Estudo do IDOR garante que é seguro manter a medicação de pacientes cardíacos com Covid-19

Pesquisa intitulada BRACE CORONA pode unificar as práticas médicas no tratamento de pacientes com problemas cardíacos durante infecção pela Covid-19

 

Pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e do Brazilian Clinical Research Institute (BCRI), com apoio da Duke University, acabam de oferecer uma resposta sólida para o tratamento da Covid-19 em pacientes com problemas cardíacos: eles podem (e devem) continuar usando seus medicamentos cotidianos durante a hospitalização, sem que isso intensifique a infecção pelo novo coronavírus. O estudo, intitulado BRACE CORONA, faz parte de umas das iniciativas do projeto Ciência IDOR Contra a Covid-19 (CIC-19), e foi o único do Brasil a participar da sessão The Late-Breaking Clinical Trials no ESC Congress 2020, maior congresso de cardiologia do mundo, que ocorreu no início deste mês. Fora isso, a publicação da pesquisa completa já está agendada para um importante periódico científico, e estará disponível em breve.

Quando foi amplamente divulgado que os pacientes com maior risco de morte por Covid-19 eram idosos e pessoas portadoras de comorbidades, nossos pesquisadores  atentaram rapidamente aos pacientes com problemas cardíacos, que frequentemente se encaixavam nesse perfil. A razão dessa cautela era referente aos medicamentos que ajudam esses pacientes a melhorar o quadro de insuficiências cardíacas e controlar a pressão arterial, pois, quando o BRACE CORONA prontamente começou – logo no fim de março, início da pandemia – ainda não estava comprovado se essas terapias poderiam agravar os casos de Covid-19. 

No Brasil, cerca de 40% da população é hipertensa e, dentre ela, 80% dos pacientes são tratados com um desses dois medicamentos: BRA ou iECA. Os bloqueadores de receptores da angiotensina (BRA) e inibidores da proteína ECA (iECA) – uma das enzimas mais importantes no controle do sistema cardiovascular – são comumente utilizados no tratamento de pacientes com insuficiência cardíaca e para tratamentos de hipertensão arterial. A maior insegurança no uso desses medicamentos era porque alguns estudos sugerem que estas terapias aumentam a disponibilidade de EC2, proteína pela qual o vírus Sars-Cov-2 se conecta e invade o organismo. No entanto, os resultados do BRACE CORONA mostraram que isto não foi relevante para os desfechos clínicos.

Segundo o coordenador da pesquisa clínica em cardiologia do IDOR e professor da Duke University, Dr. Renato Lopes, a escolha por fazer um estudo randomizado, considerado padrão ouro dos ensaios clínicos, foi para trazer de forma mais rápida possível resultados práticos para o enfrentamento da pandemia. “Não estávamos testando uma hipótese, estávamos buscando estabelecer uma relação de causa e efeito. Devíamos parar ou não os medicamentos?”. Segundo Lopes, o estudo não apenas foi randomizado como híbrido, pois seu processo de randomização esteve inserido em um grande banco de registros que já estava em andamento através da Rede D’Or São Luiz (RDSL), o que otimizou o recrutamento dos participantes e trouxe dados importantes sobre os pacientes com Covid-19. “Este modelo híbrido foi feito pela primeira vez no Brasil, o que é muito inovador para um país grande como este. A variação entre os estados é muito grande, mas como a RDSL tem isso padronizado, nos foi permitido aplicar o modelo em um país de dimensões continentais”.

Para realizar essa pesquisa, dividiu-se em dois grupos 659 pacientes com casos leves a moderados da Covid-19, todos internados em quase 30 hospitais da RDSL. Metade dos participantes seguiu tomando os remédios para seus problemas crônicos, enquanto a outra metade foi suspensa de seus medicamentos cotidianos por um mês. O desfecho primário considerado foi a proporção de pacientes vivos e fora do hospital ao final desses 30 dias. O grupo que manteve os medicamentos pontuou um resultado clínico ligeiramente melhor, com 95% dos pacientes vivos e fora do hospital no período de 30 dias. Já no grupo que suspendeu os medicamentos, o estado clínico foi de 91,8% no fim do mesmo período. 

Isto mostrou que a suspensão do iECA e do BRA não muda significativamente os desfechos dos casos leves e moderados da Covid-19, mas ainda favoreceram a sobrevida dos pacientes que seguiram com seus tratamentos cardíacos. Com esses resultados, o BRACE CORONA pôde dar uma resposta definitiva à manutenção desses medicamentos no tratamento de pacientes com Covid-19 que também são portadores de comorbidades cardíacas, tranquilizando essa população em relação aos seus desfechos e esclarecendo uma prática que deve ser aplicada no mundo inteiro, a partir de agora.

 

Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu

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