População de rua sofre desamparo durante a pandemia

Desabrigados estão mais expostos ao contágio e à transmissão do novo coronavírus


Sem condições sequer de seguir recomendações básicas de prevenção ao novo coronavírus (Sars-Cov-2), como ficar em casa e higienizar as mãos, moradores de rua encontram-se em grave risco durante a pandemia. Além dos riscos à saúde desta população já fragilizada, o fato desses indivíduos não terem como se prevenir também potencializa o risco de contágio nas cidades, já que ficam expostos em locais com circulação de pessoas, estando mais suscetíveis tanto à transmitir quanto a serem infectados pela Covid-19.

Abrigar as pessoas que sofrem miséria nos centros urbanos é um dos maiores desafios sociais do mundo, sendo compartilhado com todas as grandes cidades. Se isto já era uma dificuldade, durante a pandemia ela foi intensificada pela crise financeira, que afetou principalmente a população mais pobre, fazendo com que mais famílias se submetessem às marquises e calçadas. Um estudo publicado no periódico científico JAMA – Journal of the American Medical Association – analisou mais de 400 pessoas acolhidas em um abrigo na cidade de Boston, nos Estados Unidos. Os pesquisadores realizaram testagem em todos os indivíduos, constando que 147 (36%) estavam infectados pelo Sars-Cov-2. Essas pessoas foram isoladas e as que apresentaram sintomas foram encaminhadas para  o devido tratamento.

No Brasil, como em muitos outros países subdesenvolvidos, a situação da população de rua é ainda mais grave. Com a deficiência de vagas em abrigos e as condições precárias de muitos destes, não é possível acolher grande parcela dessas pessoas. Além disso, a falta de dados e estudos sobre o assunto compromete a busca de soluções mais efetivas. Na capital paulista, primeiro epicentro da pandemia no Brasil, no ano passado havia 24 mil moradores de rua, número que já era questionado por uma margem considerável de subnotificação. Apesar do provável aumento desta população no país durante a pandemia, ainda não há dados oficiais que comprovem o crescimento sugerido por relatos de voluntários que trabalham para suprir necessidades dos desabrigados.

Como o sistema público não consegue absorver sequer metade das famílias desabrigadas, essas pessoas são dependentes de doações e atenção de voluntários para sobreviver e às vezes até para obterem cuidados médicos. Este é o caso, por exemplo, dos Médicos Sem Fronteiras, que juntaram esforços a uma igreja franciscana em São Paulo, transformando o espaço em um abrigo e centro de atendimento médico que durante a crise sanitária alimenta, examina e testa mais de 700 pessoas por dia.

Ainda que ações solidárias como esta se repitam em diversas cidades, a dura realidade é que iniciativas como esta  não sanam o problema e mantém a fragilidade da população de rua, que fica dependente da ação de voluntários que nem sempre poderão estar presentes. Não apenas por uma questão de saúde pública, mas também por uma questão humana, uma proposta oficializada deveria ser pensada respeitando toda a complexidade da situação. Se as pessoas não têm onde morar, também não conseguem entrar no mercado de trabalho e conseguir renda para sair da rua. As ações voluntárias oferecem amparo a muitos, mas não devemos esquecer que são paliativas para compensar uma grande carência no sistema público, problema que só poderá ser resolvido com a devida atenção e investimento do Estado. 

Escrito por Maria Eduarda Ledo

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