Os dois fenótipos da Covid-19

Médicos indicam fenótipos da doença e apenas um deles se assemelha à Síndrome de Dificuldade Respiratória Aguda (SDRA) grave

Na explicação genética, as características de um organismo que incluem feições, formas, desenvolvimento e comportamento são chamadas de fenótipo. Este é o resultado da influência e interação de fatores ambientais e da expressão dos genes, e o termo é também aplicado para caracterizar doenças em pacientes. Em editorial publicado pela Intensive Care Medicine, intitulado “Pneumonia por COVID-19: diferentes tratamentos respiratórios para diferentes fenótipos?”, os autores sugerem que estudar o perfil dos pacientes pode levar ao melhor entendimento de como conduzir os casos.

A expressão de casos mais graves do novo coronavírus tem sido definida nos hospitais como Síndrome de Dificuldade Respiratória Aguda (SDRA). No entanto, na maioria das vezes essa síndrome evolui de forma diferente s da pneumonia causada por Covid-19, que se caracteriza por hipoxemia – insuficiência de oxigênio no sangue – associada a outros parâmetros do sistema respiratório próximos do normal. Além disso, os pacientes com pneumonia por Covid-19 podem ser divididos em dois grupos distintos, Descreve-se abaixo os dois fenótipos de Covid-19, identificados por pesquisadores e clínicos, e suas características.

Tipo L – do inglês low, baixo:

  • Baixo coeficiente ventilação perfusão. A hipoxemia pode ser explicada pela perda de regulação da perfusão, que leva o sangue a perfundir áreas pouco ventiladas, pela perda de vasoconstrição hipóxica;
  • Baixa elastância. Refere-se às propriedades elásticas do sistema respiratório complacência – pulmonar e alta complacência – grau de distensão  dos pulmões para cada aumento da pressão transpulmonar. Isso faz com que a quantidade de gás no pulmão do paciente seja quase normal.
  • Baixo peso. O acúmulo de líquido nos pulmões nas fissuras e no espaço junto a pleura – membrana dupla muito fina que envolve o pulmão e forra internamente as paredes da cavidade torácica – resulta no surgimento de manchas brancas nas tomografias, isso é chamado de opacidade em vidro fosco, que se pode ver via tomografia computadorizada; como o volume de líquido é pequeno o aumento do peso pulmonar é discreto. 
  • Baixa reserva de tecido pulmonar não envolvido em trocas gasosas para ser recrutado. Isto é, fica disponível pouco tecido pulmonar não aerado – o pulmão não está 100% envolvido nas trocas gasosas, áreas são reservadas (alvéolos meio fechados) e podem ser demandadas.

Tipo H – do inglês high, alto:

  • Alta elastância. A diminuição do volume de gás é responsável pelo aumento da elastância pulmonar e baixa complacência;
  • Alto peso. Aumento notável no peso pulmonar (> 1,5 kg), na ordem de magnitude da SDRA grave;
  • Alto “shunt”. Grande fração do sangue bombeado pelo coração passa direto pelos pulmões, sem ser oxigenado. 
  • Aumento da capacidade de recrutamento, como na SDRA grave.

Vale ressaltar que o Tipo L pode evoluir para o Tipo H. Ademais, os autores ressaltam que o tratamento respiratório deve seguir esse modelo conceitual, ou seja, é necessário observar-se o perfil dos pacientes para que o tratamento respiratório oferecido a esses, Tipo L ou Tipo H, seja diferente. O tratamento proposto é consistente com o observado na COVID-19, e a melhor identificação do tipo de paciente se dá via análise da tomografia computadorizada. Mas se este exame não estiver disponível, podem ser usados como substitutos a elastância do sistema respiratório e capacidade de recrutamento para identificar os sinais implícitos na definição dos perfis. 

Como as apresentações clínicas são distintas, é necessário compreender a fisiopatologia correta da doença para estabelecer a base para o tratamento adequado. A estratégia ventilatória para esses pacientes já está sendo repensada em hospitais, contudo, ainda temos que percorrer um largo caminho até a completa compreensão da Covid-19. Por isso, a pesquisa e o desenvolvimento de novas técnicas para tratamento são cruciais nesse momento.

Escrito por Luiza Mugnol Ugarte

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