Pesquisa indica que anticorpos gerados após infecção podem reagir com proteínas ligadas à produção de espermatozoides e ao tecido ovariano 

Um estudo publicado na revista Frontiers in Immunology, com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), investigou como a infecção por SARS-CoV-2 pode impactar a fertilidade de homens e mulheres. A pesquisa identificou semelhanças entre partes da proteína Spike do vírus e proteínas humanas envolvidas na produção de espermatozoides, o que pode levar o sistema imunológico a atacar, por engano, tecidos do próprio organismo. 

 

Infecção viral e fertilidade 

Desde o início da pandemia, cientistas investigam possíveis efeitos da covid-19 sobre diferentes sistemas do corpo humano. O sistema reprodutor masculino está entre os que despertam atenção, já que infecções virais podem interferir na espermatogênese, processo responsável pela produção de espermatozoides. 

Estudos anteriores identificaram que, assim que recuperados da covid-19, 25,5% dos homens apresentavam oligo-cripto-azoospermia, um quadro grave de infertilidade caracterizado pela quantidade muito baixa ou ausência de espermatozoides no sêmen. Para comparação, essa condição aparece em apenas 1% a 3% dos homens na população em geral. 

Embora esse quadro de infertilidade regrida para a maioria dos homens com o passar do tempo, os pesquisadores buscaram entender por que esse sintoma ocorre durante a infecção. Segundo o estudo, a causa principal seria um fenômeno chamado mimetismo molecular, uma espécie de “confusão de identidade” do sistema imunológico, em que partes do vírus são tão parecidas com moléculas do próprio corpo que os anticorpos produzidos para combater a infecção acabam atacando tecidos saudáveis, como os reprodutivos. 

 

Quando proteínas do vírus se parecem com proteínas humanas 

A primeira etapa da pesquisa foi realizada por meio de análises computacionais, em uma abordagem chamada in silico. Os cientistas compararam a proteína spike do SARS-CoV-2 (coronavírus da Covid-19) com proteínas humanas envolvidas na produção de espermatozoides. 

A análise identificou 245 pequenos trechos idênticos de proteínas presentes tanto na proteína viral quanto em 217 proteínas humanas ligadas à espermatogênese. Isso significa que o vírus compartilha diversos “pedacinhos” de proteína muito parecidos com partes de proteínas que o corpo usa para produzir espermatozoides. 

 

Evidências de impacto na fertilidade masculina 

Para investigar se essa semelhança realmente gera reações autoimunes, os pesquisadores analisaram amostras de sangue de 182 adultos, incluindo 163 pessoas infectadas ou vacinadas e 19 voluntários saudáveis, que serviram como grupo controle. 

Os cientistas sintetizaram fragmentos específicos de proteína (peptídeos) para testar se eles seriam reconhecidos por anticorpos, como o peptídeo 4, que apresenta semelhança com proteínas importantes para a espermatogênese. As análises identificaram que anticorpos contra esse fragmento apareceram em 25% dos pacientes na fase aguda da infecção e em 21% das pessoas com covid longa, condição em que sintomas da doença persistem ou surgem semanas ou meses após a infecção inicial. 

Outro fragmento analisado foi o peptídeo 2, também relacionado a proteínas do sistema reprodutor. Os pesquisadores observaram que anticorpos contra esse fragmento apareceram em 15,8% dos pacientes com covid longa, enquanto apenas 9% dos pacientes na fase aguda apresentaram essa resposta.  

Os pesquisadores realizaram ainda experimentos em laboratório, onde observaram que anticorpos contra o peptídeo 2 reagiram diretamente com proteínas presentes no tecido testicular de camundongos, o que sugere que anticorpos gerados contra o vírus podem reconhecer proteínas importantes para a produção de espermatozoides, potencialmente interferindo na fertilidade masculina. 

 

Um achado inesperado: impacto também pode atingir mulheres 

Um dos resultados mais surpreendentes do estudo foi observado em pacientes com síndrome da covid longa: nesse grupo, os anticorpos contra o peptídeo 2 apareceram com maior frequência em mulheres, fato que chamou a atenção dos pesquisadores porque as proteínas analisadas estão associadas principalmente à produção de espermatozoides. 

A hipótese levantada pelos autores é que essa reação autoimune possa afetar também tecidos ovarianos. Caso isso ocorra, o processo poderia interferir na função dos ovários e potencialmente impactar a fertilidade feminina ao longo do tempo. Contudo, os pesquisadores ressaltam que essa possibilidade ainda precisa ser investigada em estudos futuros, ainda que o achado levante novas questões sobre os efeitos de longo prazo da covid-19 na saúde reprodutiva. 

 

Vacinação não apresentou o mesmo efeito 

Um resultado considerado tranquilizador foi observado no grupo de pessoas vacinadas. Nenhum dos 131 participantes que receberam vacinas contra a covid-19 apresentou anticorpos que reconhecessem qualquer um dos quatro fragmentos de proteína analisados. 

Ou seja, os resultados indicam que a resposta imunológica gerada pelas vacinas não desencadeia esse tipo específico de reação cruzada, e, segundo os autores, isso ocorre porque a infecção natural provoca um estado inflamatório mais intenso no organismo, capaz de estimular respostas autoimunes que não aparecem na vacinação. 

 

O que o estudo sugere para o futuro da saúde reprodutiva 

Os resultados indicam que o mimetismo molecular pode ser um dos mecanismos que ajudam a explicar possíveis sequelas reprodutivas associadas à infecção pelo SARS-CoV-2. Embora ainda sejam necessários novos estudos clínicos para confirmar esses efeitos, a pesquisa sugere que respostas autoimunes desencadeadas pela infecção podem afetar tanto a produção de espermatozoides quanto, possivelmente, a função ovariana. 

Ao mesmo tempo, os dados reforçam a segurança da vacinação, que não apresentou nenhum risco reprodutivo, indicando que o impacto deletério na fertilidade está associado principalmente à infecção natural pelo vírus e reiterando a importância da imunização contra a covid-19. 

06.10.2026 Otavio Cabral-Marques