Pesquisadores brasileiros criam metodologia de Vigilância Genética mais rápida e acessível

Novo método permite identificar de forma mais célere e barata as variantes circulantes em uma população


Publicado neste mês de abril, um artigo com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) identificou uma possível nova variante do Sars-CoV-2, vírus causador da Covid-19.

Com o aumento de casos severos da doença em todos os estados, há no momento uma maior preocupação com o surgimento de variantes ainda mais perigosas do novo coronavírus. Em conversa com o Dr. Renato Santana, pesquisador do IDOR, da UFMG e autor correspondente do estudo, ele explicou que no estado de Minas Gerais já foram identificadas 13 variantes em circulação, sendo as mais preocupantes a B.1.1.7, do Reino Unido, e a P.1, que surgiu em Manaus e cujo mapeamento também contou com a participação da equipe de Santana.

Ele explica que a nova possível variante teria traços da P.1 e também da variante P.2, cepa que não está associada a maior mortalidade mas que é mais contagiosa, no entanto isso não é o bastante para entender se estamos lidando com uma versão ainda mais perigosa do vírus. “Não podemos dizer ainda se é realmente uma nova variante. Para isso ainda precisamos de mais genomas e mais casos”, completa  o pesquisador, que fez a descoberta a partir de amostras clínicas coletadas na região metropolitana de Belo Horizonte, resultando no sequenciamento de 85 genomas de Sars-CoV-2 entre outubro de 2020 e março de 2021.

Mas os estudos sobre a genética do vírus não trazem apenas notícias alarmantes. Em cooperação com um grupo de Vigilância Genômica nacional, Dr. Renato participou do desenvolvimento de uma nova metodologia para identificar novas variantes de forma muito mais rápida e menos custosa.

Para identificar uma variante, é necessário utilizar um sequenciador de última geração (NGS), e o processo leva dias ou até semanas para poder ser concluído. O maior problema vem depois, quando é necessário  avaliar centenas de amostras para identificar quais variantes estão circulando em uma determinada população, o que reduz o número de amostras ideais a serem analisadas.

Entendendo que o modelo não atendia ao senso de urgência e à escassez de recursos da pandemia, os pesquisadores conseguiram mudar esse processo, utilizando o NGS apenas para descobrir novas variantes, que uma vez mapeadas poderiam ser identificadas em amostras pelo mesmo processo (e mesma máquina) pelo qual se realiza o diagnóstico por PCR. Com isso, o tempo de avaliação de amostras reduziu de semanas para cerca de 4 horas, multiplicando as amostras analisadas de centenas para milhares e fazendo uma cobertura muito mais precisa das variantes de uma população. 

Em reunião com a Organização Mundial da Saúde (OMS), no dia 16/04, foi pedido ao Dr. Renato que compartilhasse a metodologia com grupos de vigilância genômica do mundo todo, para acelerar as análise em vários outros países. ” E a ideia foi realmente fazer uma coisa aberta e disponível para todo mundo! Essa metodologia não só vai ser exportada como aproveitada nacionalmente pela Rede Vírus, iniciativa do ministério de tecnologia que diagnostica e tem pesquisadores em laboratórios do Brasil inteiro”, informa. Esse novo método já está sendo aplicado pelo IDOR no Rio Janeiro, inclusive, em parceria com o Richet, que oferece as amostras para o estudo. “Em breve devemos ter o histórico das variantes do Rio, também!”, antecipa o Dr. Renato Santana.

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