Tratamentos alternativos para o uso abusivo de opioides

Em palestra no IDOR, Francisco Bastos fala da relação entre canabinoides e a redução de mortalidade por opioides

Quinta-feira passada (02/05) o IDOR recebeu o Dr. Francisco Bastos, pesquisador titular da Fiocruz, para palestrar sobre os resultados e o futuro do uso de canabinoides no tratamento do uso abusivo de opioides. Os opioides são drogas derivadas do ópio, como a morfina e a heroína, e muitas vezes estimulam casos de dependência severa devido ao seu consumo ilegal ou incorreto. O palestrante usa como exemplo quadros desenvolvidos nos Estados Unidos, especialmente na cidade de Baltimore, que foi atingida por uma verdadeira epidemia de opioides.

Baltimore apresenta uma crescente mortalidade por overdose em opioides desde 2011. Em 2017, as mortes chegaram a 85 a cada 100 mil habitantes, o que equivale a 0,1% dos moradores da cidade, a mais populosa do estado. Segundo Bastos, os EUA disponibilizam muitos fundos para o estudo do problema com opioides, e o que está sendo encontrado é que, em todos os estados onde houve mudança na legislação do uso de Cannabis, deixando-a mais acessível medicinal ou recreativamente, ocorreu também uma queda dramática da mortalidade por opioides. “O debate atual não é mais sobre essa correlação existir, porque ela está comprovada por mais de 40 estudos acadêmicos de lugares completamente diferentes e áreas geográficas completamente diferentes. Ela é uma correlação estabelecida. O problema é tentar entender essa causalidade”, declara o palestrante.

Para Francisco Bastos, encontrar a causalidade presente nessa correlação é uma tarefa difícil, já que os estudos até então são principalmente ecológicos, analisando dados estatísticos de áreas geográficas, mas não há perspectivas a curto ou médio prazo de estudos clínicos, ou seja, aplicado a pessoas. Esse impasse experimental ocorre por várias questões legais, de mercado e científicas também, que justificam que já existem outras substâncias para tratamento de intoxicações agudas e aguardam provas mais contundentes para aplicação clínica da Cannabis. No Brasil, o uso da Cannabis só é aplicado legalmente pela Anvisa em casos de epilepsia refratária, porém, embora não abordados amplamente na imprensa, os estudos acadêmicos sobre o tema continuam sendo desenvolvidos e trazem promessas estimulantes para o tratamento de ansiedade, depressão e dores crônicas, mesmo que os resultados ainda estejam em debate.

Bastos argumenta que o embate clínico não deve ser prioridade no desenvolvimento dos estudos, porque envolve muitas questões legais e até mesmo culturais nessa aprovação. Mas podem ser exploradas alternativas diferenciadas, como testes em organoides, que ele cita como exemplo os minicérebros desenvolvidos no IDOR, e defende que são recursos inovadores para esse tipo de pesquisa. O palestrante conclui que, mesmo que a mortalidade por abuso de opioides ainda não seja tão grave no Brasil, devemos desenvolver mais soluções antes que o problema possa se tornar crítico, já que as estatísticas começam a denunciar seu crescimento.

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