Os dados sobre a obesidade no Brasil fazem parte do novo Estudo Global sobre Carga de Doença, publicado na edição de maio da renomada revista científica The Lancet Regional Health Americas.
- O estudo é resultado do trabalho conjunto de milhares de pesquisadores de todo o mundo em mais de 200 países e cobre o período de 1990–2023.
- Os dados mostram como grandes mudanças de estilo de vida que a população mundial passou nas últimas décadas, como o aumento da urbanização e empobrecimento da qualidade da alimentação, afetam o aumento da obesidade.
- A partir das conclusões do estudo, a obesidade passa na frente da hipertensão e da glicemia alta como o maior fator de risco à saúde do brasileiro.
O que é a obesidade? A obesidade é uma doença?
Sim, a obesidade é uma doença, não um descuido pessoal com a saúde, e deve ser tratada sem preconceito e julgamentos, mas sim com ciência e acolhimento.
É reconhecida pela OMS – Organização Mundial da Saúde como uma doença crônica, complexa e multifatorial: sedentarismo, desequilíbrio calórico, genética, alterações hormonais e fatores emocionais costumam atuar juntos no desenvolvimento da doença.
A obesidade se caracteriza pelo acúmulo excessivo de gordura corporal e, sem tratamento, tende a se agravar com o tempo, elevando o risco de condições sérias como diabetes, hipertensão, gordura no fígado e colesterol alto.
Ela é de origem multifatorial, ou seja, vários elementos podem contribuir com fatores de risco no desenvolvimento da obesidade:
- Predisposição genética;
- Dieta rica em açúcar, gordura e ultraprocessados;
- Ingestão calórica maior do que o gasto energético;
- Sedentarismo;
- Uso de medicamentos como antidepressivos, esteroides, antipsicóticos e anticonvulsivantes;
- Condições hormonais: hipotireoidismo, síndrome metabólica, SOMP (Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina);
- Transtornos emocionais: estresse, ansiedade, depressão e compulsão alimentar;
- Privação de sono (afeta os hormônios que regulam a fome).
Sintomas da obesidade: da aparência à avaliação médica
O corpo dá sinais do acúmulo de gordura que começa a comprometer a saúde. Nem sempre uma pessoa ‘aparentemente’ acima do peso tem sintomas ou está doente, nem sempre as pessoas que apresentam estes sintomas mais comuns ´parecem’ estar acima do peso.
Os principais sintomas que o corpo mostra são o acúmulo de gordura na barriga, quadris e coxas, ganho de peso significativo, cansaço e falta de ar em atividades simples, dor nas articulações, apneia do sono e fadiga.
Nas crianças, os sintomas que aparecem são o ganho rápido de peso, dificuldade para correr, cansaço e alterações posturais. O crescimento diferente de cada criança interfere na avaliação dos sintomas da obesidade infantil, por isso o acompanhamento de um pediatra é indispensável.
Como é feito o diagnóstico de obesidade?
O especialista responsável pelo diagnóstico da obesidade é o endocrinologista. Para definir o grau da doença e seu tratamento, ele avalia o histórico de saúde e os hábitos do paciente, e realiza exame físico, medição da circunferência abdominal e o cálculo do IMC (Índice de Massa Corporal). O diagnóstico também inclui o levantamento de informações através de exames laboratoriais e de imagem
Para avaliar o estado geral de saúde do paciente e possíveis doenças associadas, vários exames podem ser solicitados com a Bioimpedância (gordura corporal e massa muscular), Glicemia de jejum e HbA1c (rastreio de diabetes), Lipidograma (colesterol e triglicerídeos), TSH, T3 e T4 (função da tireoide), Ultrassonografia abdominal (gordura visceral), e ainda exames de vitamina D e provas hepáticas e renais.
O que é o IMC e como se calcula?
O Índice de Massa Corporal (IMC) é utilizado na medicina para avaliar se o peso de uma pessoa está adequado em relação à sua altura. A OMS adota o índice como referência oficial para classificar o estado nutricional de adultos, categorizando desde o baixo peso até os diferentes graus de obesidade.
O cálculo do IMC é feito dividindo o peso corporal, em quilogramas, pelo quadrado da altura, em metros. A fórmula é: IMC = peso (kg) ÷ altura² (m). Por exemplo, uma pessoa que pesa 80 kg e mede 1,75 m terá IMC = 80 ÷ 3,0625 = 26,1 kg/m², o que a coloca na faixa de sobrepeso.
Para adultos, o IMC abaixo de 18,5 é baixo peso, de 18,5 a 24,9 é peso saudável, entre 25 e 29,9, sobrepeso, e acima de 30, obesidade. Em crianças e adolescentes, o IMC é avaliado de forma diferente, levando em conta a idade e o sexo do individuo a partir do padrão das curvas de crescimento.
Apesar de sua praticidade, o IMC não se aplica de maneira geral. Ele não distingue gordura de massa muscular, então um atleta pode ter IMC elevado e ser classificado como obeso, enquanto uma pessoa sedentária com pouca massa muscular pode ter IMC baixo mesmo tendo excesso de gordura corporal. O IMC também não mostra como a gordura está distribuída no corpo. A gordura abdominal representa um risco cardiovascular muito maior do que a gordura localizada nos quadris ou coxas. Os idosos apresentam perda natural de massa muscular e redistribuição de gordura no corpo e o IMC pode parecer normal, mas na verdade esconder uma nutrição ruim. Em gestantes, o IMC não se aplica pelo próprio aumento fisiológico de peso. E populações asiáticas, por exemplo, apresentam maior risco metabólico com IMC mais baixo.
Por isso, o IMC deve ser usado para uma triagem inicial e não como diagnóstico por si só. Para uma avaliação completa, ele deve ser combinado com outros indicadores, como a medição da circunferência abdominal, exames laboratoriais e a análise clínica feita pelo especialista.
Quais os tipos de obesidade e seu tratamento?
A distribuição da gordura no corpo define o tipo de obesidade:
- Andróide (abdominal): gordura concentrada na barriga. Mais comum em homens e associada a maior risco cardiovascular.
- Ginecoide (periférica): gordura nos quadris, coxas e nádegas. Mais frequente em mulheres e com menor risco de complicações graves.
- Mista: gordura distribuída tanto no abdômen quanto na região inferior do corpo. O risco varia conforme a proporção em cada área.
O tratamento da obesidade, uma doença de origem multifatorial, pede uma abordagem multidisciplinar. O tratamento é conduzido pelo endocrinologista e geralmente envolve nutricionistas, educadores físicos, psicólogos, psiquiatras e cirurgiões.
E basicamente, vai envolver, também em conjunto, as seguintes abordagens e tratamentos:
- Reeducação alimentar, com mais frutas, legumes, verduras e proteínas magras; menos açúcar, gordura e ultraprocessados
- Atividade física e a cultura do movimento, como por exemplo preferir escadas a elevadores, sempre que possível
- Apoio psicológico, para ajudar nos gatilhos, manutenção da motivação e tratamento de compulsão alimentar. O acompanhamento psicológico também é necessário para quem precisará fazer cirurgia bariátrica, indicada quando os demais tratamentos não atingiram os resultados esperados
- Cirurgia bariátrica, cujas técnicas mais comuns são o bypass gástrico e o sleeve gástrico, geralmente recomendadas para quem tem IMC ≥ 40, IMC entre 35 e 40 com doenças associadas e IMC entre 30 e 35 com doenças graves, mediante avaliação médica.
- Medicamentos, grandes auxiliares quando dieta e exercícios não são suficientes, tais como inibidores de apetite e de absorção de gordura, remédios contra compulsão alimentar, e agonistas de GLP-1, liraglutida, semaglutida, tirzepatida apresentadas nas canetas emagrecedoras.
Para evitar e controlar a obesidade, práticas e hábitos saudáveis
Sem tratamento, a obesidade pode desencadear uma série de condições: diabetes tipo 2 e hipertensão, dislipidemia (colesterol e triglicerídeos alterados), doenças cardiovasculares como infarto, AVC, angina, insuficiência cardíaca, fígado gordo, hepatite e cirrose, apneia do sono, problemas renais e biliares, dores articulares e nas costas, infertilidade e complicações na gravidez, ansiedade, depressão e isolamento social.
A obesidade pode ser controlada e até revertida, mas exige comprometimento contínuo. As bases da prevenção são simples: alimentação equilibrada, exercício físico regular e sono de qualidade.
Ao perceber os primeiros sinais, procure um endocrinologista. Quanto mais cedo o tratamento começa, maiores as chances de evitar complicações e conquistar mudanças significativas de qualidade de vida.
