Estudo com participação do IDOR mostra que pessoas com dificuldade de adaptação a novas situações e que bebem para aliviar emoções negativas tendem a consumir mais álcool
O problema não está apenas na exposição à bebida. Muitas vezes, a estrutura mental facilita o caminho para o abuso do álcool. Um estudo publicado em dezembro na Addictive Behaviors Reports, realizado com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), mostra que pessoas que apresentam uma baixa flexibilidade cognitiva e bebem para lidar com emoções negativas estão mais vulneráveis a desenvolver padrões de consumo de álcool mais intensos e prejudiciais.
Álcool: Programa social ou problema social?
Por que algumas pessoas bebem apenas socialmente, enquanto outras transformam esse hábito em um problema? Uma das chaves pode estar na interação entre os motivos para beber e as capacidades cognitivas individuais. É o que aponta um novo estudo que investigou como a rigidez cognitiva, ou inflexibilidade cognitiva, influencia o comportamento de quem bebe para aliviar sentimentos como tristeza, ansiedade ou estresse.
Flexibilidade cognitiva é a capacidade de adaptar pensamentos e comportamentos diante de mudanças, obstáculos ou novas informações. Quando há pouca flexibilidade, as pessoas se tornam menos resilientes, apresentando padrões mentais mais fixos e repetitivos, recorrendo sempre aos mesmos recursos — como beber álcool — mesmo quando isso traz consequências negativas. Essa diferença de funcionamento mental influencia diretamente a forma de lidar com emoções difíceis e a tomada de decisão em momentos de vulnerabilidade.
Entendendo os motivos de beber para lidar com as emoções
A pesquisa foi conduzida com 368 adultos, entre 18 e 65 anos, que haviam consumido álcool nos últimos três meses. Desses, 52 se autodeclararam com problemas relacionados ao uso da substância. O estudo aplicou questionários para avaliar os motivos e os padrões de consumo de álcool, além de testes cognitivos para medir a flexibilidade mental e a capacidade de inibir respostas impulsivas.
Os resultados mostraram que a inflexibilidade cognitiva — ou seja, a dificuldade em adaptar pensamentos e comportamentos diante de novas situações — afetou significativamente a relação entre beber para lidar com emoções negativas (motivo de alívio) e o consumo excessivo de álcool. Em outras palavras, pessoas com baixa flexibilidade cognitiva e que bebem para se sentir melhor tendem a beber mais.
Esse padrão não foi observado em pessoas com alta flexibilidade cognitiva, sugerindo que a capacidade de mudar estratégias mentais e buscar outras formas de enfrentamento pode funcionar como um fator de proteção contra o abuso do álcool. Chamou atenção dos pesquisadores que esta característica se mostrou mais relevante que a habilidade de conter impulsos, que, contrariando expectativas, não teve efeito significativo nessa relação.
Os autores explicam que o hábito de “beber para esquecer” cria associações mentais entre estresse e consumo de álcool. Pessoas com pensamento mais rígido têm maior dificuldade de romper esse ciclo e buscar alternativas, como atividades físicas ou técnicas de regulação emocional. Com o tempo, essas associações se tornam mais automáticas e reforçam o comportamento de beber sempre que surgem emoções negativas, o que pode levar a quadros mais graves de dependência.
Essa interação entre motivação e cognição ajuda a entender que o alcoolismo é um problema complexo, e que algumas pessoas estão mais vulneráveis ao consumo abusivo do álcool.
Com esses resultados, os pesquisadores destacam a importância de considerar não apenas o motivo pelo qual uma pessoa recorre ao álcool, mas também sua capacidade de adaptação e regulação emocional para desenhar estratégias de tratamento personalizadas.
Técnicas para ampliar a flexibilidade cognitiva podem ser uteis, quando se identifica este perfil de paciente, enquanto a A terapia baseada em aceitação e compromisso, o treinamento de tolerância ao estresse e a exposição a gatilhos emocionais em ambientes controlados são exemplos que podem ajudar a reduzir o consumo de álcool em pessoas que bebem por alívio emocional.
Outro ponto importante do estudo é que seus achados não se restringem ao consumo abusivo do álcool. Trabalhos anteriores do grupo mostraram que esse mesmo padrão de interação entre rigidez cognitiva e impulsividade está presente em outros comportamentos compulsivos, como uso problemático da internet e alimentação descontrolada. Isso sugere que a combinação entre dificuldades cognitivas e sofrimento emocional pode ser um mecanismo comum a diversos tipos de dependência.
Compreender esses perfis cognitivo-motivacionais é essencial para mitigar a vulnerabilidade das populações de risco, principalmente em culturas em que o consumo de álcool é uma atividade normalizada e estimulada socialmente.
Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu.
19.03.2026