Estudo mostra avanços expressivos na estrutura de cuidado ao AVC, mas evidencia desigualdades regionais e desafios para garantir qualidade em todo o país

Publicado na revista científica Cerebrovascular Diseases e realizado com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), um estudo recente analisou a evolução do atendimento ao acidente vascular cerebral (AVC) no Brasil entre 2008 e 2022. A pesquisa revela um crescimento significativo da rede assistencial, impulsionado por políticas públicas, ao mesmo tempo em que aponta gargalos estruturais e desigualdades regionais que ainda impactam o cuidado aos pacientes. 

Por que organizar o atendimento ao AVC salva vidas

O AVC segue como uma das principais causas de morte e incapacidade no Brasil. Em casos agudos, cada minuto conta. Estratégias como a internação em unidades especializadas de AVC e o acesso rápido a terapias de reperfusão, que restabelecem o fluxo sanguíneo no cérebro, são reconhecidas internacionalmente como custo-efetivas e decisivas para reduzir mortalidade e sequelas. Nesses casos de urgência, a organização do sistema para que cada paciente receba o tratamento devido no tempo adequado é até mais importante do que ter apenas a tecnologia disponível. 

Ao comparar a infraestrutura disponível em 2008 com a realidade estabelecida no país até 2022, os autores observaram um avanço impressionante. O número de centros especializados em AVC no Brasil passou de 35 para 246 após a implementação de políticas nacionais, como a Política Nacional de Atenção ao AVC, criada em 2012 pelo Ministério da Saúde. Esse crescimento reflete investimentos em financiamento, capacitação de equipes e definição de critérios mínimos para o funcionamento desses serviços.

Como o estudo avaliou os centros de AVC

A pesquisa utilizou um levantamento nacional online baseado no Roadmap da World Stroke Organization (WSO), uma ferramenta que fornece protocolos e recomendações padronizados e baseados em evidências para o cuidado do AVC. Os centros foram classificados como essenciaisquando ofereciam trombólise intravenosa, ou avançados, quando também realizavam trombectomia mecânica. Além disso, foram analisados aspectos como infraestrutura hospitalar, presença de equipes multiprofissionais e adesão a protocolos de atendimento alinhados às diretrizes nacionais e internacionais.

Avanços que convivem com desigualdades

Apesar do progresso, os resultados revelam um cenário desigual. Dos 216 centros avaliados, 77% estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste. A maioria dos centros avançados pertence à rede privada, enquanto os serviços essenciais são majoritariamente públicos. Embora exames diagnósticos básicos e trombólise estejam amplamente disponíveis, menos da metade dos hospitais conta com unidades de AVC estruturadas, e apenas 47% oferecem trombectomia mecânica de forma contínua, 24 horas por dia. 

A falta de padronização no atendimento imediato e tratamento também prejudica os pacientes, e os pesquisadores sugerem que a telemedicina pode ser uma aliada estratégica para levar expertise a regiões com menos recursos, apoiando decisões clínicas em tempo real. Além disso, programas de certificação inspirados no modelo da WSO podem ajudar a padronizar práticas, reduzir variações no atendimento e melhorar os desfechos em escala nacional. 

Um avanço importante e os próximos passos

O estudo conclui que ampliar o número de centros, apesar de muito positivo, não foi suficiente para o país. O Brasil avançou de forma consistente na estruturação do cuidado ao AVC, mas ainda enfrenta desafios relevantes de equidade, especialmente no sistema público.  

Para os autores, a consolidação das recomendações do Roadmap da WSO, aliada à expansão da certificação de centros e ao uso estratégico da telemedicina, será decisiva para transformar crescimento em qualidade e salvar mais vidas em todo o território brasileiro. 

 

Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu 

24.07.2026