Estudo do IDOR revela que ouvir canto das torcidas está associado a fenômenos como sincronia social, pertencimento e violência no futebol 

Estudo publicado na revista científica Evolutionary Psychology com participação da Ciência Pioneira e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) investigou como o canto coletivo e o sentimento de pertencimento entre torcedores brasileiros influenciam percepções de força, ameaça e hostilidade entre rivais. 

Poucos sons são tão reconhecíveis quanto o coro de uma torcida de futebol. Cantos entoados em uníssono transformam estádios em verdadeiros templos emocionais, onde milhares de vozes vibram como uma só. Essa sincronia sonora, além de empolgar e unir os torcedores, também carrega um poder psicológico profundo: o de reforçar laços de pertencimento e, em alguns casos, acirrar a rivalidade com o “outro”. 

Buscando compreender essa relação entre sincronia, identidade e conflito, um grupo internacional de pesquisadores publicou uma pesquisa que investigou como o canto sincronizado de torcedores de futebol brasileiros afeta percepções de força, ameaça e comportamento em relação a grupos rivais. 

Como o estudo foi feito: cantar junto, medir o efeito

Para entender como o comportamento coletivo influencia percepções e atitudes, os cientistas realizaram um estudo online com 771 torcedores brasileiros. O objetivo era avaliar como a sincronia no canto, característica típica das torcidas organizadas, afeta a percepção de formidabilidade (força atribuída ao próprio grupo) e ameaça entre torcedores de diferentes clubes. 

Os participantes foram divididos em dois grandes grupos: torcedores do Flamengo (grupo interno) e torcedores de times rivais (grupo externo). Cada pessoa ouviu uma gravação de 60 segundos do hino do Flamengo em duas versões: uma síncrona, com vozes cantando em perfeito compasso, e outra assíncrona, com vozes fora de ritmo. 

Após ouvir o áudio, os participantes responderam a questionários sobre: 

  1. Formidabilidade: o quão grande, forte e unido seu grupo era percebido; 
  1. Ameaça reconhecida: o quanto o grupo rival parecia perigoso ou agressivo; 
  1. Comportamentos intergrupais: escolhas que poderiam beneficiar o próprio grupo ou prejudicar o rival, baseadas em um jogo experimental de dilemas sociais. 

Além disso, os pesquisadores avaliaram o nível de fusão de identidade de cada participante, que seria o grau de ligação emocional e simbólica que o torcedor sente com seu time.

O filme Hooligans: Fúria nos Campos (2005), retrata a cultura de pertencimento de grupo e a violência no futebol pela perspectiva de participantes de torcidas organizadas na Inglaterra.

Quando a sincronia dá forma à força 

Os resultados mostraram que o canto sincronizado realmente faz diferença. Os torcedores que ouviram o hino cantado de forma síncrona perceberam aquela torcida como mais formidável, isto é, maior, mais unida e mais poderosa. Esse efeito ocorreu tanto entre os torcedores do próprio time quanto entre os rivais. 

Essa percepção de formidabilidade é mais do que uma simples impressão estética. Ela está associada a um instinto evolutivo de avaliar grupos sociais: ao ver um grupo agindo em perfeita coordenação, nosso cérebro tende a interpretar isso como um sinal de poder coletivo. No contexto do futebol, o canto uníssono pode ser entendido, inconscientemente, como uma demonstração de força e domínio. 

Por outro lado, o canto sincronizado não aumentou diretamente a percepção de ameaça. Ou seja, os torcedores rivais não se sentiram necessariamente mais atacados por ouvirem o canto conjunto. Esse resultado pode estar ligado à natureza do experimento, que foi realizado online e sem a carga emocional e física de um estádio. 

O papel da identidade e do sentimento de ameaça 

Se a sincronia não foi suficiente para gerar ameaça, outro fator se mostrou decisivo: a fusão de identidade. Os torcedores que se viam profundamente conectados ao seu time e percebiam o rival como uma ameaça apresentaram maior propensão a atitudes hostis. 

Essa forte identificação com o grupo e sensação de perigo se mostrou capaz de aumentar o comportamento de “ódio ao rival”. É como se a lealdade extrema ao grupo fizesse o indivíduo agir em defesa simbólica da sua “família esportiva”, ainda que de maneira irracional ou agressiva. 

Esses achados vão ao encontro de outros estudos que avaliaram violência entre torcidas no esporte, apontando que, para além do sentimento identitário, a exposição a um ambiente agressivo e a marginalização são outros pontos importantes para entender a origem multifatorial da violência no futebol. 

Os resultados mostram que o canto sincronizado tem poder real sobre a percepção social, e que a fusão de identidade pode intensificar reações emocionais e comportamentos extremos. Compreender esses processos é essencial não apenas para prevenir a violência nos estádios, mas também para refletir sobre outras formas de rivalidade coletiva, sejam elas políticas, religiosas ou culturais.