Mapa do tratamento para o câncer de pâncreas

Resultados da maior pesquisa já realizada sobre o tema indicam que o crescimento do número de casos deste tipo de tumor no Brasil não foi acompanhado pelo aumento da oferta de seu principal tratamento.

Apesar do acentuado aumento do número de casos de câncer de pâncreas observado no Brasil recentemente, o número de cirurgias para tratar a doença – atualmente a única terapia potencialmente curativa – não seguiu a mesma tendência. Essa é a conclusão do maior estudo já conduzido sobre o tema, publicado na edição de fevereiro do periódico internacional Hepatobiliary & Pancreatic Diseases International. Para os pesquisadores, a redução no número de leitos hospitalares e o acesso tardio ao tratamento podem ajudar a explicar a discrepância observada.

A mortalidade por tumor de pâncreas já é a quarta maior entre todos os tipos de câncer, mas, apesar dos avanços recentes nos métodos diagnósticos, projeções apontam que o número de casos ainda deve aumentar. Além de investimentos em pesquisas científicas nas áreas de identificação e tratamento, estudos com grandes bases de dados permitem capturar o perfil demográfico e geográfico da doença, a fim de direcionar políticas públicas que visem a diminuição do seu impacto.

Em estudo anterior, um grupo de pesquisadores, liderado pelo médico gastroenterologista do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Heitor de Souza, já havia constatado aumento de 87% no número de casos de câncer de pâncreas entre os anos de 2005 e 2012 no Brasil. Os fatores que podem explicar esse crescimento incluem o envelhecimento populacional e aumento na exposição a fatores de risco, provavelmente associada modificações ambientais. Entretanto, melhorias no acesso a unidades de tratamento, além do aperfeiçoamento nos sistemas de notificação de doença, também devem ter contribuído.

Dando sequência às investigações sobre o padrão de distribuição do câncer de pâncreas no país, faltava entender a distribuição do acesso dos pacientes ao principal método de tratamento da doença – a cirurgia de remoção total ou parcial do pâncreas, chamada de pancreatectomia. Assim, os pesquisadores utilizaram a base de dados do Sistema Único de Saúde (Datasus) para explorar quantos procedimentos do tipo foram realizados, em cada município do país.

Foram incluídos dados de pacientes acima de 20 anos que deram entrada no sistema entre os anos de 2008 e 2015 com o diagnóstico de câncer de pâncreas e que foram submetidos à cirurgia. Quando comparados aos registros de 2008, foi observado que a incidência de câncer de pâncreas aumentou 136% entre as mulheres (passando de 2,5 a 5,9 casos para cada 100 mil habitantes) e 121% nos homens (de 2,8 para 6,2 ocorrências em cada 100 mil habitantes).

Perfil da pancreatectomia no Brasil

No mesmo período, o número de cirurgias realizadas também aumentou, mas não na mesma proporção que o numero de casos (hospitalizações), alcançando apenas 37%. Dos quase 2,4 mil procedimentos realizados, 254 ocorreram em 2008, e 348 foram contabilizados em 2015. A análise sobre as macrorregiões do país onde a cirurgia foi mais realizada refletiu o perfil urbano da doença: as regiões Sudeste e Sul concentraram 76% dos procedimentos.

Um dos fatores que podem ajudar a explicar por que o número de cirurgias não acompanhou o aumento dos casos de câncer de pâncreas pode ser a redução progressiva no número de leitos do Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2005 (acumulando uma perda de 12,7% entre 2005 e 2015), segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Surpreendentemente, a região Nordeste registrou o maior aumento do número de cirurgias realizadas (75%).

Por fim, os dados corroboraram achados prévios de que a pancreatectomia é um tratamento seguro: a mortalidade pós-cirurgia diminuiu ao longo dos anos (18% em 2010 e 12% em 2014), seguindo mais baixa do que a observada nos pacientes que não foram submetidos ao procedimento (27,5% em 2010 e 26% em 2014). Além disso, os investigadores evidenciaram também que hospitais de grandes centros urbanos apresentaram menores taxas de mortalidade.

Para os pesquisadores, os resultados do estudo podem ser utilizados como fonte de dados para apoiar políticas públicas que tenham como meta otimizar o cuidado ao paciente com câncer de pâncreas. A discrepância entre os altos índices da doença e a oferta pelo tratamento adequado acendem um alerta para as autoridades.

?