Homens são mais afetados pela Covid-19

Os riscos para população masculina são agravados por questões biológicas e culturais

Em grande parte dos países afetados pela pandemia, um dado é iterado: homens são os que mais morrem devido a complicações da Covid-19. Isso foi observado em relatórios oficiais da China, Itália, Espanha e também no Brasil que, com uma população majoritária de mulheres, possui cerca de 60% das mortes desta pandemia atrelada ao sexo masculino. Para entender essa diferença de desfecho, cientistas nacionais e internacionais levantam algumas hipóteses.

Realizado por pesquisadores chineses, um estudo publicado no mês passado reiterou que a idade avançada e a presença de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, são os fatores que representam maiores riscos no desenvolvimento da Covid-19; no entanto, pacientes homens com comorbidades mostram maior mortalidade que mulheres com os mesmos problemas, além de apresentar manifestações mais graves da doença. A pesquisa sublinha que a maior mortalidade em homens também esteve presente em estudos envolvendo Sars, doença causa por outra espécie do coronavírus.

Uma das explicações científicas dadas para esse cenário é a genética: o cromossomo X, associado a várias respostas de nosso sistema imunológico, está presente em dobro nas mulheres, enquanto homens carregam apenas um (XY). Essa condição genética permite que as mulheres apresentem uma menor carga viral, uma menor resposta inflamatória e uma melhor resposta imune.

Um estudo brasileiro realizado pela Unifesp, que ainda está em formato pré-print, levanta outra hipótese genética. Segundo seus autores, o gene TRIB3 é responsável pela produção de proteínas que reagem ao novo coronavírus (Sars-CoV-2) em células do revestimento pulmonar. Esse gene diminui sua expressão em indivíduos idosos do sexo masculino, o que também ajudaria a explicar a manifestação de sintomas mais graves da Covid-19 nessa população.

Para além das explicações biológicas, cientistas sociais também lançam luz em fatores culturais que aumentam a susceptibilidade de homens a alguns riscos de saúde. Em 2016, uma pesquisa do Ministério da Saúde revelou que ⅓ dos entrevistados homens não ia ao médico para exames de rotina; enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) ressaltou que o descuido com a saúde masculina é também um problema predominantemente cultural e sexista na América Latina.

Segundo o relatório da OMS, publicado no ano passado, as expectativas sociais em relação aos homens — de serem sexualmente dominantes; verem o cuidado como antítese de masculinidade; e evitarem discutir suas emoções ou procurar ajuda — contribuem não apenas para o surgimento de doenças crônicas não transmissíveis como aumentam as taxas de suicídio, homicídio, vícios e acidentes de trânsito nessa população. Ainda que mulheres também apresentem comorbidades, a cultura de não buscar acompanhamento médico de rotina faz com que as manifestações de doença sejam mais graves em homens, mesmo naqueles que possuem maior escolaridade.

Contudo, todos os especialistas,  sejam das ciências humanas ou biológicas, concordam que não podemos descrever um motivo único para a maior mortalidade de homens observada durante a pandemia. No entanto, podemos ter em mente este risco aumentado de acordo com o gênero, e manter a atenção para as complicações mais frequentes no grupo de pacientes masculinos com comorbidades. Mas, nossa melhor garantia para solucionar essa disparidade no futuro, será investir em políticas que incentivem os homens a cuidarem de  sua saúde, reduzindo o desenvolvimento de doenças crônicas que vulnerabilizam essa população.

Escrito por Maria Eduarda Ledo

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