Tratamentos e cirurgias de pacientes com câncer são impactados durante a pandemia

Créditos: National Cancer Institute

Médicos debatem viabilidade e riscos dos procedimentos oncológicos durante a crise sanitária


Desde a instalação da pandemia, a necessidade de evitar a exposição de indivíduos nos grupos de risco foi uma das medidas mais disseminadas pelas autoridades sanitárias. Foram considerados pacientes de maior risco os idosos, pacientes com doenças crônicas, como diabetes ou hipertensão, portadores de doenças autoimunes e pessoas em tratamento para o câncer. Considerando que a melhor forma de evitar o contágio é através do isolamento social, muitos pacientes deixaram de frequentar clínicas e hospitais, suspendendo suas avaliações, acompanhamento médico e procedimentos cirúrgicos – orientados por autoridades de saúde. Para os pacientes oncológicos, principalmente, postergar um possível diagnóstico e atrasar ou interromper tratamentos  podem comprometer significativamente o prognóstico da doença, diminuindo as perspectivas de sobrevida e as chances de cura, razão pela qual várias pesquisas estão sendo promovidas em busca de alternativas ao cenário, de forma que o período durante e após a pandemia não resulte em ainda mais vidas perdidas.

Publicado no fim de maio, no jornal científico The Lancet, um estudo realizado no Reino Unido analisou as características e desfechos clínicos da infecção por Covid-19 em 800 pacientes com câncer. No total, 226 pacientes (28%) morreram durante o seguimento. Os pesquisadores constataram que pacientes do sexo masculino, com idade avançada ou que apresentavam outras comorbidades apresentaram taxas de mortalidade significativamente mais altas que os demais. No entanto, os tratamentos oncológicos – quimioterapia, imunoterapia, hormonioterapia e radioterapia – não contribuíram para este aumento da mortalidade. Avaliando a evolução dos pacientes que haviam recebido quimioterapia um mês antes da confirmação da infecção, terapia conhecida por inibir a multiplicação de células do organismo, observou-se que, após ajustes por idade, gênero e outras doenças, a mortalidade foi a mesma observada em pacientes fora de tratamento. Esses desfechos levaram os pesquisadores a concluir que a mortalidade por Covid-19 em pacientes com câncer parece ser motivada principalmente por idade, sexo e comorbidades, mais do que pelos tratamentos oncológicos em si, mesmo que alguns desses procedimentos reduzam a imunidade do corpo.

Outra pesquisa, recém-publicada no British Journal of Surgery, também chegou a conclusões de que suspender as cirurgias em pacientes oncológicos não era o melhor caminho, e que há maneiras de viabilizar esses procedimentos em segurança. Analisando os desfechos de cirurgias oncológicas digestivas, urológicas e de mama entre março e abril de 2020, e comparando com desfechos do mesmo período, em 2019, os pesquisadores notaram que a taxa de mortalidade cresceu de zero para 2,8% nos pacientes deste ano. Apesar do aumento da porcentagem, o estudo defende que a cirurgia de câncer, em fases agudas, pode ser realizada com segurança, desde que em hospitais com menos de 25% dos leitos ocupados por pacientes com Covid-19 e com um método eficiente de testagem para a doença dentro do local.

A oncologista e pesquisadora do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), Dra. Camila Venchiarutti, comenta que estudos como esses são essenciais, porém, é necessário evitar generalizações e manter os pacientes informados sobre os riscos de cada decisão. “Apesar de alguns resultados apresentados sugerirem que o diagnóstico e tratamento dos pacientes oncológicos devam continuar durante a pandemia, é fundamental uma avaliação individualizada pelo oncologista, levando em consideração fatores como idade, comorbidades e agressividade da neoplasia (câncer). A estratégia de combate à doença deve sempre ser traçada de forma compartilhada com o paciente, considerando os riscos e os benefícios envolvidos”, explica.

Escrito por Maria Eduarda Ledo.

Quer receber as notícias do IDOR pelo WhatsApp? Clique aqui, salve o nosso número e mande uma mensagem com seu nome completo. Para cancelar, basta pedir!

Veja também