Neurociência a serviço da sala de aula

Psiquiatra brasileiro radicado na França apresenta no IDOR suas pesquisas sobre como facilitar o processo de alfabetização das crianças.

Professores experientes na educação básica podem dizer, empiricamente, que uma dificuldade comum entre as crianças em fase de alfabetização é diferenciar letras espelhadas, como b e d ou p e q. Mas por que isso acontece? Que tipo de fenômeno acontece no cérebro para favorecer essa confusão, e como poderíamos resolvê-la? A neurociência cognitiva pode ajudar. Psiquiatra e pesquisador da Universidade Aix-Marseille, na França, Felipe Pegado esteve no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) na semana passada para falar sobre suas pesquisas na área.

Desde o doutorado, Pegado procura desvendar o que muda no cérebro humano depois da alfabetização. Para isso, ele realizou um experimento com mais de 60 adultos com diferentes níveis de proficiência em leitura – desde analfabetos completos até pessoas com nível universitário. Como esperado, a velocidade com que as pessoas liam variou de forma proporcional ao nível educacional. Porém, com ajuda da ressonância magnética funcional, o psiquiatra e seus colaboradores descobriram algo curioso: no cérebro das pessoas que sabem ler, o exercício da leitura ativa não só regiões relacionadas à função visual, mas também aquelas que estão ligadas à audição.

No estudo, os cientistas observaram que a região auditiva do córtex temporal responde fortemente a estímulos auditivos, mas não a estímulos visuais de baixo nível – como um padrão quadriculado, por exemplo. Porém, quando uma pessoa observa palavras escritas, essa mesma região auditiva responde de maneira proporcional ao seu nível de leitura. “Os melhores leitores ativam a região auditiva quase com a mesma intensidade com que essa ativação ocorre quando eles escutam a palavra”, contou o palestrante.

De maneira paralela, áreas relacionadas à função visual também se ativaram no cérebro de leitores proficientes no momento em que eles cumpriam tarefas essencialmente auditivas, como diferenciar uma palavra de um som sem significado. Trocando em miúdos, o que o experimento descobriu foi que a alfabetização conecta o sistema visual do cérebro com o sistema auditivo. “Essa correspondência entre as letras e os sons torna-se tão automática que, quando a gente vê uma palavra escrita, é como se a escutássemos também”, relatou Pegado.

O passo seguinte da pesquisa foi entender que tipo de intervenções seriam possíveis para facilitar o processo de alfabetização. Nesse momento, Pegado debruçou-se com mais atenção sobre o problema das letras espelhadas.

Ocorre que nosso cérebro está desenhado para reconhecer figuras mesmo que nos sejam apresentadas invertidas ou espelhadas. “Chamamos esse fenômeno de invariância em espelho”, contou o psiquiatra. “Ele não acontece apenas no cérebro humano, mas também em macacos, pombos, polvos, gatos e várias outras espécies animais. Provavelmente, confere uma vantagem evolutiva: reconhecer rapidamente uma imagem já vista, ainda que sob um outro perfil”.

Quando se trata de diferenciar as letras b e d ou p e q, no entanto, a invariância em espelho é um obstáculo. Por isso, durante o processo de alfabetização, é preciso ensinar o cérebro a perceber essas letras como diferentes, até que ele seja capaz de fazer essa distinção em uma fração de segundo. A hipótese de Pegado é que esse aprendizado envolve não apenas o sistema visual, mas é influenciado também por aspectos auditivos (pois o som das letras é diferente), motor (pois a forma de escrever também varia) e da própria fala (pois as letras são pronunciadas de forma distinta).

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Com isso em mente, o pesquisador criou, em colaboração com o neurocientista Sidarta Ribeiro, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um treinamento voltado a crianças em fase de pré-alfabetização. Os exercícios, realizados durante meia hora por dia ao longo de três semanas, têm como objetivo combinar abordagens auditivas, motoras e sensoriais para trabalhar a distinção de letras espelhadas.

A metodologia foi testada em um experimento. Para começar, todas as crianças fizeram um teste de discriminação de letras em espelho no computador. Em seguida, foram divididas em quatro grupos. O primeiro grupo era o grupo controle, que não recebeu treinamento algum. Já o segundo grupo recebeu um treinamento não específico para o problema da invariância em espelho. Por fim, o terceiro e o quarto grupos receberam o treinamento desenvolvido pela equipe de Pegado, com a diferença de que as crianças do último grupo tiravam uma soneca após completarem os exercícios. Ao final, todas as crianças refizeram o teste de discriminação das letras em espelho. Os grupos que participaram do treinamento específico para essa tarefa tiveram resultados melhores do que aqueles que não foram treinados.

Ao repetirem os testes novamente quatro meses após o treinamento, os cientistas obtiveram um outro resultado curioso. Embora as crianças que participaram do treinamento tenham novamente apresentado bons resultados, as crianças que fizeram o treinamento e tiraram uma soneca depois tiveram performances ainda melhores. “Não era apenas a discriminação em espelho que estava melhor, mas também o nível de leitura global das crianças”, narrou o especialista.

Para Pegado, os resultados são animadores porque podem levar a soluções concretas para facilitar a aprendizagem da leitura entre as crianças. “Acreditamos que esse tipo de treinamento pode ser interessante para preparar o cérebro da criança no comecinho da alfabetização”, argumentou. “Essa metodologia pode ajudar as crianças a ganhar tempo e ler mais rápido depois”.

Ainda em sua palestra, o psiquiatra falou um pouco sobre outras pesquisas que desenvolve na área da neurociência cognitiva. Ele investiga, por exemplo, o funcionamento dos sistemas visual e auditivo no cérebro de jovens com autismo, e como esses sistemas trabalham juntos para interpretar situações sociais em que é necessário imaginar o que outras pessoas ou grupos estão pensando.

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