“O desafio não é mais tecnológico”: O Impacto dos Dados do Mundo Real (RWD) e o futuro da medicina personalizada

Em palestra, o Dr. Claudio Ferrari explica as oportunidades e desafios da implementação de RWD na área da saúde

Você já ouviu falar em Dados do Mundo Real, ou RWD, como é a sua sigla em inglês? Em palestra realizada para o evento Health Connections 2021 – Innovation Beyond the Future*, o médico oncologista e diretor de comunicação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), Dr. Claudio Ferrari, explicou como essas informações podem ser uma ferramenta revolucionária,  complementar aos estudos clínicos e de grande apoio para cuidados médicos contemporâneos.

Segundo o palestrante, a chamada quarta revolução industrial, na qual nos encontramos, refletiu grandes avanços tecnológicos na medicina, como a manipulação genética, nanomedicina, a utilização de inteligência artificial em pesquisas clínicas, a interconexão digital (iot) e principalmente o grande volume de dados resultantes desse novo cotidiano. Mas como essas informações podem ser usadas na otimização do cuidado ao paciente?

O Real World Data (RWD) é definido como toda a informação relevante de um indivíduo ou tratamento que não foi obtida através de estudos clínicos. Os Dados do Mundo Real são na verdade coletados através de diversas fontes, como prontuários médicos eletrônicos, contas hospitalares, dispositivos, aplicativos para celulares, redes sociais, entrevistas e questionários, e possuem grande potencial de benefício individual e coletivo na área de saúde, principalmente no desenvolvimento da medicina personalizada.

Imagine ter um centro de dados com todas as informações relevantes sobre a sua saúde, dados que seriam comparados com milhares de outros pacientes para indicar os melhores tratamentos, prevenir doenças, mantendo todos os profissionais de saúde alinhados em relação ao cuidado individualizado. Essa é a grande promessa do RWD. Porém, de acordo com Ferrari, ainda há alguns obstáculos antes de conseguirmos colocar todas essas informações em nosso melhor serviço.

“A integração de dados não é um verdadeiro obstáculo. Onde vejo o maior desafio é em fazer uma boa coleta de dados que não se torne um fardo para o médico ou para a equipe envolvida no cuidado ao paciente. O segundo ponto importante é deixar claro a quem pertence o dado: ele pertence ao indivíduo e não às instituições. O desafio não é mais tecnológico!”, defende.

O médico explicou que o modelo atual de registros de dados em saúde busca exclusivamente o cuidado imediato do paciente. As informações são incompletas, coletadas de forma isolada em cada atendimento médico, não havendo troca de informações entre os diferentes serviços que acompanham o paciente ao longo do tempo. O paciente também fica isolado do processo de registro das informações, desperdiçando a oportunidade de contribuir com seu próprio cuidado a partir do relato de sintomas, por exemplo.

Ele ressalta ainda que o RWD nunca tirará o espaço e a importância da pesquisa clínica, sendo, na verdade, uma ferramenta complementar a ela. “Estudos clínicos randomizados ainda são o gold standard, pois neles se controlam todas as variáveis e a partir daí tiram-se conclusões mais sólidas e confiáveis. A grande questão é que os estudos clínicos deixam de fora a maior parte da população que está sendo tratada e cuidada. Então, por mais que possam haver falhas no processo [de RWD] – e nós temos que entender que tem que haver uma seleção nesse dados –, eu entendo que esse é um caminho que tem que ser trilhado e a partir daí nós teremos muitos aprendizados.”

Ferrari não deixa de sinalizar as limitações do RDW, listando que essas informações podem ser tendenciosas e coletadas de forma inconsistente, e que por isso deverá obedecer alguns padrões de seleção para serem confiáveis. Mas os benefícios dessas informações são muito mais numerosos, podendo fomentar novos modelos preditivos e de monitoramento, possibilitar intervenções precoces, reconhecimento de riscos, além de oferecer a experiência de um grande número de pacientes para controle de qualidade de medicamentos.

“É uma disrupção; é um momento novo; é um trabalho de construção coletiva”, conclui o palestrante, afirmando que as mudanças que nos separam das promessas do RDW são desafios de caráter mais político do que tecnológico.

Confira o conteúdo completo da palestra clicando aqui.

*Ocorrido em maio deste ano, o evento digital “Health Connections 2021 – Innovation Beyond the Future” foi uma iniciativa conjunta do Israel Trade & Investment e do Consulado Geral de Israel no Brasil para promover palestras de brasileiros e israelenses sobre temas atuais de saúde e tecnologia e conectar médicos, pesquisadores, gestores e empreendedores atuantes nos ramos. Representando o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), o médico oncologista e diretor de comunicação do Instituto, Dr. Cláudio Ferrari, participou da mesa “Soluções de Inteligência Artificial para Diagnósticos”.

Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu.

Veja também