Burnout

Você provavelmente já ouviu falar do conceito de burnout. O termo talvez mais conhecido em português é “esgotamento profissional”. Hoje em dia, há uma onda de notícias ruins que mencionam o burnout. Preparando essa palestra, eu procurei a palavra Burnout nas notícias do Google. Em menos de 1 segundo, chegaram mais de 55.500.000 respostas! Só na última hora, publicaram mais de 7 páginas de resultados no Google. Mas, o que é o ‘burnout’ que chama tanta atenção? 

O termo, no contexto de saúde mental, foi reconhecido pelo psicólogo germano-americano, Herbert Freudenberger, em 1974. Freudenberger trabalhou em uma clínica na cidade de Nova York, onde ele tratava pessoas dependentes de drogas e moradores de rua. Ele observou que os próprios voluntários da clínica, que atendiam a essas pessoas em crise, estavam sofrendo bastante. Era uma rotina de trabalho muito intensa e isso levava muitos deles a se sentirem desmotivados e emocionalmente esgotados. 

Mesmo sendo voluntários que escolheram participar para ajudar outras pessoas, o trabalho deixou eles para baixo, deprimidos e, com o tempo, não davam aos seus pacientes a atenção devida. Freudenberger descreveu essa condição deles como um estado de exaustão causado pelo excesso de trabalho prolongado, e ele usou o termo burnout para descrever o fenômeno no contexto do trabalho. A palavra em inglês é uma bela metáfora nesse sentido – burnout significa combustão, uma coisa que queimou completamente. Você tem que ter esse “fogo”, essa paixão e engajamento para ter o risco de se esgotar, e eventualmente, de se queimar. Em 1980 Freudenberger publicou o primeiro livro acadêmico com muito sucesso sobre esse assunto, mostrando como a busca de sucesso pode terminar com esse estresse elevado e que machuca as pessoas emocionalmente.

A pessoa mais conhecida atualmente sobre o assunto de burnout é Christina Maslach. A origem do trabalho dela tem uma história bem interessante. Ela era namorada e hoje esposa do (in)famoso psicólogo Philip Zimbardo da universidade de Stanford. Zimbardo na década de 1970 conduziu o experimento da prisão na universidade Stanford, um experimento hoje em dia considerado antiético que quase todos os anos volta a ser destaque. Ele, aleatoriamente, separou voluntários como prisioneiros e como guardiões. Logo depois do início, o experimento se tornou um fiasco. Os guardiões liderados por Zimbardo começaram a torturar os prisioneiros, levando-os a estados depressivos, de choque e desespero. 

Christina Maslach, estudante de pós-graduação de Stanford nesse período tentou fazer com que ele desistisse. Zimbardo contou uma discussão que os dois tiveram, na qual Christina aponta as injustiças sofridas pelos voluntários: “É terrível o que você está fazendo com esses meninos. Como você pode ver o que eu vi e não se importar com o sofrimento?” Mas, mesmo assim, Zimbardo negou o sofrimento e o experimento continuou. Maslach insistia que Zimbardo considerasse terminar o experimento. Anos depois, ela conta “ele era alguém de quem eu estava começando a gostar muito, pensei que precisava descobrir isso. É uma pergunta interessante: suponha que ele continuasse, o que eu teria feito? Eu honestamente não sei.” Mas ele terminou o experimento, e eles se casaram. Alguns anos atrás esse episódio virou até um filme de Hollywood, se vocês quiserem assistir, o nome é literalmente “O Experimento de Aprisionamento de Stanford”. No filme, a atriz Olivia Thirlby da nova guarda de Hollywood representou a Christina.

Na vida real, Christina, marcada pela experiência desse experimento, começou a pesquisar processos emocionais, focando em profissionais de saúde, professores e outras pessoas que costumam precisar de uma carga emocional muito alta na execução das suas tarefas. Ao longo do tempo, ela encontrou uma longa lista de sintomas que podem indicar que uma pessoa está sofrendo de burnout. 

Existem sinais e sintomas físicos de esgotamento, por exemplo:

Você pode sentir uma sensação de cansaço e esgotamento diariamente;

Pessoas relatam problemas para dormir, por exemplo problemas para pegar no sono ou problemas para dormir durante uma noite inteira; 

Você pode sofrer com uma imunidade reduzida, e ficar doente com mais frequência;

Pessoas muitas vezes reportam dores de cabeça frequentes ou dores musculares;

Também é comum sentir uma mudança no apetite, problemas gastrointestinais ou dificuldades de concentração

Sinais e sintomas emocionais de esgotamento podem incluir:

Sensação de fracasso;

Pessoas podem sentir-se desamparadas, presas e derrotadas ou

Sentir desapego, sentirem-se sozinhas no mundo

É comum que indivíduos relatem que perderam a motivação

Se percebem cada vez mais cínicos e negativos

E muitas vezes experimentam uma diminuição da satisfação e da sensação de realização

Também existem vários sinais e sintomas comportamentais de burnout. Um sinal muito importante é que o desempenho no trabalho está reduzido:

Pessoas cometem mais erros no trabalho;

Às vezes se ausentam das responsabilidades ou se isolam dos outros.

É comum que pessoas comecem a procrastinar, demorar mais para fazer as coisas que anteriormente executavam de uma forma exemplar;

Pessoas começam usar comida ou drogas, como o álcool, com o objetivo de enfrentar essa sensação pessimista e para compensar o estresse; 

Acontece também das pessoas jogarem suas frustrações nos outros: começam a brigar e a ficar altamente irritadas; 

Pode acontecer que funcionários em burnout faltem ao trabalho, ou cheguem atrasados e saiam mais cedo.

Claramente, isso é uma lista enorme. Quais são os indicadores psicológicos centrais? Em 1981, a Christina, junto com Susan Jackson, publicou o primeiro instrumento psicométrico, que até hoje é o mais usado no mundo para avaliar o estado de burnout. Elas identificaram três fatores principais desta síndrome:

  1. exaustão emocional, incluindo exaustão de energia , 
  2. despersonalização, incluindo aumento da distância mental ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho,
  3. perda de realização pessoal e uma eficácia profissional reduzida.

Você talvez está pensando, como isso é diferente da depressão ou da ansiedade? Existe uma diferença? 

No ano passado, a condição foi reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma síndrome ocupacional “resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso”. Hoje está incluído na Classificação Estatística e Internacional de Doença e Problemas Relacionados à Saúde. Isso significa que não é uma condição médica como depressão, mas pode afetar a saúde. Por isso, o burnout pode afetar indivíduos na população geral, como pessoas que não têm depressão ou qualquer outra patologia prévia, mas o burnout também pode causar depressão se não for cuidado.

O diagnóstico diferencial entre burnout e depressão é que o burnout é principalmente causado por uma exaustão emocional e estresse profissional. Então, é uma resposta do corpo e da mente vinculada a uma situação específica: o contexto do trabalho. Se você consegue retirar a pessoa da situação do trabalho que está provocando essa exaustão e estresse, a pessoa melhora significativamente e se recupera logo. Até uma pesquisa do nosso equipe do IDOR, com Fernando Bozza e Paulo Mattos em parceria com o equipe do Visita trial, mostra que os sintomas do burnout não são necessariamente vinculados à depressão. 

Mas, existem situações nas quais o burnout pode ser acompanhado de depressão e, nestas circunstâncias, é muito provável que a pessoa continue a se sentir depressiva mesmo que seja retirada da situação que lhe causava exaustão e esgotamento. 

Também é importante diagnosticar, se ocorria uma sintomatologia característica da depressão previamente à situação de burnout, como, por exemplo a tristeza contínua, uma atividade psicomotora mais lenta, uma autoestima baixa, apatia geral, uma falta de prazer e desinteresse por atividades que eram agradáveis àquela pessoa etc. Neste caso, a pessoa provavelmente sofre de depressão e isso se manifesta também no contexto do trabalho. 

Para esses casos, a melhoria da saúde mental tendencialmente pode ser mais demorada, mesmo se a pessoa for retirada da situação de exaustão e burnout. 

Então, quantas pessoas sofrem de burnout? Isso é uma pergunta difícil, porque mesmo que existam ferramentas para medir o burnout e mais atenção para o fenômeno, atualmente, é difícil definir um ponto de corte para classificar o nível do esgotamento. Até porque burnout também pode ser definido como um processo dinâmico e os fatores não precisam estar presentes ao mesmo tempo. Por exemplo, se você está pensando nos três fatores identificados por Maslach, a exaustão emocional poderia ser o primeiro sintoma e a pessoa, para se defender emocionalmente começa se distanciar do trabalho. Visto desta forma, o fator da despersonalização pode ser um mecanismo para responder ao estresse profissional? 

O problema é que isso aumenta ainda mais a sensação de ineficácia e então potencializa a síndrome do burnout. Por isso, é difícil classificar quem está em burnout. A pessoa deve demonstrar todos os sintomas para ser classificada num estado de burnout ou já é suficiente caso ela tenha um escore mais alto em só um dos três fatores.  A maioria dos autores considera o burnout como uma resposta complexa ao estresse profissional prolongado ou crônico. 

Por causa disso, autores utilizam definições diferentes para decidir qual o tamanho da população que está sofrendo de burnout. Recentemente, vários estudos têm ressaltado a alta prevalência e o impacto negativo do burnout, no Brasil e no contexto internacional. 

O nível provavelmente é mais alto entre aqueles que trabalham em ambientes estressantes como as Unidades de Terapia Intensiva. Um estudo recente, conduzido pela Society of Critical Care Medicine, demonstrou que até 45% dos médicos intensivistas adultos e 71% dos intensivistas pediátricos relataram sintomas de burnout grave, enquanto aproximadamente 25% a 33% dos enfermeiros em cuidados intensivos apresentaram sintomas de burnout grave. 

Adicional ao custo emocional, o burnout também gera riscos para a população e para as empresas. Um médico com burnout tem 2 vezes mais risco de cometer um erro médico, e uma análise recente estimou que os prejuízos médicos causados por burnout são de aproximadamente US$ 4,6 bilhões.

A National Academy of Medicine, nos Estados Unidos, reconheceu a demanda e atual preocupação com o bem-estar dos profissionais da saúde e convocou uma Ação Colaborativa para o Bem-estar e Resiliência Clínica. A associação convidou mais de 100 organizações para apoiar uma declaração de compromisso para melhora do bem-estar e redução do desgaste do clínico. Na mesma linha, a American Medical Association desenvolveu módulos e ferramentas para ajudar os médicos e administradores a tomar medidas importantes para evitar o burnout.

Você está se sentindo quase esgotado: e agora? O que fazer? Como você pode se cuidar e se recuperar? 

Burnout está intrinsecamente vinculado às circunstâncias e condições de trabalho. O que você precisa pensar é: o que eu posso mudar nas condições do meu trabalho e nos meus hábitos e estilos de vida? O estresse é importante e faz parte da nossa vida. Existe um nível saudável de estresse para deixar a vida interessante e com desafios. Isso pode nos motivar e contribuir para uma vida rica e desafiadora. Mas existe um limite, quando estamos continuamente expostos ao estresse e à ansiedade, isso pode começar a se transformar em esgotamento. Então, a melhoria das condições de trabalho, a melhoria das relações profissionais com diminuição do isolamento, diminuição de demanda das tarefas e uma melhor integração do profissional, já podem ser suficientes para melhorar as condições de burnout. 

Outras vezes, é importante parar um tempo, fazer uma pausa, ou pedir uma reorganização do trabalho. 

Fazer atividades físicas de forma regular também é muito importante. Exercícios de relaxamento, yoga, mindfulness e meditação são muito eficientes para aliviar o estresse e controlar os sintomas do burnout no momento agudo. 

Importante: Se você está se sentindo esgotado, procure ajuda de um profissional de saúde. 

Se você é  chefe ou colega de uma pessoa que você suspeita estar com burnout, o que você pode fazer? 

Seu papel é muito importante. Você pode ajudar uma pessoa que precisa de você. Converse com o seu colega, pergunte como ele ou ela está se sentindo. O que você pode fazer para diminuir o nível de estresse e deixar a pessoa menos isolada e esgotada? 

Talvez, mais importante de tudo: Como podemos prevenir a Síndrome de Burnout, antes de acontecer?

Como você provavelmente já pode imaginar, a melhor forma de prevenir o Burnout envolve estratégicas que diminuem o estresse e a pressão no trabalho.  

O que pode ajudar é definir pequenos objetivos na vida profissional e pessoal. É normal sentir uma pontada de adrenalina quando você pensa sobre um projeto importante. Mas pense o que você tem que fazer e como esse projeto não acaba com a sua vida fora do trabalho. Pense o que você quer alcançar e o que você precisa para atingir esses objetivos importantes, no trabalho e na vida pessoal. 

Reserve tempo para participar de atividades de lazer com amigos e familiares.

Planeje atividades que “fujam” à rotina diária, como passear com uma pessoa querida, cozinhar sua comida preferida junto com um amigo, comer em um restaurante ou fazer uma atividade que você gosta, mas já faz tempo que você não faz. 

Converse com alguém de confiança sobre o que você está sentindo. Pense sobre as suas conversas. Evite o contato com pessoas “negativas”, especialmente aquelas que reclamam do trabalho ou dos outros. 

Para se proteger de burnout e aumentar a resiliência, é muito importante continuar a fazer atividades físicas regulares. Pode ser academia, caminhada, corrida, bicicleta, remo, natação, entre outras. Combine com amigos e faça um compromisso de exercício físico. 

É importante também comer de forma saudável. Uma refeição balanceada com verduras, legumes, frutas, carboidratos e proteína faz com que você obtenha todos os macronutrientes que o seu corpo precisa para manter a saúde. 

Também é importante diminuir ou evitar sempre que possível o consumo de drogas como bebidas alcoólicas, tabaco, entre outras. 

Outra dica para prevenir o Burnout é descansar adequadamente, com uma boa noite de sono. Na média as pessoas precisam pelo menos 8h diárias.

Não se automedique nem tome remédios sem prescrição médica. O médico pode ajudar, mas só tome remédios após consultar o seu médico. 

Sempre lembre: É fundamental manter o equilíbrio entre o trabalho, lazer, família, vida social e atividades físicas para prevenir o burnout e manter uma vida saudável.

 

Escrito por Ronald Fisher

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