Como as informações falsas podem atuar em uma pandemia?

Especialista aborda papel das redes sociais e do compartilhamento de informações em tempos de COVID-19.

Como já dizia o filósofo e escritor, Umberto Eco, “A internet tomou o lugar do mau jornalismo”. O intelectual italiano, cujos muitos estudos analisaram culturas de massa, via na internet um veículo perigoso, onde as informações se disseminavam sem que houvesse um cuidado necessário com a credibilidade dessa propagação. Atualmente, com a pandemia do coronavírus (COVID-19), o risco oferecido por essas falsas informações é ainda mais temeroso, instalando-se como um cofator que pode intensificar os danos já inevitáveis para a saúde pública mundial.

Cientes de que o conhecimento é o único escudo diante do bombardeio de falsas informações, pesquisadores da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, criaram o Center for an Informed Public, grupo que está estudando os efeitos e alastramento da desinformação durante a pandemia de COVID-19. Segundo uma das fundadoras do grupo, Kate Starbird, os boatos (informações sem procedência) são reações naturais em momentos como este, porque as pessoas ficam inseguras e utilizam a comunicação na expectativa de criar uma verdade que as ajudem a passar pela situação. Apesar de muitas vezes a informação ser falsa, a pesquisadora afirma que a maioria das pessoas participa do processo de forma altruísta.

Outro fator que contribui para que as pessoas recorram a notícias não oficiais é que os órgãos institucionais também se contradizem com frequência, o que contribui para uma desconfiança generalizada nas informações. Na pandemia isso ocorre, por exemplo, quando políticos discordam do que é dito por médicos especialistas, ou quando estes entram em debate com economistas sobre as melhores formas de guiar a crise. 

Para Starbird, o foco principal de seu grupo, no momento, seria entender como estão ocorrendo as intersecções entre o conhecimento científico e o ambiente das redes sociais, para então buscar meios de promover as informações mais confiáveis. Porém, enquanto esse objetivo segue com mais perguntas do que respostas, a especialista aposta que estimular o senso crítico da população é um caminho para mitigar os problemas da má informação: “Nossa ansiedade pode nos levar a comportamentos prejudiciais, seja gastando muito tempo nesses ambientes [redes sociais] ou divulgando boatos. Quando vemos algo, podemos refletir sobre de onde veio e fazer uma pequena pesquisa para descobrir se é verdade ou não”, sugere.

Kate Starbird e Umberto Eco, no entanto, discordam de um ponto. Enquanto Eco afirma que “a internet permitiu que o idiota falasse”, Starbird é contra julgar tão severamente as pessoas pelo que divulgam em suas redes sociais, “Eu quero ser cautelosa sobre punir as pessoas por compartilharem boatos e falsas informações. Eu não acho que as plataformas digitais deviam fazer isso. Nós vemos esse tipo de comportamento em governos autoritários. É muito importante que a população sinta-se livre para compartilhar informações e, às vezes, as pessoas vão errar em alguma coisa. Existe um equilíbrio aí, e existem muitas trocas.”

Talvez, considerando os valores sociais e científicos envolvidos na onda de informações da internet, um meio termo entre Starbird e Eco serial ideal. Afinal, não são apenas os especialistas que têm direito à voz, e é claro que todos estão passíveis de erro, experts ou não. Porém, algumas informações indevidas e altamente disseminadas podem sim custar muito caro, ou pior, custar vidas, e por isso também se faz necessário debater o limite de certas informações, principalmente quando falamos de saúde pública.

Esta matéria é um conteúdo do IDOR produzido a partir da entrevista de Starbird à revista Science.

Escrito por Maria Eduarda Ledo