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Reforço para o time

Reforço para o time

Médico, neurocientista, músico nas horas vagas, campeão de hipismo, ex-diretor
de um instituto de pesquisa em mineração: o perfil de Luiz Eugênio Mello, professor
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é tão variado quanto possível.
Este ano, ele assume o desafio de tornar-se diretor científico do Instituto
D’Or de Pesquisa e Ensino.

Apesar do diploma de médico, Mello esteve desde o início da carreira mais
inclinado à vida de laboratório do que aos consultórios. Na Unifesp, onde
realizou a maior parte de sua formação – graduação, mestrado e doutorado –,
dedicou-se ao estudo dos mecanismos cerebrais da epilepsia em modelos animais e
humanos, tema que também abordou durante o pós-doutorado na Universidade da
Califórnia em Los Angeles (UCLA).

Desde então, continuou as pesquisas na área da neurofisiologia,
debruçando-se sobre temas como memória, acupuntura e meditação. Nos últimos
anos, em seu laboratório na Unifesp, tem investigado novos fármacos para o
tratamento da epilepsia pós-traumática.

A destacada atuação como cientista levou Mello a cargos de gestão, como
a pró-reitoria de Graduação na Unifesp e a presidência da Federação de
Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE). Em 2009, recebeu um convite nada
comum para um neurocientista: ajudar a criar o Instituto Tecnológico Vale (ITV), voltado
a ciência, tecnologia e empreendedorismo na área da mineração.

Agora no Instituto D’Or, Mello une novamente a experiência em gestão e a
excelência científica para capitanear as atividades de pesquisa e
desenvolvimento da instituição. Abaixo, o neurocientista pontua passagens
importantes de sua carreira e revela suas expectativas para os próximos anos.

 

Você é médico, mas nunca atendeu
pacientes. Por que optou pela pesquisa científica?

Escolhi a ciência antes de escolher a medicina, em grande parte por
estímulo da minha família. Fui influenciado por livros e conversas a querer me
tornar um cientista e estudar o desconhecido. Sempre me fascinaram o oceano, o
universo e o sistema nervoso.

Durante a faculdade, me interessei pela neurocirurgia, mas logo me
decepcionei com essa possibilidade de carreira. Pensei também em fazer
neurologia clínica. Foi quando percebi que eu tinha uma grande limitação: a dificuldade
de lidar com o sofrimento e a angústia de quem procura atendimento médico. Isso
me afetava muito, não me fazia bem. Então, decidi pela neurociência básica,
seguindo minha vocação de cientista dentro da área de neurociência.

 

Desde muito cedo em sua carreira acadêmica, você se
envolveu na gestão de instituições ligadas à ciência e tecnologia. Por quê?

Sempre fui
participativo, opinando, votando e ajudando a tomar decisões na Sociedade
Brasileira de Neurociência e Comportamento (SBNeC), como membro que era. Em uma
das assembleias, foi perguntado quem queria ter trabalho, mas não dinheiro
(risos). Eu e mais alguns colegas levantamos a mão e topamos o desafio de
desenvolver o primeiro código de ética em experimentação animal, em um cenário
onde o assunto estava começando a ser discutido no país, em 1991. Isso revelou
uma característica minha: o interesse em agregar. Alguns anos depois, em 1995,
fui convidado para compor a diretoria da Federação de Sociedades de Biologia
Experimental (FeSBE), onde ocupei a posição de secretário geral. Foi um
trabalho intenso e massacrante, pois, entre outras atividades, organizávamos
congressos para 3 mil pessoas. Foi onde conheci pessoas importantes, como
ministros do governo, e aprendi muito. Foi, também, um momento em que tive dificuldade
de seguir com as atividades de pesquisa – na mesma época, construí minha casa,
meus filhos nasceram, e ainda tinha as funções de docente da Unifesp. Mas todas
essas escolhas contribuíram para minha carreira.

 

Como um neurocientista foi parar na presidência do
Instituto Tecnológico Vale?

Para mim, fazer
ciência é ter a possibilidade de criar. Sei que ciência é 5% inspiração e 95%
transpiração, mas existe um componente criativo muito importante que me atrai.
Trabalhar em qualquer estrutura nascente, em desenvolvimento, é incrível, pois
tudo está por ser feito. É um grande desafio, mas os erros são permitidos. Aceitei
o convite de ir para a Vale porque a empresa tinha pouquíssima experiencia
nesta área, e não sabia como colocar as ideias em prática, como construir esse
instituto. E o trabalho da construção é muito gratificante. Criamos algo muito
importante para a Vale e para o país; hoje, há um modelo no qual outras
instituições podem se espelhar.

 

Que características do Instituto D’Or lhe fizeram
deixar o ramo da mineração e voltar para a área de pesquisa, ensino e inovação em
saúde?

O Instituto D’Or
também é muito jovem: uma organização em construção, com um potencial incrível
de realização nas áreas de pesquisa e ensino. Não tenho dúvida da excelência da
pesquisa feita aqui ou dos planos do Instituto D’Or para o ensino. Por outro
lado, não há atividade humana que não possa ser melhorada ou aperfeiçoada. Enxergo
um universo enorme de desafios e várias janelas de oportunidades. Acho que o Stevens
[Rehen, que ocupava antes de Mello o
cargo de diretor científico]
, com as competências que ele reúne e com as
circunstâncias do momento, fez grandes avanços. Pretendo manter esses avanços e
continuar seguindo – juntamente com ele, que irá trabalhar comigo –, mas também
atacar outras frentes, contribuindo para que o Instituto cresça ainda mais. Não
entendo nada de mineração, mas pude ajudar na Vale, pois entendo de ciência.
Aqui no Instituto D’Or, vou trabalhar com ciência e saúde, um mundo com que tenho
mais familiaridade.

 

Que aspectos do Instituto você
pretende desenvolver?

Existem três grandes elementos em qualquer grande organização: o recurso
financeiro, o recurso físico (infraestrutura) e os recursos humanos. Os
recursos humanos são sempre o grande motor de qualquer instituição. A maneira
como você organiza esse motor é muito importante para o resultado que se tem.
Na Vale, aprendi muito sobre gestão de pessoas. No Instituto, venho conversando
com os pesquisadores para entender o que eles fazem, por que eles fazem, e o
passo seguinte vai ser ajudá-los a fazer mais e melhor. Como membro da
diretoria, minha função é dar suporte e oferecer condições.

Voltando ao ponto: as pessoas já estão aqui, e são muito qualificadas. A
estrutura física nós já temos. O mais fácil de mudarmos é o dinheiro. Estamos
buscando dinheiro da maneira correta nas agências de fomento no Brasil e
exterior? Precisamos otimizar esse aspecto para conseguirmos fazer mais coisas.
Além disso, assim como era a relação entre as pesquisas desenvolvidas pelo ITV
e a própria Vale, pretendemos estreitar a relação entre o Instituto e a Rede
D’Or São Luiz, aumentando a interação entre as duas, o que beneficiará ambas as
instituições.

 

Onde você espera que o Instituto
D’Or esteja daqui a dez anos?

Precisamos reforçar a
presença do Instituto no rol das
instituições mais cobiçadas na área de ciência e tecnologia do mundo,
despertando interesse nas pessoas. Outro aspecto é criar um plano de carreira
para nossos pesquisadores, alunos e colaboradores: é preciso que as pessoas
enxerguem no Instituto D’Or uma oportunidade de carreira. Fizemos isso na Vale,
onde diversos pós-doutorandos se tornaram pesquisadores e pesquisadores se
tornaram líderes de linhas de pesquisa. Vários líderes de pesquisa se tornaram
diretores, e assim por diante. Na área administrativa, também era assim. Isso
faz total diferença.

15.06.2018

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