A forma de medir o bem-estar pode variar entre culturas e faixas de renda
A pandemia de covid-19 não afetou apenas a saúde física das pessoas, mas também o equilíbrio emocional e o bem-estar psicológico em escala global. Com a incerteza, o isolamento e o medo, uma dúvida se impôs aos pesquisadores: as ferramentas que usamos para medir o bem-estar, como escalas de satisfação com a vida ou de ansiedade, continuaram válidas durante a crise ou perderam parte de seu significado?
Essa foi a pergunta central de um estudo internacional publicado na revista International Journal of Psychology e conduzido por pesquisadores de diferentes países, com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Ciência Pioneira. O trabalho analisou como o bem-estar foi percebido entre 2020 e 2022 em cinco regiões culturais distintas — Áustria, Alemanha, Reino Unido, Rússia e Brasil — buscando entender se os instrumentos psicológicos usados em cada país continuaram medindo as mesmas coisas ao longo do tempo.
As três dimensões do bem-estar
O estudo examinou três dos domínios que compõem o bem-estar psicológico: Satisfação com a vida, que representa uma avaliação geral e racional sobre diferentes aspectos do cotidiano; Preocupações, especialmente com a covid-19 e com a economia; Sintomas de ansiedade e depressão, avaliados por meio de questionários padronizados.
Os resultados mostraram que, dentro de cada país, a forma de medir o bem-estar manteve-se estável ao longo do tempo. Em outras palavras, as escalas aplicadas em 2020 funcionaram do mesmo modo em 2021 e 2022.
Na linguagem técnica, os cientistas chamam isso de invariância escalar, o nível mais alto de estabilidade em medições psicológicas. Isso significa que se houve uma mudança nos índices de bem-estar, ela reflete uma transformação real nas pessoas, e não uma alteração na forma como as perguntas foram interpretadas.
“Se não tivéssemos encontrado invariância, poderia significar, por exemplo, que duas pessoas igualmente tristes dariam respostas diferentes à mesma pergunta medindo tristeza. Uma poderia interpretar “me senti triste” como uma tristeza normal em tempos de Covid, enquanto outra poderia pensar em algo mais profundo, como depressão. Nesse caso, as diferenças nas médias não refletiriam necessariamente mudanças reais no bem-estar, mas sim diferenças de interpretação. Estatisticamente, conseguimos verificar essa diferença”, explica a primeira autora do estudo e pesquisadora do IDOR e da Ciência Pioneira, Dra. Larissa Hartle.
No geral, o bem-estar se manteve estável nos cinco países estudados. A única exceção foi a Áustria, onde as preocupações aumentaram e a satisfação com a vida caiu ao longo dos dois anos seguintes ao início da pandemia.
A desconexão em países de renda mais baixa
O estudo revelou um dado especialmente relevante para contextos como o do Brasil e da Rússia, considerados de renda mais baixa no grupo analisado. Nessas nações, a relação entre satisfação com a vida e sintomas de ansiedade e depressão tornou-se mais fraca com o passar do tempo.
Isso indica que, nesses países, sentir-se satisfeito com a própria vida deixou de refletir, necessariamente, um bom estado psicológico. O bem-estar positivo e o sofrimento clínico se “desacoplaram”. Em outras palavras, alguém podia declarar-se satisfeito com a vida, mas ainda assim apresentar sinais de ansiedade ou depressão. E isso não é uma surpresa quando sabemos que vivemos em país considerado alegre, mas também o mais ansioso do mundo.
Essa dissociação mostra que medir apenas a satisfação com a vida pode ser insuficiente para compreender a saúde mental de populações em contextos de maior desigualdade.
O que a pesquisa nos ensina sobre o futuro
A principal contribuição do estudo é metodológica e conceitual: ele reforça a importância de testar se as ferramentas psicológicas realmente medem os mesmos fenômenos ao longo do tempo e em diferentes culturas. Sem essa verificação, as comparações podem levar a conclusões equivocadas sobre o impacto de crises globais no bem-estar humano.
Os resultados sugerem que, mesmo diante de uma crise sem precedentes, o conceito de bem-estar se manteve estável dentro das culturas, o que permite rastrear a recuperação emocional com mais segurança. No entanto, eles também revelam que a experiência do bem-estar é moldada por contextos econômicos e culturais, o que exige mais sensibilidade na hora de interpretar dados entre países.
Em tempos de incerteza global, compreender como diferentes populações percebem e vivenciam o bem-estar é essencial não apenas para a ciência, mas também para a formulação de políticas públicas mais adequadas às realidades locais.