No laboratório e na sociedade

Da genética à saúde pública, Jornada de Pós-Graduação do IDOR discutiu os desafios do estudo de fenômenos relacionados ao envelhecimento.

O que um verme pode nos ensinar sobre o envelhecimento? Para o francês Hugo Aguilaniu, muita coisa. Em seu laboratório no Instituto de Genômica Funcional de Lyon, na França, ele conduzia estudos com o nematódeo Caenorhabditis elegans sobre os componentes genéticos e celulares desse processo. Há dois anos morando no Brasil e diretor-presidente do Instituto Serrapilheira, Aguilaniu se prepara para voltar aos laboratórios no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), do qual será colaborador. Durante a Jornada de Pós-Graduação do IDOR, no dia 20 de dezembro, ele falou sobre o tema e as motivações de seu trabalho.

“A primeira definição de envelhecimento quem deu foi um matemático”, disse, referindo-se ao inglês Benjamin Gompertz, cujo trabalho descreveu que, para humanos, o risco de morrer cresce exponencialmente com a idade. Por outro lado, essa curva não faz sentido para outras espécies vivas, e os biólogos têm dificuldade de descrever com precisão o que é o envelhecimento, uma vez que os diferentes seres vivos o manifestam de formas muito particulares. “Não vim dizer o que é envelhecer, porque não sei. Mas estudo isso para tentar descobrir”, brincou o palestrante.

Hugo Aguilaniu

Aguilaniu está interessado em como o envelhecimento se manifesta no interior das células. Para isso, escolheu ter como modelo C. elegans, um verme transparente com cerca de um milímetro de comprimento, que vive apenas 19 dias. Uma particularidade de seu ciclo de vida é que, quando exposto a ambiente com altas temperaturas, baixa disponibilidade de alimento ou superpopulação, o verme passa por uma fase chamada dauer – palavra em alemão que significa “durável” –, na qual pode permanecer por mais de quatro meses.

Na década de 1990, cientistas identificaram os genes responsáveis por induzir essa fase nos C. elegans e conseguiram expressá-los nos vermes adultos, o que aumentou seu tempo de vida. A partir daí, pesquisadores – incluindo Aguilaniu – têm procurado, com a ajuda desses organismos, esclarecer os mecanismos celulares ligados ao prolongamento da vida. Até agora, duas explicações promissoras estão relacionadas ao metabolismo da insulina e à restrição calórica. Embora a observação de que a via de insulina e a restrição alimentar estão relacionadas à longevidade não seja nova, ainda há muito a explorar para esclarecer como isso acontece, do ponto de vista molecular.

Confira a palestra completa.

Impacto sobre o SUS

Outra visão sobre o envelhecimento – a da saúde pública – também esteve em pauta durante a Jornada de Pós-Graduação do IDOR. O médico intensivista Fernando Bozza, pesquisador do IDOR e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), enfatizou que a população brasileira está envelhecendo, o que tem impacto direto sobre o atendimento em saúde. “Em 2030, já teremos mais idosos do que crianças no Brasil”, disse, destacando que, diante dessa nova estrutura populacional, será necessário repensar como o país investe seus recursos para atender à sociedade. “O Brasil vai passar, em 20 anos, por uma transição demográfica que a França demorou 100 anos para passar. A partir de 2040, a população vai começar a diminuir. Precisamos planejar esse momento”, alertou o especialista.

Bozza faz parte de um estudo, em colaboração com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), cujo objetivo é avaliar o impacto do envelhecimento da população brasileira sobre o Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo ele, embora haja uma preocupação em aumentar a quantidade de recursos disponibilizada para a saúde, nem sempre gastar mais resulta em maior expectativa de vida para a população. É preciso, fundamentalmente, aumentar a eficiência do setor, eliminando serviços desnecessários, excesso de custos administrativos e oportunidades perdidas de prevenir doenças. Bozza lembrou que a população idosa apresenta mais deficiências – visuais, auditivas, cognitivas – do que os jovens e, portanto, é preciso que o SUS esteja preparado para atender cada vez mais pacientes com esse perfil. Atualmente, 27% das admissões no SUS correspondem a idosos, um número que deve crescer nas próximas décadas.

Ao comparar dados sobre o atendimento a idosos no SUS em 2010 e 2016, Bozza avaliou que houve uma melhora na atenção primária e no atendimento das doenças crônicas. Porém, o atendimento de idosos em situações agudas e graves – em particular, doenças infecciosas – parece ter piorado, na opinião do especialista.

Alunos focados no envelhecimento

Vários dos projetos de doutorado dos alunos do IDOR têm o envelhecimento como foco ou pano de fundo. No trabalho da física Fernanda Meireles Ferreira, o foco são as alterações cerebrais encontradas nas imagens por ressonância magnética de pacientes idosos normais e com comprometimento cognitivo leve, apresentando ou não síndrome metabólica – conjunto de problemas de saúde que aumentam o risco de doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral e diabetes. Seu objetivo é verificar a interdependência entre a síndrome metabólica e o déficit cognitivo.

Já a neurologista Luciana Pamplona estuda a encefalopatia hepática, condição em que o cérebro é prejudicado pelo excesso de toxinas que se acumulam em decorrência da falência do fígado. “O fígado pode ser comprometido em várias doenças crônicas que acometem a população em envelhecimento”, explicou. “Mas é comum que os problemas do fígado só sejam diagnosticados em estado muito avançado”. Em sua pesquisa, ela afere, por meio de uma série de exames neuropsicológicos, o estado mental de pacientes que foram diagnosticados com a encefalopatia hepática, além de realizar exames de neuroimagem.

Por sua vez, a médica intensivista Giulliana Moralez trabalha o conceito de fragilidade – um indicador de vulnerabilidade dos pacientes idosos – no âmbito das unidades de terapia intensiva. “Cerca de 50% dos pacientes admitidos em UTIs têm mais de 65 anos”, contou. Seu trabalho inclui a análise de dados de 129 mil pacientes críticos, dos quais 19% foram classificados como frágeis. Ela busca entender como a fragilidade está relacionada à mortalidade, ao tempo de internação e à necessidade de suporte ventilatório e transfusão de sangue, entre outros fatores.

Ricardo Yogui lidera exercício de grupos

Durante a Jornada de Pós-Graduação, todos os alunos foram convidados a refletir sobre como suas diferentes linhas de pesquisa podem contribuir para a compreensão do envelhecimento e para lidar com os desafios de uma sociedade onde os idosos tendem a se tornar maioria. O engenheiro Ricardo Yogui, da Agência PUC-Rio de Inovação, propôs um desafio em que os doutorandos e professores, divididos em grupos, pensaram soluções práticas para um espaço de co-living voltado a essa população. O objetivo do exercício, guiado pela metodologia do design thinking, era suscitar nos participantes o desejo de transpor para a prática o conhecimento produzido na instituição. Por fim, o diretor de comunicação do IDOR, Stevens Rehen, falou sobre as iniciativas de divulgação científica realizadas ao longo do ano e incentivou os alunos e pesquisadores a participarem cada vez mais delas.

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Apresentação final de pôsteres

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