O enigma da África: poucas mortes indicam que esta população pode ser mais resistente do que outras

O continente africano conta relativamente poucas mortes, se comparado com o cálculo de previsão e com dados de outros países do globo.

A África parece estar melhor do que o previsto no início da pandemia. Agora o continente conta 23 mil mortes. Comparando o continente ao Brasil, que conta mais de 106 mil mortes, aquele tem mais de 4 vezes menos mortes em número absolutos. A Revista Science Mag, da Revista Nature, publicou um artigo que discute o enigma que os cientistas buscam resolver: por que há tão poucas mortes por Covid-19, se compararmos com outros países do mundo?

Alguns dados indicam que os africanos estão lidando melhor com o Sars-CoV-2 se compararmos com europeus e americanos de norte a sul. No Malawi, cientistas testaram 500 profissionais da saúde e verificaram que 12,3% dos testados já haviam sido expostos ao coronavírus. Mas o ´cálculo da estimativa de casos do país foi 8 vezes maior do que o número de casos reportados. Já em duas cidades de Moçambique encontraram anticorpos em 3% a 10% dos participantes, dependendo das profissões exercidas – mercadores e profissionais da saúde tinham as maiores taxas e o país tem 16 mortes confirmadas por Covid-19.

Por outro lado, temos os casos não diagnosticados, como no Quênia, que testa uma em cada 10 mil pessoas por dia, mas apesar da dedução de que as mortes estão sendo subnotificadas, esse não parece ser o caso, pois a taxa de mortalidade do país não aumentou. No país, pesquisadores analisaram o sangue de 3 mil doadores e verificaram que 1 em cada 20 quenianos possuem anticorpos para o vírus, o que indica que estas pessoas já se infectaram no passado. Pode-se comparar tais dados com os dos espanhóis, que no meio de maio tinham sua curva de casos decrescendo e contavam 27 mil mortos; o Quênia conta pouco mais de 100 mortos, e seus hospitais não reportam grande número de pessoas com os sintomas da Covid-19.

Marina Pollán, do Carlos III Health Institute em Madrid, Espanha, relata que a juventude de alguns países africanos pode estar lhes protegendo; a idade média do Quênia e Malawi são, respectivamente, 20 e 18, na Espanha é 45. Liga-se a baixa idade média das populações ao fato de que pessoas jovens têm se mostrado menos propensas a ter quadros graves de severidade da Covid-19 e de morrerem.

O imunologista Kondwani Jambo do Malawi traz outra hipótese, de que africanos podem ter se infectado por outros coronavírus que causam uma gripe um pouco mais forte, e nada mais grave se comparado aos sintomas da Covid-19. Outra possibilidade é de que o contato com a Malária e outras infecções podem preparar o sistema imune para lutar contra novos patógenos como o Sars-CoV-2. Fatores genéticos também podem proteger as populações africanas.

Por fim, testagens de diferentes anticorpos podem ajudar a desvendar o enigma africano. Enquanto isso, o continente não pode relaxar nas condutas de proteção da população, pois não sabemos de fato se os anticorpos nos trazem imunidade e por quanto tempo ela dura. Agora só nos resta esperar ansiosamente um tratamento efetivo e a tão sonhada vacina.

Escrito por Luiza Mugnol Ugarte.

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