Terapias com anticorpos podem ser alternativa enquanto vacinas seguem em desenvolvimento

Utilizadas para tratar câncer e doenças autoimunes, terapias com anticorpos monoclonais podem ser uma arma contra a pandemia.

Enquanto métodos de imunização ativa – a exemplo das vacinas– exigem maior tempo de desenvolvimento e testagem clínica, a imunização passiva, que ocorre através da transferência de anticorpos, pode ser uma grande aliada durante a urgência da pandemia de Covid-19. Pensando nisso, cientistas de diversas nações estão apostando em pesquisas com anticorpos monoclonais para combater a doença a médio prazo. O principal objetivo é evitar mortes e a sobrecarga do sistema de saúde, enquanto soluções de longo prazo seguem em desenvolvimento.

Talvez você já tenha lido a respeito dos anticorpos monoclonais. Eles são proteínas desenvolvidas em laboratório que se ligam a estruturas pré-definidas de nosso corpo, com indicações no tratamento de diferentes tipos de doenças. O diferencial dos anticorpos monoclonais é que eles atacam com precisão estruturas específicas de um patógeno, como vírus, bactérias e células cancerígenas, ou estruturas de nosso próprio organismo, sendo utilizados amplamente no tratamento de doenças autoimunes  e oncológicas.

Em um estudo publicado este mês no jornal científico Nature Communications, cientistas da Universidade de Utrecht e do Erasmus Medical Center, nos Países Baixos, identificaram um anticorpo monoclonal humano capaz de impedir a infecção pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2). O teste foi realizado em células cultivadas em laboratório, mas há grande possibilidade de também atuar positivamente em seres humanos.

Por enquanto, a melhor notícia observada pelos cientistas é que o anticorpo neutralizante capaz de bloquear o Sars-CoV-2 é o mesmo que foi capaz de combater o coronavírus anterior, Sars-CoV, causador da epidemia de Sars em 2002. Esse anticorpo tem como alvo a glicoproteína S, que é a estrutura pela qual o vírus entra na célula hospedeira. E o lado bom disso é que o tratamento com esses anticorpos pode ser efetivo em futuras mutações dessa família viral.

Um outro estudo, comandado pelo cientista brasileiro Michel Nussenzweig, da Universidade Rockefeller em Nova Iorque, também obteve resultados positivos com anticorpos, e pretende testar em humanos em setembro deste ano. A pesquisa objetiva criar uma terapia tanto para eliminar o vírus em pessoas muito doentes como prevenir a infecção de pessoas não contaminadas.

Nussenzweig é especializado em utilizar anticorpos no tratamento de doenças autoimunes, como a ocasionada pelo HIV. Esse vírus, como o da dengue, tem imposto grande dificuldade ao desenvolvimento de uma vacina eficaz, o que faz o pesquisador ressaltar a necessidade de investimento em outras formas de controle da doença, já que ainda não sabemos como o coronavírus reagirá à imunização ativa em humanos.

Escrito por Maria Eduarda Ledo

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