou entender o impacto da pandemia nestes locais. Segundo a pesquisa, alguns dos problemas enfrentados são a falta de saneamento, a impossibilidade de se isolar e recursos para a sobrevivência das famílias. Alguns estabelecimentos de bairro têm tomado medidas, como fechar as portas às 20h, e agentes de saúde também fazem um trabalho de conscientização, mas falta planejar políticas públicas de saúde que atendam esses locais. Afinal, a ampla maioria dos trabalhadores que vive em favelas não têm carteira assinada, portanto não possui suporte da legislação pública. Além disso, essa parcela da população trabalha fora de casa, o que impossibilita o agora popular home office. Esta rotina propicia ainda a exposição a um ambiente de alta contaminação: o transporte público.

E o uso do transporte público carrega o problema também para dentro das pequenas casas, que possuem limitação de espaço para o convívio a distâncias sugeridas pelas agências de saúde de 2 a 2,5 metros para quem pode estar contaminado. O problema é agravado pela falta de água nas casas, que impede moradores de lavar as mãos, medida essencial para prevenir contaminação. Ainda, segundo o Instituto Trata Brasil, a falta de acesso à água tratada é rotina para 35 milhões de brasileiros, que têm contato com água de esgoto e de córregos que passam acima ou abaixo de suas casas.

Outras questões são enfrentadas durante a pandemia, como a falta de internet de qualidade para quem consegue trabalhar de casa e também o problema com o isolamento de idosos, um beco ainda sem saída. Esse grupo, mesmo encorajado a não sair de casa, tem contato direto com sua família, que trabalha fora, e mora em casas muitas vezes de um só cômodo, tornando difícil o distanciamento social. Todos esses dados mostram que estamos sem solução planejada para as favelas. Dado isso, é importante que haja organização do cronograma de ação dos governos para evitar mais disseminação da COVID-19.

Escrito por Luiza Mugnol Ugarte

Referências:
– Podcast da Folha de S. Paulo, ouça na Íntegra: Como será quando a Covid-19 chegar às periferias?
Paulo Talarico e Lucas Veloso da Agência Mural, parceira da Folha, trazem dados sobre a situação atual nas favelas brasileiras, e Júlia Barbon faz participação com dados atuais das comunidades do estado do Rio de Janeiro.
Águas Subterrâneas e Saneamento Básico
Ranking do Saneamento 2020
Ministério da Saúde
OMS Brasil