Pesquisador do IDOR e da Fiocruz explica por que o atual surto na África preocupa autoridades sanitárias, mas apresenta baixo risco de provocar uma epidemia em território brasileiro

No dia 16 de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência de saúde pública de importância internacional (ESPII) devido a um novo surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda. Cerca de dez dias depois, o Ministério da Saúde do Brasil ativou o Plano de Contingência Nacional para Febres Hemorrágicas Virais para prevenir a entrada do Ebola no país. Até então, quadro casos suspeitos da doença foram descartados nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Em entrevista, o pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Dr. José Cerbino, explica em detalhes o cenário e suas implicações para o Brasil.

Surto já pode ter ultrapassado mil infecções

Até o fim de maio de 2026, no Congo e em Uganda já foram confirmados mais de 260 casos e 43 mortes por Ebola, mas o número é subnotificado e, na realidade, é possível que já ultrapasse mil infecções.

Variante Bundibugyo preocupa pela ausência de vacinas

A cepa responsável, denominada Bundibugyo, não possui vacina aprovada, diferentemente da cepa Zaire, responsável pela maioria dos surtos da doença, incluindo o de 2014 a 2016. “A Bundibugyo é uma variante mais rara. Não é nova e já causou outros surtos anteriormente, mas certamente este é o maior. Atualmente, não há vacina aprovada especificamente para a variante Bundibugyo nem tratamento antiviral aprovado, o que significa que o tratamento é apenas de suporte, focado no controle dos sintomas”, comenta o infectologista, que também integra o Collaborative Open Research Consortium (CORC) da OMS.

Como ocorre a transmissão do Ebola?

Como outras zoonoses, a infecção inicial pelas variantes do Ebola acontece por contato direto com animais infectados, especialmente morcegos e chimpanzés. Depois que a doença chega aos humanos, ela se dissemina principalmente de pessoa para pessoa por meio do contato direto com fluidos corporais de alguém infectado, como sangue, vômito, fezes, urina, saliva e sêmen.

Quais são os sintomas da doença?

Os sintomas da doença começam de forma inespecífica, semelhante a uma gripe ou resfriado, o que atrasa o diagnóstico. Febre alta, dores no corpo e dor de cabeça podem progredir para sangramentos graves pelo nariz, gengivas e mucosas, hemorragias nas fezes, confusão mental, irritabilidade e até falência de múltiplos órgãos, levando à morte em cerca de 30% a 50% das infecções.

O atual surto pode chegar ao Brasil?

“O risco existe, mas é baixo”, tranquiliza o Dr. Cerbino. “A primeira razão é que não temos grande parte do reservatório silvestre da doença, isto é, primatas como o chimpanzé. É por haver esses reservatórios nas áreas do Congo e de Uganda que o Ebola pode desaparecer após um surto, mas voltar depois de dez anos”, explica.

Por que uma epidemia brasileira seria improvável?

No país, foram notificados quatro principais casos suspeitos da doença, um no Rio de Janeirooutro no Rio Grande do Sul e dois em São Paulo. Contudo, todas as suspeitas foram descartadas por análises laboratoriais. Segundo o pesquisador, um surto brasileiro só poderia ocorrer por transmissão humana, mas isso também seria difícil. “Não existem voos diretos do Brasil para a área que está sendo afetada na África, o que reduz bastante a chegada de possíveis infectados. Ainda assim, se um viajante infectado chega aqui, as formas de conter esse contágio seriam bem mais simples do que no caso da covid-19, porque não é uma doença respiratória, embora não deva ser subestimada.”

Conflitos armados dificultam o controle da doença

O Dr. Cerbino afirma que um grande fator que dificulta a contenção da doença na República Democrática do Congo é o conflito armado que ocorre na região há mais de 25 anos, relacionado à disputa por minérios estratégicos concentrados no território. Nesse contexto, a OMS enfrenta dificuldades para estabelecer quarentenas, isolar enfermos e enviar profissionais de saúde para ações humanitárias, o que compromete até mesmo a notificação precisa dos casos.

Desinformação também favorece a transmissão

Os conflitos também geram condições insalubres e deslocamentos em massa da população. Como se não bastassem esses desafios, a desinformação também vitimiza muitos habitantes, que costumam velar os corpos dos mortos por vários dias, aumentando as chances de transmissão.

Por que o Brasil ativou um plano de contingência?

“Essa medida demonstra justamente o preparo do nosso sistema de saúde. Não é porque um surto é improvável que o risco se torna inofensivo. Esse plano de contingência existe justamente para permitir uma resposta rápida em caso de confirmação de casos em território nacional. Ele especifica para onde iriam os pacientes internados, se temos equipamentos de proteção suficientes e qual é a nossa capacidade de realizar o diagnóstico correto da doença.”

Informação de qualidade é parte da prevenção

O Dr. Cerbino reforça que, com a proximidade da última grande crise sanitária mundial, durante a pandemia de 2020, a população global está mais atenta a epidemias locais em diferentes partes do mundo. Nesse cenário de ansiedade, ele afirma que a melhor forma de promover transparência e precaução é oferecer informações de qualidade, para que as pessoas compreendam o contexto e entendam por que determinados riscos são mais ou menos prováveis.

“Não adianta dizer apenas que o risco é baixo no Brasil, é necessário fazer a população entender o real cenário. As pessoas têm direito a mais informações e a menos alarmismo, para que possam sentir segurança e colaborar com os sistemas de saúde quando for necessário. A desinformação tem se mostrado um agravante cada vez mais relevante para a contenção de crises sanitárias, e a única forma de combatê-la é por meio do esforço constante de equipar a população com conhecimento”, conclui o pesquisador.

Embora o atual surto de Ebola represente um desafio regional significativo para a África Subsaariana Central, especialmente diante das dificuldades estruturais e humanitárias enfrentadas na região, o especialista detalha por que o cenário brasileiro é bastante diferente. Nesse contexto, a vigilância epidemiológica, o planejamento antecipado e o acesso à informação de qualidade são fundamentais para garantir uma resposta eficaz, evitando tanto o alarmismo quanto a subestimação dos riscos.

Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu.