Pesquisa identifica um tipo específico de autoanticorpo associado a sintomas como febre, dor muscular e perda de olfato em pessoas previamente infectadas pelo SARS-CoV-2
Publicado na revista npj Systems Biology and Applications, do grupo Nature, e realizado com a participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), um estudo investigou a ligação entre autoanticorpos e os sintomas da covid-19. Os resultados mostram que um tipo específico de autoanticorpo, direcionado ao receptor de angiotensina tipo 1 (AGTR1), pode estar por trás da persistência e da intensidade de manifestações clínicas da doença, abrindo caminho para novas formas de diagnóstico e tratamento.
Quando o sistema imune se volta contra o próprio corpo
A covid-19 se destacou não apenas pela gravidade de casos agudos, mas também pela diversidade e persistência dos sintomas relatados por muitos pacientes, mesmo após o término da fase infecciosa. A perda de olfato, o cansaço extremo e a dor muscular tornaram-se queixas comuns, mas as causas dessas manifestações ainda levantam dúvidas.
Entre as hipóteses mais investigadas está a atuação dos autoanticorpos, moléculas que o próprio sistema imunológico produz por engano contra componentes do corpo. No novo estudo, pesquisadores exploraram a ação de autoanticorpos que miram proteínas conhecidas como receptores acoplados à proteína G (GPCRs) e moléculas do sistema renina-angiotensina, que regula a pressão arterial e a inflamação.
Os resultados revelam uma forte associação entre esses autoanticorpos e a gravidade dos sintomas, especialmente os que atingem o receptor AGTR1, peça-chave do sistema cardiovascular e inflamatório.
O papel dos autoanticorpos anti-AGTR1
Para entender essa relação, os cientistas analisaram amostras de sangue de 244 adultos não vacinados nos Estados Unidos, sendo 169 infectados pelo SARS-CoV-2 e 75 saudáveis. Os participantes foram divididos de acordo com a severidade da doença (leve, moderada ou grave), e os níveis de 17 autoanticorpos foram medidos por meio de testes laboratoriais.
Os achados mostraram que os autoanticorpos anti-AGTR1 estavam fortemente associados ao acúmulo de sintomas. Pessoas que relataram quatro manifestações principais (perda de olfato ou anosmia, perda de paladar ou disgeusia, febre e dor muscular) apresentaram níveis significativamente mais altos desse autoanticorpo.
Esse padrão não se limitou à gravidade da infecção, indicando que a presença dos anti-AGTR1 pode refletir um processo biológico subjacente à inflamação e à disfunção dos vasos sanguíneos, mesmo em casos leves.
Quando a inflamação se traduz em sintomas
Para compreender o impacto funcional desses autoanticorpos, o grupo utilizou um anticorpo monoclonal específico em células endoteliais humanas (que revestem os vasos sanguíneos) e observou alterações físicas importantes. A presença do anti-AGTR1 reduziu a espessura do glicocálix (uma camada protetora dessas células) e aumentou sua rigidez, comprometendo a passagem adequada de nutrientes e oxigênio.
Essas mudanças podem explicar sintomas como dores musculares, febre e até a perda de olfato, já que a integridade microvascular é essencial para o bom funcionamento de tecidos e nervos. Quando o glicocálix se torna mais rígido, há piora na perfusão sanguínea e estímulo para a liberação de substâncias inflamatórias.
Curiosamente, quando as células foram tratadas com losartana, um medicamento usado para controlar a hipertensão e que bloqueia o receptor AGTR1, parte dos danos foi revertida. Isso sugere um possível papel protetor da droga contra os efeitos dos autoanticorpos.
Implicações clínicas e caminhos futuros
Os resultados levantam a hipótese de que os autoanticorpos anti-AGTR1 possam atuar como marcadores de risco para o agravamento da covid-19. Sua detecção precoce poderia ajudar médicos a prever o curso clínico da doença e personalizar o tratamento de acordo com o perfil imunológico de cada paciente.
Além disso, a ligação entre esses autoanticorpos e sintomas persistentes oferece uma nova explicação para os casos de “covid longa”, em que a resposta imunológica permanece desregulada mesmo após a recuperação da infecção.
Novas pesquisas deverão investigar se outros medicamentos do mesmo grupo podem apresentar efeitos semelhantes e se os autoanticorpos anti-AGTR1 estão presentes em diferentes variantes do vírus.
A compreensão desses mecanismos pode ser essencial para desenvolver estratégias que reduzam as sequelas e melhorem a qualidade de vida de milhões de pessoas que ainda enfrentam os efeitos prolongados da infecção.
20.02.2026