Pesquisa sugere relação entre adiposidade corporal e sintomas de depressão em idosos com diagnóstico de demência
A demência é um dos maiores problemas de saúde pública global, estimando-se que até 45% dos casos estejam associados a fatores de risco modificáveis como doenças metabólicas, deficiências sensoriais (como surdez) e depressão. Estudos indicam que a hipertensão e o diabetes mellitus podem explicar a relação observada entre obesidade e comprometimento cognitivo, que aumentam a vulnerabilidade à demência na idade avançada. Buscando entender essa relação, pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), investigaram se diferentes indicadores antropométricos, como Índice de Massa Corporal (IMC) e Índice de Redondeza Corporal (BRI – ver explicação mais adiante), estariam relacionados à presença de sintomas depressivos em pessoas com demência. A pesquisa, publicada na revista científica Journal of Health Psychology, analisou fatores metabólicos que poderiam influenciar tanto alterações de humor quanto processos ligados ao envelhecimento cerebral.
O estudo analisou dados de 601 idosos entre 60 e 91 anos atendidos na Memory Clinic, no Rio de Janeiro, entre 2015 e 2024. Todos os participantes passaram por avaliações clínicas, cognitivas e funcionais, além de medições corporais como peso, altura e circunferência abdominal. Os pesquisadores utilizaram escalas padronizadas para identificar sintomas de depressão e critérios clínicos específicos para o diagnóstico de demência.
Além de medidas tradicionais, como o IMC e circunferência da cintura, a equipe avaliou outros indicadores corporais. Entre eles estava o BRI, uma medida que combina altura e circunferência da cintura para estimar a gordura acumulada na região abdominal. Diferentemente do IMC, que considera apenas peso e altura, o BRI busca representar melhor a distribuição da gordura corporal.
Na população geral analisada, os pesquisadores não observaram uma associação clara entre os indicadores corporais e a presença de sintomas depressivos. Entretanto, os resultados do estudo mostraram que os 239 pacientes já com demência, com valores mais elevados de BRI, apresentaram maior probabilidade de ter sintomas depressivos. Os participantes no grupo com maiores valores do índice apresentavam chance três vezes maior de ter depressão em comparação aos que apresentavam valores menores.
Outras medidas, como IMC e circunferência abdominal, também apresentaram associações em alguns grupos, mas os resultados seguiram padrões menos consistentes. Segundo os pesquisadores, isso pode ser reflexo das mudanças naturais do envelhecimento como perda de massa muscular e alterações na composição corporal.
Os achados indicam que fatores metabólicos influenciam sintomas neuropsiquiátricos em pessoas com demência. Vale lembrar que outros grupos de pesquisa já sugeriram que o excesso de gordura abdominal pode favorecer processos inflamatórios e alterações metabólicas capazes de afetar o funcionamento cerebral. O BRI utiliza medidas simples obtidas durante consultas de rotina e pode contribuir para a identificação de pacientes que merecem monitoramento mais próximo para sintomas depressivos. O reconhecimento precoce desses sintomas pode favorecer intervenções mais rápidas e contribuir para o cuidado integral de pessoas com demência.
Os pesquisadores destacam que novos estudos serão necessários para entender se essa relação é causal e se mudanças na gordura corporal podem influenciar sintomas depressivos ao longo do tempo. Pesquisas futuras também poderão investigar os mecanismos biológicos envolvidos nessa associação.
Escrito por Manuelly Gomes
Revisado por Dr. Claudio Ferrari