O papel da Ciência na tomada de decisão

Qual é o papel da ciência na tomada de decisão? O que é ciência e como a percebemos? Existem vários conceitos – e até preconceitos – sobre a ciência e o que ela pode oferecer. Muitas pessoas pensam em cientistas malucos, tipicamente um homem branco, bem velhinho, meio perdido na vida e descabelado. Outras pessoas talvez pensem no Sheldon e seus amigos da famosa série, The Big Bang Theory. Sheldon é um nerd exemplar, entende muito bem de física quântica, mas não sabe lidar com interações sociais e problemas cotidianos. 

Uma outra representação da ciência é uma biblioteca, cheia de livros e de conhecimento, mas com poeira em cima de tudo, repleta de um conteúdo antiquado, histórico e abstrato, deslocado do cotidiano das pessoas comuns, uma torre de marfim. Pensando em todos esses estereótipos, o que afinal a ciência pode nos oferecer para a tomada de decisões?

Vamos fazer um resumo rápido sobre a nossa capacidade humana de tomar decisões: somos bons ou ruins em decidir as coisas da vida?

Muitas pessoas acreditam nos seus médicos. O médico é uma pessoa de confiança, que cuida de você. Com certeza ele ou ela é uma fonte de conhecimento e ajuda quando você está com problemas de saúde. Mas, por exemplo, se você quiser agendar uma consulta, você deve se preocupar com o horário da sua consulta? Seria melhor agendar de manhã ou de tarde? Ou isso não faz diferença?

Vou mostrar aqui uma pesquisa feita nos Estados Unidos. Nesse estudo com 50 mil pessoas, os pesquisadores analisaram a probabilidade dos pacientes conseguirem uma consulta médica para triagem de câncer, dependendo do horário que as pessoas ligaram. Se você conseguiu uma consulta com o médico às 8 horas da manhã, querendo um triagem para o câncer de mama, você teve uma chance de 63,7% de conseguir fazer o exame, mas no final da tarde, às 17 horas, sua chance de receber a recomendação de um triagem cai para 47,8% da probabilidade. Isso pode fazer uma grande diferença para a sua saúde! 

Efeitos semelhantes foram observados em juízes durante a concessão de liberdade condicional. Os casos deliberados pela manhã tiveram uma chance maior de resultar na liberdade condicional aos condenados. O pior momento para o julgamento, no entanto, é antes da hora de almoço. De manhã você tem uma chance de 65% de sair da cadeia, logo antes da hora de almoço a probabilidade é de quase zero! Depois dos horários de cada refeição, as probabilidades voltam ao nível anterior.

Falando sobre a hora de almoço, você acha que o que você está comendo faz diferença nas suas decisões? Isso foi investigado numa pesquisa publicada no ano passado. Os pesquisadores compararam decisões em dilemas sociais entre pessoas que comeram mais carne do que carboidratos ou mais carboidratos do que carne. O nosso cérebro precisa de macronutrientes para produzir neurotransmissores, que o permitem funcionar de forma eficiente. Carnes e outras comidas ricas em proteínas contém tirosina, um aminoácido –  substância orgânica – que o nosso corpo precisa para gerar dopamina. A dopamina, por sua vez, é um neurotransmissor muito importante para o nosso sistema de recompensa, que está envolvido quando precisamos tomar decisões. Carboidratos e vegetais, ao contrário, são ricos em triptofano, que é importante para a produção da serotonina, um neurotransmissor  essencial na regulação dos processos emocionais. Mas, como pode isso afetar as nossas decisões? 

Uma  equipe liderada por Sabrina Strang, do Instituto de Psicologia da Universidade de Lübeck, Alemanha, e Soyoung Park, do Instituto Alemão de Nutrição Humana, utilizaram um jogo de decisão envolvendo 2 pessoas. Uma delas recebe um dinheirão, podendo dividir de qualquer forma entre ela e a outra participante. Geralmente, as pessoas avaliam que o mais justo é uma divisão de 50-50. Se a segunda pessoa aceitar a oferta, as duas partes vão receber o dinheiro. Mas, a segunda pessoa pode recusar a divisão feita pela primeira, fazendo com que as duas não recebam nada. Importante destacar que ambos os participantes estão cientes de todas as condições. 

Esse jogo bastante usado na literatura para entender dilemas sociais, porque você teoricamente teria interesse em manter a maior quantia de dinheiro para você, mas também confronta a possibilidade da outra pessoa não aceitar, o que faria com que você não recebesse nada. Através desse jogo, as pesquisadoras observaram que as pessoas que comeram mais carboidratos do que carne tenderam à maior rejeição de ofertas injustas. Importante: essa decisão de recusar uma decisão injusta era vinculada ao nível da tirosina, explicando como o que comemos pode afetar os processos neurais e a tomada da decisão.

Como podemos entender essa lógica? Por que nossas decisões são influenciadas por fatores que não têm nada a ver com o tema da escolha?

Precisamos viajar rapidamente pelo nosso passado e lembrar como o contexto evolucionista influenciou a nossa capacidade de pensar. Os nossos ancestrais viveram em grupos pequenos, coletando comida no dia a dia. Os problemas que eles encontravam, geralmente, eram vinculados à divisão da caça, para obtenção dos nutrientes suficientes para sobreviver, e à formação de alianças para defender o território contra outros grupos ou predadores silvestres. Por um lado, esses problemas eram mais simples, envolvendo menos fatores e complexidades. Por outro lado, geralmente as decisões precisavam ser feitas de forma rápida, e você não tinha tempo para repensar todos os detalhes caso um tigre de sabre estivesse na sua frente. 

Isso explica várias funcionalidades do nosso cérebro e como tomamos decisões no contexto atual. Se você está com fome ou cansado, a sua preocupação não está focada no bem-estar do outro, caso ele seja um estranho ou alguém que não faz parte da sua família. Nesse caso, nosso cérebro de forma automática prioriza outras informações e pode mudar de forma bem sutil a forma com que você vai tomar uma decisão.

A ciência cognitiva já demonstrou mais de 150 vieses cognitivos do nosso cérebro. Esses vieses parecem nos atrapalhar no contexto contemporâneo, mas foram bem adaptativos no nosso passado. Esses vieses estão vinculados às formas de tomar uma decisão rápida, usando bases iniciais, como o viés de lembrar acontecimentos de forma incorreta, focar nos aspectos negativos de uma situação, ou até mesmo usar apenas as informações as quais acreditamos serem fidedignas com a nossa memória; tudo isso por causa de nossos limites da memória. Estamos sempre tomando decisões sem considerar todos os detalhes, ou apenas considerando as informações iniciais ou as mais recentes. Além disso, somos muito bons em simplificar problemas complexos e criar significados a partir de eventos completamente aleatórios.

 

Então, como pode a ciência nos ajudar? A ciência pode nos ajudar a tomar decisões em contextos que refletem a nossa realidade atual, onde os problemas são mais complexos do que no nosso passado.

A ciência é importante quando as decisões:

Têm consequências importantes;

Envolvem incerteza;

Existem conflitos entre objetivos relevantes para a decisão;

Envolvem várias partes interessadas;

Envolvem um contexto de grande complexidade; ou

Envolvem responsabilidade pelo(a) tomador(a) de decisão.

Nessas situações, a ciência pode oferecer um grande valor para quem precisa tomar decisões.

A ciência é uma invenção cultural que nos permite responder às exigências mais complexas no mundo atual. Uma observação curiosa é que diferentes formas de tomar decisões científicas foram inventadas várias vezes, em culturas e épocas bem diferentes. Por exemplo, todo mundo hoje pensa que os vestibulares ou concursos públicos são uma invenção nova, que surgiu no contexto burocrático e capitalista no século passado. Mas o primeiro concurso público foi desenvolvido na China há 2 mil anos, quando o império precisava de funcionários capazes de administrar um sistema social bem complexo. Assim, surgiu uma prova para identificar as pessoas que possuíam a capacidade de trabalhar naquele contexto. A decisão foi feita através de um processo científico.

É importante voltar para o conceito de ciência como um processo. O público leigo muitas vezes pensa em conhecimento científico, mas o processo científico é ainda mais importante. Hoje em dia, existe um processo de ciência aberta, um movimento global que tem como foco melhorar a ciência e aumentar seu acesso para os cidadãos, independentemente de serem pesquisadores ou pessoas do público leigo. A ciência aberta tem a visão de uma ciência transparente e compartilhada, que desenvolve um conhecimento através de redes colaborativas. Mas, como funciona esse processo?

Ele começa com a procura e descoberta, com a identificação de um problema que precisa ser atendido. Para isso, precisamos de ideias e hipóteses, saber o que aconteceu, por que aconteceu e como podemos melhorar a situação. Essas ideias e hipóteses em torno precisam estar transferidas a um desenho de pesquisa ou intervenção para testar as nossas ideias ou ver se a intervenção funciona de verdade. Você tem que definir quais materiais ou quais recursos você precisa. Ciência é baseada em dados, então o próximo passo é coletar dados empíricos para responder às perguntas e aprofundar as ideias que desenvolvemos. Esses dados devem ser guardados em um depósito, para serem analisados e interpretados. Tudo isso é um processo colaborativo. A ciência deve ser acessível, então a sua disseminação através de relatórios e publicações são fundamentais para o processo científico. A ciência moderna não está seguindo as formas da alquimia da época medieval, que foi caracterizada pelo segredo e obscuridade. Essa forma de entender ciência como um processo deliberado, rigoroso e aberto, pode nos ajudar a melhorar nossa tomada de decisões. Essa forma de pensar sobre problemas e testar soluções traz mais benefício em conhecimento profundo e mais robusto. Igualmente, essa forma de pensar também pode ser aplicada diretamente na tomada de decisões em outros contextos. 

Aqui, vocês estão vendo um processo da tomada de decisões usando a ciência. Existe uma base científica sobre o problema que podemos usar para atualizar as nossas crenças, obter fatos e criar opiniões baseadas em dados. Também, a base científica serve para analisar as probabilidades de um evento acontecer ou não. Então, nos ajuda a avaliar a incerteza e as probabilidades em relação a um problema e as opções disponíveis. A ciência nos ajuda muito a informar sobre os fatos e sobre o que sabemos e não sabemos. Mas, uma outra parte importante da tomada de decisões também são os valores. Eu já mencionei brevemente os valores quando estava falando sobre o contexto em que a ciência pode nos ajudar a tomar decisões melhores. Valores estão vinculados a objetivos e metas. O que é importante para uma pessoa nesse momento? O que é a prioridade? Precisamos manter um equilíbrio de custos ou salvar vidas independentemente do custo? Essas são perguntas importantíssimas para tomar decisões, como vemos justamente neste momento da pandemia. Decisões são influenciadas pelos valores. A ciência pode nos ajudar a identificar o papel dos valores, motivações e como isso pode mudar a balança em favor de uma alternativa ou em detrimento de  outra. Então, crenças e valores juntos entram no processo de analisar opções que existem em um determinado momento.

Nesse processo de analisar as opções, existem várias ferramentas que podemos usar. Você provavelmente já usou uma lista de prós e contras para tomar uma decisão. Melhor mudar o emprego ou não? Recomendar um exame mais invasivo ou não? Recomendar qual tipo de terapia para um cliente específico?

Se você quer puxar o lado científico ainda mais, pode incluir probabilidades e incertezas para cada opção. Rascunhe uma árvore de decisões – qual  é a probabilidade de resultados para cada decisão? Quais são as consequências e qual a probabilidade dessas consequências acontecerem?

Como já sabemos, o nosso cérebro não é muito bom para calcular riscos e pesar todas as incertezas em um mundo muito mais complexo do que  nosso mundo primitivo. Queremos fazer decisões rápidas, sem pensar em todas as opções e probabilidades. Ou então, todas essas opções em nossa frente podem nos paralisar. Aqui, o processo científico pode nos ajudar a pensar de forma um pouco mais clara e tomar decisões mais eficientes.

Pense em seus valores – o que é importante para você dentro da decisão que você deve tomar? Refletir sobre as prioridades, o que você valoriza e como você está tomando decisões geralmente pode esclarecer e oferecer novas opções. 

Segundo, faça perguntas. Considere as opções e informações. Você tem todas as informações que você precisa? Você está consciente de alguns vieses cognitivos ou pensamentos automáticos que você está usando normalmente? O que você tem que mudar para superá-los? Terceiro, tente obter essas informações que você precisa. 

Terceiro, Estudar problemas e soluções em diferentes contextos, a aprendizagem pode ser muito importante para evitar decisões pouco efetivas e irracionais. 

Em quarto lugar, somos uma espécie super-social: muitas cabeças podem trazer novas perspectivas e informações. Então, colabore com outras pessoas, principalmente especialistas e grupos afetados pelas suas decisões. 

E finalmente, existem ferramentas, como checklists, árvores de decisões e algoritmos que podem esclarecer opções e possibilidades.

Tomar decisões de uma forma intuitiva nos ajudou bastante no passado. Mas como expliquei, hoje em dia muitos contextos estão bem mais complexos e o nosso cérebro não dá conta disso. Queremos evitar que a hora de almoço coloque pessoas em risco. E o processo científico tem o poder de transformar sso.

 

Escrito por Ronald Fisher

 

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