Pesquisa acompanhou indicadores de segurança do paciente em 57 hospitais brasileiros e mostra que avanços na qualidade ocorreram sem comprometer o desempenho financeiro
A qualidade da assistência hospitalar não depende apenas de equipamentos modernos ou profissionais qualificados. Para reduzir riscos aos pacientes e tornar o cuidado cada vez mais seguro, hospitais investem continuamente em protocolos clínicos, monitoramento de indicadores e estratégias de melhoria dos processos assistenciais. Esse conjunto de práticas faz parte da chamada governança clínica, modelo de gestão que busca garantir que o cuidado seja oferecido de forma padronizada, baseada em evidências e com avaliação contínua dos resultados.
Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em colaboração com a Rede D’Or, avaliou como indicadores de qualidade evoluíram ao longo de nove anos em hospitais da Rede distribuídos por todo o Brasil. A pesquisa analisou desde infecções relacionadas à assistência até quedas de pacientes, lesões por pressão e o tempo de atendimento em situações críticas, como sepse e infarto agudo do miocárdio. Os resultados, publicados na revista BMC Health Services Research, mostram que diversos indicadores apresentaram melhora consistente ao longo do período estudado.
Uma visão de longo prazo sobre a qualidade hospitalar
Indicadores de qualidade são uma das principais ferramentas utilizadas para avaliar a segurança do atendimento hospitalar. Eles permitem acompanhar eventos que podem colocar pacientes em risco, como infecções relacionadas à assistência, quedas durante a internação, lesões por pressão e atrasos em tratamentos considerados urgentes.
Embora hospitais monitorem esses indicadores rotineiramente, ainda existem poucos estudos que demonstram a evolução ao longo dos anos em uma grande rede hospitalar, especialmente em países de renda média, como o Brasil. Além disso, também foi avaliado se investir continuamente em qualidade assistencial compromete a sustentabilidade financeira das instituições.
Como os pesquisadores acompanharam a evolução dos hospitais
Os pesquisadores analisaram dados coletados entre 2016 e 2024 em 57 hospitais gerais de alta complexidade da Rede D’Or. Como algumas unidades passaram a integrar a rede ao longo do período, o número de hospitais acompanhados cresceu progressivamente, de 25 para 57. “Existe uma diferença substancial entre gerenciar um número limitado de hospitais e manter consistência de qualidade técnica em uma rede com 79 unidades. Escalar sem perder qualidade é um dos maiores desafios da saúde” comentou Dra. Helidea Lima, pesquisadora do IDOR e Diretora de Qualidade Assistencial da Rede D’Or.
Foram avaliados dez indicadores relacionados à segurança do paciente e à qualidade da assistência, incluindo mortalidade cirúrgica, infecções hospitalares, quedas, lesões por pressão e indicadores de rapidez no atendimento à sepse e ao infarto.
Além dos indicadores clínicos, a equipe também utilizou dados financeiros para investigar se existia relação entre a evolução da qualidade assistencial e o desempenho econômico das instituições.
Melhorias consistentes em diferentes indicadores de qualidade
Ao longo dos nove anos de acompanhamento, diversos indicadores apresentaram melhora consistente. Entre os principais resultados estão a redução de infecções da corrente sanguínea relacionadas ao uso de cateter venoso central, infecções urinárias associadas ao uso de cateter vesical, lesões por pressão e quedas de pacientes internados.
Os pesquisadores também observaram aumento da proporção de pacientes com sepse que receberam antibióticos na primeira hora após o reconhecimento da condição e redução do tempo entre a chegada ao hospital e a realização da angioplastia em pacientes com infarto agudo do miocárdio.
“O ponto mais evidente e já refletido no título, diz respeito à governança clínica unificada e à tendência dos indicadores de qualidade técnica ao longo do tempo. Observa-se, de forma consistente, uma melhora progressiva da maioria desses indicadores na série histórica analisada. Alguns permanecem estáveis, mas nenhum apresenta piora” afirma a Dra. Helidea.
Os efeitos da pandemia sobre os indicadores de qualidade
Assim como ocorreu em diversos sistemas de saúde ao redor do mundo, a pandemia de COVID-19 aumentou a pressão sobre os hospitais e influenciou alguns indicadores de qualidade.
No estudo, infecções relacionadas à assistência e lesões por pressão apresentaram aumento temporário durante os anos mais críticos da pandemia. No entanto, após esse período, os indicadores voltaram a melhorar, retomando a tendência observada antes de 2020. Esses resultados sugerem que programas estruturados de qualidade conseguem recuperar seu desempenho mesmo após períodos de grande sobrecarga assistencial.
Segundo os pesquisadores, a padronização de protocolos, o acompanhamento sistemático de indicadores, as auditorias periódicas e o compartilhamento de boas práticas entre diferentes hospitais podem contribuir para reduzir eventos adversos e fortalecer a cultura de segurança do paciente.
Outro achado importante foi a ausência de uma associação consistente entre a melhora da qualidade assistencial e pior desempenho financeiro. Embora a pesquisa não permita estabelecer relações de causa e efeito, os resultados sugerem que investir em qualidade não significa, necessariamente, comprometer a sustentabilidade econômica das instituições. “Considerando-se que houve evolução positiva da performance econômica ao longo do período analisado, é razoável inferir que a qualidade contribuiu para o fortalecimento global da organização” ponderou Dra. Helidea.
Os autores destacam que estudos futuros poderão investigar quais componentes da governança clínica exercem maior influência sobre a melhoria dos indicadores assistenciais, além de avaliar se estratégias semelhantes produzem resultados comparáveis em outros modelos de organização hospitalar, incluindo instituições públicas e redes de saúde de diferentes países.
“Assim, mais do que apresentar resultados isolados, este estudo oferece uma análise histórica consistente da trajetória da Rede D’Or: sua consolidação, expansão, enfrentamento de desafios críticos e entrega sustentada de resultados de qualidade técnica, o que repercute necessariamente em melhores desfechos aos pacientes atendidos” conclui Dra. Helidea.