Encontro de disciplinas

Sessão clínica reúne neurologistas e cardiologistas para debater a relação entre o forame oval patente – condição que atinge o coração – e o risco de ocorrência do acidente vascular cerebral.

Um defeito no fechamento de um pequeno orifício cardíaco, chamado de forame oval, pode ser a causa por trás do acidente vascular cerebral (AVC). A relação entre o AVC criptogênico, ou seja, aquele cuja causa não é identificada, e o forame oval patente (FOP) foi discutida em sessão clínica ocorrida no auditório do Hospital Quinta D’Or, no Rio de Janeiro, no último dia 28 de fevereiro. Gabriel de Freitas, médico neurologista e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, foi um dos palestrantes convidados.

O forame oval é uma pequena comunicação entre os átrios direito e esquerdo, existente no coração do bebê durante a gestação. Já no nascimento, a primeira tomada de ar faz com que este forame seja fechado – pelo menos em cerca de 75% da população. Nos outros 25%, uma falha impede que essa comunicação seja desfeita, o que caracteriza o FOP. Boa parte das pessoas com essa condição viverá com o defeito sem saber. Porém, há indícios de que o FOP pode ser a principal causa do AVC criptogênico.

Segundo Freitas, a relação entre o forame oval patente e o AVC critpogênico vem sendo descrita há décadas. “Cerca de 54% dos pacientes jovens que sofrem um AVC sem apresentar fatores de risco possuem o FOP”, destaca. Especialistas acreditam que o fluxo sanguíneo que passa pela comunicação anômala cria uma trombose, fazendo com que um coágulo chegue até os pequenos vasos do cérebro, causando entupimento e a consequente interrupção do fornecimento de sangue ao tecido cerebral.

Mas, quando se desconhece a causa do AVC, como saber se o forame oval patente é realmente o vilão? Para estimar a chance de o AVC ter sido causado pelo FOP, pesquisadores norte-americanos e europeus criaram um escore denominado RoPe (do inglês Risk of Paradoxical Embolism). De acordo com essa métrica, o paciente acumula pontos quando não possui hipertensão ou diabetes, não fuma e não tem histórico de AVC prévio. Quanto mais jovem for o paciente, maior o escore. No fim das contas, pontuações próximas de 10 indicam maior chance de o evento ter sido causado pelo FOP.

Uma alternativa para evitar o risco de AVC em pacientes com FOP seria a correção cirúrgica do problema. No entanto, Freitas explica que essa não é uma opção apropriada para todos os casos, por dois motivos. Primeiro, apenas uma minoria dos pacientes terá um AVC causado pelo FOP, por isso, não seria prudente optar pela exposição ao risco de uma cirurgia cardíaca. Segundo, por se tratar de um defeito presente em um quarto da população, não é viável que a cirurgia seja feita em todos os que o possuem. Atualmente, o tratamento cirúrgico é indicado em pacientes que já sofreram AVC, para evitar que o segundo acidente ocorra. Nesses casos, estudos indicam que o risco de um novo evento cai em cerca de 80%.

Além do especialista do IDOR, participaram do evento os cardiologistas Felipe Maia e Cleverson Zukowski, que abordaram as mais recentes evidências científicas acerca do fechamento do FOP, além da discussão de casos clínicos. Por fim, em mesa redonda, os especialistas discutiram perspectivas futuras e as melhores abordagens clínicas para identificar e corrigir o problema.

 

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