Médicos reavaliam necessidade de ventilação mecânica invasiva em casos de COVID-19


Saber com precisão quem precisa de procedimentos invasivos pode melhorar o fluxo de leitos hospitalares.

O manuseio de pacientes com COVID-19 tem sido tema principal de trocas e discussões entre médicos de todo o mundo. Após a publicação de um estudo alarmante na revista científica The Journal of the American Medical Association (JAMA), na qual foram analisados 2.600 pacientes de terapia intensiva da região de Nova Iorque, os achados mostraram que dos cerca de 300 infectados que precisaram de respiração artificial, 88% não resistiram à doença.

Em uma matéria publicada na Reuters, agência de notícias britânica, médicos de diversos países foram entrevistados a respeito de sua experiência com pacientes internados com COVID-19 e os resultados do uso da ventilação mecânica invasiva. O consenso foi que o procedimento é responsável por salvar muitas vidas nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI), no entanto, muitos profissionais também destacaram que alguns fatores influenciam no agravamento de riscos aos pacientes, como a aplicação da ventilação invasiva por profissionais não capacitados e a utilização prematura do procedimento.

Como resultado de uma iniciativa global com objetivo de padronizar o manuseio de pacientes com COVID-19 nas UTIs, o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) participou da elaboração de um protocolo internacional que foi recém-publicado pelo periódico científico Intensive Care Medicine. Segundo o documento, os hospitais devem assumir que 70% dos pacientes admitidos em suas UTIs pode necessitar de algum aparelho auxiliar respiratório, e que mais da metade dessas pessoas têm a possibilidade de precisar da ventilação mecânica invasiva.

Segundo um dos autores do estudo, o médico e pesquisador do IDOR, Dr. Jorge Salluh, discutir quando e a quem aplicar a ventilação mecânica invasiva é providencial para otimizar os fluxos nas UTIs. “Antes, havia menor percepção de segurança para utilizar os procedimentos não invasivos, porque a vedação dos tratos respiratórios não é total e poderia implicar na contaminação dos profissionais e de outros pacientes. No entanto, com estudos mais recentes da COVID-19, essa hipótese não configura mais um risco tão relevante, e tratar com sucesso pacientes de forma não invasiva na UTI poderia reduzir pela metade o tempo de internação requerido pela ventilação mecânica invasiva. Em especial nas fases mais precoces da pneumonia”, explica.

O médico afirma que manter na terapia intensiva os pacientes com procedimentos de ventilação não invasiva e alto fluxo de oxigênio segue como premissa mandatória, porque o quadro clínico pode piorar rapidamente e é necessário que estejam em um ambiente de alta observação para controle de qualquer agravamento. “O grande debate é justamente qual seria o paciente ideal para a ventilação mecânica invasiva. Existem os casos óbvios de quando é completamente necessário ou descartável o uso desse método, mas os casos que ficam entre esses extremos são difíceis de determinar. A seleção deste paciente ideal seria a chave para reduzir o tempo de internação e também o custo dos tratamentos”, relata.

Considerando que alguns municípios do país já se encontram em colapso hospitalar por falta de leitos e equipamentos para atendimento, o Ministério da Saúde concentra esforços para melhor equipar o Sistema Único de Saúde (SUS). No fim de abril, foram comprados mais de 3 mil respiradores de produção nacional. A nova aquisição totalizou 14.100 ventiladores pulmonares, adquiridos especialmente para o fortalecimento da rede pública de saúde durante o enfrentamento da pandemia.

Escrito por Maria Eduarda Ledo

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