Táticas de Guerra contra a Pandemia

Medidas de contenção e duração da guerra contra o novo coronavírus são discutidas em diversos países.

Em um intervalo de pouco mais de um mês, centenas de países implementaram medidas rigorosas para retardar a propagação da pandemia do novo coronavírus (COVID-19). Milhares de eventos foram cancelados; escolas, restaurantes, bares e clubes foram fechados, e os sistemas de trânsito estão parados.

Mas, como combater esse inimigo ainda está em discussão. As medidas variam muito entre os países e mesmo dentro dos próprios países. Na Europa; Itália, França e Espanha colocaram suas populações em um bloqueio quase completo, com a polícia ou os militares em alguns lugares patrulhando as ruas, enquanto bares no Reino Unido seguiram abertos. A Alemanha, como muitos países, fechou suas escolas, mas a Suécia optou por não interromper as aulas.

Na Ásia; Coréia do Sul, Hong Kong e Cingapura reverteram suas epidemias sem táticas muito autoritárias, no entanto, algumas das estratégias adotadas nesses países estão ausentes em outros lugares: testes generalizados para encontrar casos, rastrear seus contatos para testá-los ou colocá-los em quarentena, e incentivar – ou forçar – as pessoas infectadas a se isolarem.

As diferentes abordagens e diferentes evoluções da epidemia refletem as diferenças de recursos, cultura, governos e leis dentro de cada país. Mas também há muitas dúvidas sobre o que funciona melhor e como equilibrar o necessário e razoável dentro das medidas de contenção, especialmente quando previstas para um período prolongado.

Segundo o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, nenhuma medida isolada é o suficiente, “Não apenas testagens. Não apenas o rastreamento. Não apenas a quarentena. Não apenas o distanciamento social. Façam tudo”. Porém, o que muitos querem saber é por quanto tempo ainda deveremos seguir essas medidas de contenção.

Distanciamento social

Há pouca dúvida de que o distanciamento social pode reduzir bastante a transmissão do vírus, no entanto, muitos governos estão decidindo até que ponto essa abordagem será adotada. Além das proibições de reuniões e cinemas, restaurantes, academias e locais de culto fechados em diversos países, questões como o fechamento das escolas são questionadas. Algumas crianças podem acabar sendo cuidadas pelos avós idosos, e a falta das aulas pode forçar os profissionais de saúde, que são extremamente necessários, a ficar em casa, sem falar que as crianças podem acabar perdendo meses de educação e muitas do sistema público dependem da merenda escolar.

É por isso que alguns especialistas em saúde pública dizem que as medidas devem ser flexíveis. A Áustria e a Holanda enviaram a maioria dos estudantes para casa, mas as escolas permanecem abertas para os filhos daqueles que trabalham em setores vitais. Cingapura reduziu pela metade as turmas, instituiu medidas rigorosas de higiene e períodos de intervalo escalonados para reduzir o contato com o playground. Esses exemplos devem ser considerados e avaliados a médio e longo prazo.

Teste e isolamento

Um exemplo de país que combateu o vírus sem medidas drásticas foi a Coréia do Sul. Seus casos confirmados caíram de 909 para apenas 74, em menos de um mês. A chave para o sucesso tem sido um grande e organizado programa de testes, combinado com medidas para isolar pessoas infectadas, rastrear seus contatos e colocá-los em quarentena.

Mas um problema enfrentado por diversos países é a organização e distribuição dos kits de teste. Uma solução mais ágil para esse obstáculo estrutural seria envolver a população de maneira mais ativa, diz Luciana Borio, do Conselho de Segurança Nacional dos EUA. Borio espera que as pessoas infectadas, se devidamente educadas, se isolem e solicitem seus contatos recentes a procurar testes também. “É melhor educar a população para poder ajudá-la a resolver o problema por conta própria”, diz ela.

Sem final de jogo

Para muitos, a maior questão é: quando e como isso terminará? Segundo Mark Woolhouse, epidemiologista da Universidade de Edimburgo: “Estaremos vivendo com esse vírus indefinidamente”. Mantê-lo à distância pode exigir o bloqueio da sociedade por muitos meses, com custos surpreendentes para a economia, a vida social e a saúde mental, pelo menos até que uma vacina esteja disponível. E isso é inconcebível para Woolhouse e muitos outros. Já um estudo de modelagem realizado por pesquisadores do Imperial College London, publicado em 16 de março, concluiu que suprimir o vírus combinando todas as medidas disponíveis, incluindo o fechamento de escolas e o distanciamento social de toda a população, é a “única estratégia viável no momento atual”, escreveu a equipe.

Imperial College London também sugeriu um esquema no qual essas medidas mais severas pudessem ser relaxadas de vez em quando e depois impostas novamente quando os números de casos começassem a subir novamente. Nesse cenário, a população acumularia imunidade ao vírus, mas através de uma série de pequenos surtos em vez de um enorme. Pode não ser um cenário atraente, mas pode não haver outra escolha. Como o epidemiologista Seth Berkley, que chefia a Vaccine Alliance, diz: “Você não pode dizer que a Terra precisa parar por um ou dois anos”.

*Este conteúdo foi retirado da revista Science e adaptado pelo IDOR, confira a matéria completa, em inglês, clicando aqui.

Escrito por Maria Eduarda Ledo.