Análise de 670 mil pacientes ao longo de 16 anos mostra maior frequência de doença avançada entre homens não brancos e diferenças no acesso a terapias modernas 

O maior estudo de mundo real já realizado sobre câncer de próstata no Brasil analisou dados de 670.205 pacientes tratados no Sistema Único de Saúde (SUS) ao longo de 16 anos, entre 2008 e 2023. Publicado no Journal of Global Oncology (JCO), periódico oficial da American Society of Clinical Oncology (ASCO), o trabalho contou com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e investigou padrões de diagnóstico, tratamento e custos da doença no país. Os resultados revelam desigualdades raciais importantes, com maior frequência de doença avançada no momento do diagnóstico entre homens não brancos e diferenças no investimento terapêutico. 

Um retrato nacional inédito do câncer de próstata 

O câncer de próstata é atualmente a segunda neoplasia mais diagnosticada entre homens no mundo e a quinta principal causa de morte por câncer nessa população. No Brasil, a estimativa foi de 71.730 novos casos apenas em 2023. 

Apesar da relevância da doença, estudos populacionais de grande escala ainda são raros no país. Para preencher essa lacuna, pesquisadores analisaram dados do DATASUS referentes a 670.205 pacientes diagnosticados e tratados no SUS entre 2008 e 2023, criando um dos maiores bancos de dados já utilizados para investigar a doença em um sistema público de saúde. 

A análise revelou que a idade média ao diagnóstico foi de 72,9 anos, chamando atenção para o fato de que 21% dos pacientes já apresentavam doença metastática no momento da descoberta, o que significa que o câncer já havia se espalhado para outras partes do corpo. Além disso, homens não brancos apresentaram uma frequência significativamente maior de doença avançada, nos estágios III e IV, em comparação com homens brancos. 

O estudo foi liderado pelo Dr. Daniel Herchenhorn, oncologista clínico da Oncologia D’Or e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), além de pesquisador do Latin America Cooperative Oncology Group (LACOG), uma organização sem fins lucrativos com mais de 400 pesquisadores e dedicada à pesquisa em câncer na América Latina. 

Diferenças no acesso a tratamentos mais eficazes 

Além do perfil dos pacientes, os pesquisadores também analisaram quais terapias foram utilizadas após o diagnóstico. Entre os 125.759 indivíduos com doença metastática que receberam tratamento sistêmico, apenas 17,8% foram tratados com docetaxel, uma quimioterapia considerada padrão em diversos protocolos internacionais. 

Por outro lado, cerca de 25% dos pacientes receberam antiandrogênios de primeira geração ou estrogênios, medicamentos mais antigos que não demonstraram aumento comprovado de sobrevida em comparação com terapias mais modernas. 

Outro dado relevante envolve o uso de tratamentos mais recentes, como os inibidores do receptor de androgênio, utilizados em muitos países para tratar a doença avançada. No SUS, essas terapias foram usadas em apenas cerca de 1% dos casos. 

Isso ocorre porque muitos desses medicamentos ainda não são financiados ou reembolsados pelo sistema público, o que limita sua disponibilidade para pacientes tratados exclusivamente pelo SUS. 

Custos do tratamento também mostram desigualdades 

Durante o período analisado, o SUS destinou cerca de 1,83 bilhão de dólares internacionais (uma medida que ajusta o valor do dinheiro ao longo do tempo em relação ao poder de compra do brasileiro) ao tratamento do câncer de próstata. No entanto, os custos médios não foram distribuídos de forma uniforme entre os grupos raciais, já que os gastos médios com pacientes brancos foram 16,2% maiores do que com pacientes não brancos. 

Para os pesquisadores, essa diferença pode refletir desigualdades no acesso a determinados tratamentos ou diferenças no momento em que os pacientes chegam ao sistema de saúde. 

“Ainda que todo o estudo tenha sido realizado dentro de uma rede pública, as diferenças entre pacientes brancos e não brancos escancaram mais uma vez desigualdades raciais no país. A população parda e negra costuma buscar tratamento mais tarde que a branca, o que mostra uma disparidade quanto à informação, além de outras questões sociais que podem dificultar o acesso a postos de saúde”, afirma Herchenhorn. 

Um estudo com impacto internacional 

Além de revelar desigualdades importantes no Brasil, o trabalho também se destaca pelo seu tamanho e pelo tipo de dados analisados. 

“Não temos conhecimento de outro estudo que tenha analisado dados reais de câncer de próstata em um número tão grande de pacientes e ao longo de um período tão longo como este, de 16 anos. Isso torna a pesquisa particularmente relevante do ponto de vista científico”, destaca o pesquisador. “Essas análises são especialmente importantes para países com situação socioeconômica semelhante à do Brasil, incluindo várias nações da América Latina, que enfrentam desafios parecidos no acesso ao diagnóstico e ao tratamento do câncer”, acrescenta. 

Desafios para o futuro do diagnóstico e tratamento 

Os autores concluem que a alta proporção de diagnósticos em estágios avançados sugere falhas na detecção precoce da doença no sistema público brasileiro, principalmente no referente à população não branca. Ao mesmo tempo, a baixa utilização de terapias modernas aponta para barreiras estruturais no acesso a tratamentos baseados em evidências. 

Ao reunir dados de mais de meio milhão de pacientes, o estudo oferece um dos panoramas mais completos já produzidos sobre o câncer de próstata no Brasil e pode servir como base para o desenvolvimento de políticas públicas que reduzam desigualdades no diagnóstico e no tratamento da doença. 

 

Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu

 

Pesquisadores e profissionais IDOR / Rede D’Or envolvidos na publicação: 

19.10.2026 Daniel Herchenhorn Vinicius Carrera