Tratar precocemente sintomas de TOC promove melhorias significativas na flexibilidade cognitiva e qualidade de vida das pessoas
Tratar precocemente sintomas de TOC promove melhorias significativas na flexibilidade cognitiva e qualidade de vida das pessoas
Tratar sintomas obsessivo-compulsivos antes que eles se agravem pode ser crucial para a saúde mental a longo prazo. Realizado com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e publicado na revista Behaviour Research and Therapy, um estudo investigou os efeitos de duas terapias on-line em pessoas com sintomas obsessivo-compulsivos subclínicos, isto é, que apresentavam manifestações mais brandas do transtorno. Ao final da intervenção, foram constatadas melhorias importantes em aspectos como sofrimento psíquico, qualidade de vida e flexibilidade cognitiva dos participantes.
Nem sempre os sinais do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) chegam ao nível clínico, mas isso não significa que devam ser ignorados. Segundo o estudo, os chamados sintomas obsessivo-compulsivos subclínicos afetam até 28% da população. Esses sintomas envolvem obsessões (pensamentos intrusivos e angustiantes) e compulsões (comportamentos repetitivos para aliviar a ansiedade), e mesmo que não preencham os critérios diagnósticos do TOC, eles estão associados a sofrimento, piora da qualidade de vida e risco aumentado para outros transtornos mentais.

Atentos a esse cenário, os pesquisadores conduziram um ensaio clínico randomizado para testar a eficácia de duas intervenções terapêuticas on-line voltadas essa população. O estudo comparou uma abordagem baseada na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), chamada iACT na versão on-line, com um programa de relaxamento progressivo (iPRT). Ambas as terapias foram divididas em quatro módulos interativos oferecidos via internet. Os resultados foram baseados nos 89 participantes que cumpriram os critérios da avaliação.
Flexibilidade cognitiva como chave para o bem-estar
Um dos principais achados de ambas as intervenções foi a melhora da flexibilidade cognitiva, capacidade de adaptar pensamentos e comportamentos de forma mais saudável. Esse aspecto é especialmente valorizado na ACT, que busca promover maior aceitação dos pensamentos negativos sem que eles comandem as ações da pessoa. A melhora da flexibilidade cognitiva esteve associada à redução dos sintomas obsessivo-compulsivos e a um aumento na qualidade de vida dos participantes.
O grupo iACT foi o mais bem avaliado pelos usuários, que relataram sentir-se menos dominados pelos próprios pensamentos. Contudo, embora o grupo iACT tenha sido desenhado especificamente para fomentar a flexibilidade psicológica, o grupo iPRT, que era a intervenção controle do estudo, também apresentou ganhos nessa área. Isso sugere que, em geral, técnicas de relaxamento e controle da ansiedade podem ajudar as pessoas a lidar de maneira mais flexível com os próprios pensamentos.
Importância do tratamento precoce
Mesmo que apenas uma parcela das pessoas com sintomas subclínicos venha a desenvolver TOC (cerca de 4 a 6%), a presença desses sintomas por longos períodos — que pode se estender por até sete anos antes do diagnóstico — está ligada a maiores taxas de depressão, ideação suicida e outras condições psiquiátricas. Isso reforça a importância de intervenções precoces, capazes de aliviar o sofrimento e prevenir o agravamento do quadro.
A pesquisa abre caminho para futuras investigações sobre como intervenções digitais podem ser integradas à saúde mental pública e privada, especialmente na prevenção de transtornos mais graves. O próximo passo, segundo os autores, é entender melhor como cada tipo de intervenção afeta diferentes componentes do transtorno, como obsessões e compulsões, e quais estratégias personalizadas podem ser mais eficazes para o perfil de cada paciente.
Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu.
09.02.2026