Falta de consciência sobre limitações da memória é um dificultante no tratamento de pessoas com demência

Estudo do CNA/Memory Clinic traz novos achados sobre a demência com corpos Lewy, segunda causa mais comum de demência

Pesquisadores do Centro de Neuropsiquiatria Aplicada (CNA)/ Memory Clinic do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) publicaram recentemente um estudo inédito sobre pacientes com demência com corpos de Lewy (DCL). O artigo, disponível na revista científica International Journal of Geriatric Psychiatry, é o primeiro a observar que a autoconsciência de pacientes com DCL acerca de seus sintomas pode ser pior que o quadro encontrado em pacientes com Alzheimer.

Embora sejam similares em muitos aspectos, a Doença de Alzheimer (DA) se caracteriza principalmente por alterações na memória de curto prazo, enquanto a DCL apresenta sintomas de parkinsonismo, como a lentificação dos movimentos e rigidez de membros, além de alucinações e flutuações cognitivas. “As duas doenças são diferentes, mas é muito comum que idosos com demência tenham as duas doenças ao mesmo tempo. Quando isso acontece, as manifestações neurológicas podem ser um misto das duas condições. Nosso estudo ajuda a trazer mais informações sobre como funciona essa interseção entre DCL e DA”, explica o primeiro autor do estudo, Dr. Victor Calil.

Segundo o neurologista, um dos sintomas que mais dificultam o tratamento de demências como essas é a anosognosia, isto é, a falta de consciência ou negação do paciente sobre as próprias limitações devido à doença. “Esses pacientes não compreendem a necessidade dos cuidados aos quais são submetidos, como uso dos medicamentos e restrição a algumas atividades, e a qualidade de vida dos cuidadores de pessoas com demência e anosognosia é igualmente muito afetada”, acrescenta. Embora esse quadro já tenha sido muito estudado para a doença de Alzheimer, pouco se sabia sobre a relação entre a anosognosia e a doença com Corpos Lewy, que depois da DA é a segunda causa mais comum de demência degenerativa.

Para inferir a gravidade da anosognosia nesses casos de demência, os pesquisadores do CNA/ Memory Clinic submeteram 40 indivíduos (20 com DCL e 20 com demência devido à DA) a um questionário específico, relacionado a queixas de memória, e a um teste neuropsicológico. Os pacientes dos dois grupos tinham a mesma faixa etária e nível de escolaridade similar, além disso, mais da metade dos participantes também realizou um exame de ressonância magnética para ver possíveis disparidades de imagem.

“Os resultados mostraram um desempenho semelhante entre os dois grupos em testes de memória, mas os pacientes de DCL tiveram menos queixas de memórias em questionários específicos, o que demonstra menor consciência de suas limitações”, e portanto, maior anosognosia, comenta o primeiro autor.

O estudo foi o primeiro a mostrar que pacientes com DCL podem ter menos ciência sobre seus déficits de memória do que indivíduos com DA. Ainda assim, os autores afirmam que o fenômeno da anosognosia permanece heterogêneo na DCL e acreditam que a coexistência desta doença com a DA em alguns pacientes da amostra pode ajudar a explicar o pior índice nos resultados do grupo.

De qualquer forma, esse achado é um passo muito importante para o maior conhecimento do sintoma em ambas as doenças. “Ainda não existe forma de evitar a anosognosia; também não existe tratamento específico para este sintoma. Apesar disso, ele é uma variável muito importante a se levar em conta no manejo do paciente com demência. Como é um obstáculo no tratamento, seu reconhecimento é essencial para que tracemos estratégias terapêuticas mais específicas e individualizadas para o paciente e para o seu cuidador. Nesse aspecto, medidas não-farmacológicas vão desempenhar um papel fundamental”, informa o Dr. Calil.

O grupo de pesquisadores envolvidos na pesquisa do CNA/Memory Clinic também têm estudado o fenômeno de anosognosia em diferentes tipos de demência por meio de diferentes ferramentas, e informam que em breve terão novos achados e publicações sobre o assunto.

Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu.
Quer receber as notícias do IDOR pelo WhatsApp? Clique aqui, salve o nosso número e mande uma mensagem com seu nome completo. Para cancelar, basta solicitar!

Veja também