O câncer colorretal é um tumor que se desenvolve no intestino grosso, incluindo o cólon e o reto, geralmente a partir de pólipos, pequenas lesões que crescem na parede interna do intestino e que, ao longo dos anos, podem se transformar em câncer. Durante muito tempo, essa doença foi associada quase exclusivamente a pessoas com mais de 50 anos. Nos últimos anos, porém, médicos de diversos países vêm observando um aumento no número de diagnósticos em adultos com menos de 50 anos, especialmente antes dos 45 anos. Esse cenário tem levado especialistas a rever recomendações de prevenção e a reforçar a importância de não ignorar sintomas digestivos persistentes, mesmo em pessoas jovens e sem histórico familiar da doença.
Por que o câncer colorretal está aumentando entre os mais jovens?
Ainda não existe uma explicação única para esse aumento. A hipótese mais aceita atualmente envolve mudanças no estilo de vida ocorridas nas últimas décadas, como maior consumo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo, obesidade e outros fatores ambientais que parecem influenciar o funcionamento do intestino, principalmente quando presentes desde a infância ou o início da vida adulta.
Pesquisadores também têm estudado o papel da microbiota intestinal, o conjunto de microrganismos que vive naturalmente no intestino. Um achado recente chamou a atenção: algumas cepas da bactéria Escherichia coli (E. coli) produzem uma substância chamada colibactina, capaz de causar danos ao DNA das células intestinais. Estudos identificaram uma assinatura mutacional característica dessa substância com frequência significativamente maior em tumores diagnosticados antes dos 40 anos do que naqueles diagnosticados após os 70 anos. Acredita-se que essa exposição possa ocorrer ainda na infância, muitos anos antes do desenvolvimento do câncer. No entanto, é importante destacar que essa relação ainda está sendo investigada. Os estudos demonstram uma associação, mas ainda não comprovam que essa bactéria seja, isoladamente, responsável pelo desenvolvimento da doença.
Diante desse cenário, a principal mensagem dos especialistas não é de alarme, mas de atenção. O câncer colorretal pode surgir em qualquer idade, e reconhecer sintomas persistentes, além de realizar o rastreamento na idade recomendada, continua sendo a melhor forma de aumentar as chances de prevenção e diagnóstico precoce.
Saiba mais: Câncer colorretal: prevenção e diagnóstico precoce – Oncologia D’Or
Quais são os sintomas de câncer de cólon em jovens?
Os sintomas costumam surgir de forma gradual e, por isso, podem ser confundidos com problemas digestivos comuns. Os principais sinais de alerta incluem:
- Sangue nas fezes, seja vermelho vivo ou mais escuro;
- Mudança persistente do hábito intestinal, como diarreia ou prisão de ventre que não melhora;
- Dor ou cólicas abdominais frequentes, sem causa aparente;
- Sensação de evacuação incompleta;
- Perda de peso sem motivo aparente;
- Cansaço persistente, que pode estar relacionado à anemia causada por pequenas perdas contínuas de sangue.
Nenhum desses sintomas, isoladamente, significa que a pessoa tenha câncer. No entanto, quando um ou mais deles persistem por algumas semanas, é importante procurar avaliação médica, preferencialmente com um gastroenterologista ou coloproctologista, em vez de esperar que desapareçam espontaneamente.
Sangue nas fezes em jovens pode ser sinal de câncer de intestino?
Pode, embora, na maioria das vezes, o sangramento em pessoas jovens esteja relacionado a causas benignas, como hemorroidas ou fissuras anais. O problema é que essas condições podem provocar sintomas semelhantes aos do câncer colorretal, fazendo com que muitas pessoas adiem a investigação ao acreditar que se trata de um problema simples.
Algumas características podem ajudar a diferenciar essas situações:
- Hemorroidas: costumam provocar sangue vermelho vivo, visível no papel higiênico ou na superfície das fezes, frequentemente acompanhado de coceira ou desconforto ao evacuar.
- Fissuras anais: geralmente causam dor intensa durante e após a evacuação, além do sangramento.
- Síndrome do intestino irritável: provoca dor abdominal e alterações do hábito intestinal, mas não costuma causar sangramento.
- Câncer colorretal: o sangramento tende a ser persistente, pode estar misturado às fezes e frequentemente vem acompanhado de outros sintomas, como alteração do hábito intestinal, perda de peso ou anemia.
Embora essas características possam orientar a suspeita, nenhuma delas confirma ou exclui o diagnóstico. A única forma segura de identificar a causa é por meio de avaliação médica, que pode incluir exame físico, exame proctológico e, quando indicado, colonoscopia. Sangramento recorrente por mais de duas ou três semanas, mesmo quando parece ser causado por hemorroidas, deve ser investigado.
A partir de que idade é recomendado começar a colonoscopia preventiva?
Durante muitos anos, a recomendação era iniciar o rastreamento do câncer colorretal aos 50 anos em pessoas sem fatores de risco. Com o aumento da incidência da doença em adultos mais jovens, diversas diretrizes internacionais passaram a recomendar que o rastreamento da população de risco habitual seja iniciado aos 45 anos.
Esse rastreamento pode ser realizado por diferentes métodos, incluindo a colonoscopia, que permite visualizar todo o intestino grosso e remover pólipos antes que evoluam para câncer, além de testes de pesquisa de sangue oculto nas fezes, conforme a indicação médica e as recomendações vigentes.
Pessoas com histórico familiar de câncer colorretal, doença inflamatória intestinal ou síndromes hereditárias associadas ao câncer devem iniciar o rastreamento antes dos 45 anos, seguindo orientação individualizada. Da mesma forma, qualquer pessoa que apresente sintomas persistentes deve procurar avaliação médica, independentemente da idade.
O câncer colorretal em jovens pode ter causa genética, mesmo sem casos conhecidos na família?
Sim. Parte dos casos diagnosticados em adultos jovens está relacionada a síndromes hereditárias, sendo a síndrome de Lynch a mais frequente. Essa condição aumenta significativamente o risco de câncer colorretal e de outros tumores ao longo da vida, muitas vezes antes dos 50 anos.
Por esse motivo, recomenda-se que toda pessoa diagnosticada com câncer colorretal antes dos 50 anos seja avaliada quanto à possibilidade de uma síndrome hereditária, mesmo na ausência de outros casos conhecidos na família. Isso acontece porque a falta de histórico familiar não exclui uma predisposição genética. Em algumas famílias, a alteração pode não ter se manifestado em outros parentes, ou casos anteriores podem não ter sido reconhecidos ou corretamente diagnosticados. Quando identificada, essa informação também é importante para orientar o rastreamento dos familiares.
Por que o câncer colorretal em jovens costuma ser descoberto em fase mais avançada?
Estudos mostram que adultos jovens apresentam maior probabilidade de receber o diagnóstico quando a doença já está localmente avançada ou disseminada para outros órgãos. Além disso, alguns tumores diagnosticados nessa faixa etária apresentam características biológicas associadas a comportamento mais agressivo.
Parte dessa diferença pode ser explicada pelo atraso no diagnóstico. Como o câncer colorretal ainda é frequentemente considerado uma doença de pessoas mais velhas, tanto pacientes quanto profissionais de saúde podem inicialmente atribuir sintomas como sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal ou dor abdominal a doenças benignas. Esse atraso na investigação pode contribuir para que o diagnóstico seja feito em fases mais avançadas da doença.
Obesidade e diabetes tipo 2 aumentam o risco de câncer colorretal em jovens?
Diversos estudos associam a obesidade e o diabetes tipo 2 a um maior risco de câncer colorretal de início precoce, ou seja, diagnosticado antes dos 50 anos. Em algumas pesquisas, pessoas com obesidade apresentaram risco aproximadamente duas vezes maior de desenvolver a doença nessa faixa etária.
Embora os mecanismos biológicos que explicam essa associação ainda estejam sendo estudados, sabe-se que fatores como inflamação crônica, alterações hormonais e resistência à insulina podem contribuir para o desenvolvimento do câncer. Ainda assim, manter um peso saudável, praticar atividade física regularmente e controlar adequadamente o diabetes são medidas amplamente recomendadas para reduzir o risco de diversas doenças, incluindo o câncer colorretal.
A alimentação tem relação com o aumento do câncer colorretal em jovens?
As evidências atuais sugerem que sim. O consumo frequente de alimentos ultraprocessados, carnes processadas, bebidas açucaradas e outros produtos industrializados ricos em gorduras, açúcares e sódio tem sido associado a maior risco de câncer colorretal, inclusive em pessoas mais jovens. Esses alimentos costumam conter pouca fibra e podem favorecer alterações na microbiota intestinal e no metabolismo, fatores que vêm sendo investigados como possíveis mecanismos envolvidos no aumento da incidência da doença.
Por outro lado, uma alimentação rica em fibras — presentes em frutas, verduras, legumes, feijões e cereais integrais — está consistentemente associada a menor risco de câncer colorretal. A prática regular de atividade física, a manutenção do peso adequado, a redução do consumo de carnes processadas e do consumo excessivo de bebidas alcoólicas também fazem parte das principais medidas recomendadas para a prevenção da doença.
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