Pesquisa aponta novos caminhos para o diagnóstico da uveíte não infecciosa através de biomarcadores que distingue formas isoladas ou sistêmicas da doença
Um estudo publicado na revista Frontiers in Immunology com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) revelou que a uveíte não infecciosa apresenta uma forte assinatura genética ligada ao interferon, proteína do sistema imunológico. Ao analisar dados de expressão gênica no sangue de 169 pacientes, os pesquisadores identificaram biomarcadores, diferenças entre subtipos da doença e possíveis alvos terapêuticos que podem ajudar no desenvolvimento de diagnósticos mais precisos e tratamentos personalizados.
Uveíte: uma causa importante de perda de visão
A uveíte é uma inflamação intraocular que pode comprometer estruturas fundamentais do olho e levar à perda de visão. Estima-se que a doença seja responsável por até 25% dos casos de cegueira legal no mundo, afetando mais de dois milhões de pessoas globalmente.
A condição pode ter origem infecciosa ou não infecciosa. Nesta última categoria, a inflamação pode surgir apenas no olho ou estar associada a doenças sistêmicas. Apesar de sua relevância clínica, os mecanismos imunológicos que desencadeiam e sustentam essa inflamação ainda não são totalmente compreendidos.
Levando isso em consideração, um novo estudo buscou investigar essas bases biológicas, tendo como foco o chamado interferoma, o conjunto de genes regulados por interferons, moléculas do sistema imunológico que comunicam e coordenam respostas inflamatórias e antivirais.
Análise de dados genéticos de mais de 250 pessoas
O estudo analisou informações de 251 indivíduos, sendo 169 pacientes com uveíte não infecciosa e 82 controles saudáveis.
Os pacientes com a doença não infecciosa foram divididos em 2 grupos, 56 apresentavam uveíte isolada, que se manifestava apenas no olho, enquanto 113 tinham a doença associada a condições sistêmicas, que é quando a patologia se mostra como sintoma de uma doença mais ampla e afeta outros órgãos ou sistemas do corpo, o que ocorre em casos como a doença de Behçet e como a sarcoidose.
Para examinar esses dados entre os grupos, os pesquisadores empregaram ferramentas avançadas de bioinformática, incluindo análise de coexpressão genética e algoritmos de aprendizado de máquina, técnicas que permitiram mapear redes de sinalização inflamatória e identificar padrões de atividade genética relacionados à doença.
Interferon domina a assinatura genética da doença
Os resultados mostraram que grande parte das alterações genéticas na uveíte está ligada a genes regulados por interferon. Na uveíte isolada, foram identificados 110 genes diferencialmente expressos, dos quais 89, cerca de 81%, pertenciam ao interferoma. Já na forma associada a doenças sistêmicas, 72 de 92 genes, aproximadamente 78%, apresentaram essa mesma característica.
Apesar de ambas as formas compartilharem a predominância da resposta ao interferon, os pesquisadores observaram diferenças marcantes entre os perfis moleculares. Apenas três genes, CR1, CST7 e GNLY, apareceram em comum entre os dois grupos. Entre os principais genes associados à uveíte isolada destacaram-se CCR2, CD180, GAPT e PTGS2. Já na forma sistêmica, os mais relevantes foram CA1, SIAH2 e PGS1.
Além da diferença entre os genes, uma descoberta curiosa também identificou uma influência importante do sexo na regulação genética da doença. Entre os genes capazes de prever a presença da doença, cerca de 73% se comportaram de maneira diferente em mulheres, enquanto apenas 27% mostraram diferenças relacionadas aos homens. Em outras palavras, a atividade de muitos desses genes inflamatórios parece variar mais no organismo feminino, o que pode ajudar a explicar por que algumas formas da doença se manifestam ou evoluem de maneira distinta entre os sexos.
Possíveis novos tratamentos para casos difíceis
Os pesquisadores também identificaram a via de sinalização JAK-STAT como um componente central da resposta inflamatória observada na uveíte. Essa via já é alvo de medicamentos utilizados em outras doenças autoimunes.
Segundo os autores, inibidores dessa via podem representar uma estratégia promissora para tratar casos de uveíte que não respondem às terapias convencionais.
Esses resultados reforçam que a desregulação imunológica impulsionada pelo interferon é um fator central na uveíte não infecciosa. Ao revelar diferenças genéticas entre as formas isolada e sistêmica da doença, o estudo amplia a compreensão sobre a complexidade da inflamação ocular.
A longo prazo, essas descobertas podem contribuir para o desenvolvimento de testes diagnósticos baseados em biomarcadores sanguíneos e de terapias de precisão adaptadas às diferentes apresentações clínicas da doença.
Sobre o IDOR
Fundado em 2010, o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) é uma instituição brasileira sem fins lucrativos dedicada à pesquisa, à educação e à inovação em saúde. Com atuação nacional e internacional, o Instituto desenvolve estudos de excelência em diversas áreas do conhecimento biomédico, formando profissionais e contribuindo para avanços científicos que impactam a saúde da população. Sua principal mantenedora é a Rede D’Or, maior rede integrada de saúde do Brasil.
Pesquisadores e profissionais IDOR / Rede D’Or envolvidos na publicação:
- Otavio Cabral-Marques — IDOR