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Estudo aponta que a quantificação de gordura abdominal realizada por ressonância magnética é capaz de predizer o risco de doenças hepáticas, podendo, no futuro, se tornar uma alternativa às biópsias.

Um dos principais desafios para a redução dos alarmantes índices de doenças hepáticas crônicas relacionadas ao aumento da gordura hepática, é o seu diagnóstico, que exige a realização de biópsia, um procedimento inviável de ser realizado em grandes populações. Novo estudo liderado por pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, publicado no periódico internacional Journal of Gastroenterology and Hepatology, sugere que a avaliação das áreas de gordura abdominal utilizando a ressonância magnética pode oferecer uma alternativa não-invasiva para o diagnóstico dessas doenças.

As doenças hepáticas possuem algumas características que as tornam motivo de preocupação em saúde pública. Por um lado, são muito comuns e frequentemente evoluem de maneira silenciosa. Por outro, podem levar à inflamação, fibrose, cirrose e câncer, motivos que as fazem ocupar a oitava posição na lista das doenças que mais matam no Brasil. Um dos principais vilões por trás da alta incidência e mortalidade das doenças hepáticas é o diabetes tipo 2: pacientes diabéticos apresentam maior risco de acumular gordura no fígado, patologia chamada de doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), mais conhecida como esteatose hepática, e outras formas mais agressivas, como a esteato-hepatite e fibrose. O mais interessante é que, quando diagnosticada em fases iniciais, as doenças hepáticas podem ser controladas e curadas.

De acordo com os especialistas do estudo, as biópsias hepáticas, necessárias para a confirmação destas patologias, é inviável de ser realizada em um número grande de pacientes, como os que possuem DHGNA – estimados em 30% da população geral –, ou os portadores de diabetes. Isso se deve ao fato de este exame requerer internação hospitalar, oferecer risco ao paciente, e ter alto custo ao sistema de saúde. “A DHGNA está caminhando para se tornar a principal causa de doença hepática crônica, por isso é urgente que sejam desenvolvidos métodos diagnósticos mais acessíveis e que possam ser aplicados em larga escala”, afirma Daniella Parente, médica radiologista, pesquisadora do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino e autora principal do estudo.

A pesquisa

Entre 2010 e 2012, 66 pacientes portadores de diabetes tipo 2 com indicação de biópsia hepática foram incluídos no estudo. Usando um equipamento de ressonância magnética de alto campo, localizado no Instituto D’Or, os pesquisadores coletaram imagens abdominais a fim de quantificar a área de gordura pré-peritoneal, e das gorduras visceral e subcutânea. Esta ideia vem de evidências científicas que sugerem uma forte relação entre o depósito de gordura intra-abdominal e o surgimento de DHGNA.

Diferente de estudos anteriores, a equipe composta por médicos radiologistas, hepatologistas e físicos elaborou protocolos de imageamento que favorecem a visualização da gordura abdominal. O objetivo foi determinar se, apenas a partir quantificação desses depósitos de gordura, seria possível inferir o real estado do fígado, atestado pelo resultado da biópsia hepática.

Como esperado, a avaliação das biópsias hepáticas revelou que apenas 9% dos pacientes diabéticos possuíam o fígado sadio, enquanto que a maior parte deles apresentou esteatose moderada (45%) ou grave (29%). A análise das imagens mostrou que todos os três compartimentos de gordura (visceral, subcutânea e pré-peritoneal) possuem relação com a DHGNA e esteato-hepatite – este último considerado o primeiro passo para o desenvolvimento de doença hepática crônica.

Os pesquisadores também identificaram que a quantidade de gordura visceral e pré-peritoneal funciona como indicativo da gravidade da esteatose e da presença de fibrose hepática. Além disso, pela primeira vez foi possível determinar o grau de esteatose a partir da quantidade de gordura pré-peritoneal.

De acordo com Parente, apesar da população estudada ter sido a portadora de diabetes tipo 2, acredita-se que as medidas das gorduras intra-abdominais são capazes de indicar os pacientes de maior risco para as formas mais graves da DHGNA na população em geral. “Continuamos explorando outros métodos radiológicos capazes de nos fornecer informações sobre a saúde hepática em diversas doenças que acometem o órgão. Nossas pesquisas têm avançado para que estes novos métodos de diagnóstico cheguem o quanto antes à prática clínica”, finaliza.

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