Pesquisa com quase 8 mil gestantes no Rio de Janeiro mostra que infecção nos primeiros meses de gestação pode multiplicar o risco de anomalias no sistema nervoso central 

Um estudo publicado na revista científica Viruses, com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), reforça a ligação entre a infecção pelo vírus Zika durante a gravidez e o risco de microcefalia e outras alterações no sistema nervoso central em recém-nascidos. A pesquisa analisou dados de quase 8 mil gestantes no Rio de Janeiro e mostrou que a infecção pelo vírus pode aumentar em mais de duas vezes a chance de malformações congênitas, sobretudo quando ocorre nos primeiros meses de gestação. 

 

O surto de Zika e o alerta para malformações congênitas 

O vírus Zika ganhou atenção mundial durante o grande surto que atingiu as Américas entre 2015 e 2016. No Brasil, médicos começaram a observar um aumento inesperado de bebês nascidos com microcefalia, uma condição caracterizada por um perímetro cefálico menor do que o esperado e frequentemente associada a alterações no desenvolvimento cerebral. 

Embora o número global de casos tenha diminuído após o pico da epidemia, passando de mais de 500 mil infecções para menos de 30 mil em 2018, o Zika continua sendo considerado uma ameaça em regiões tropicais, e o Brasil continua liderando os casos no continente americano. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (PAHO), apenas no ano passado o país reportou 25,5 mil infecções pela doença, mais de 90% de todos os casos da América.   

Esses dados reforçam o interesse de cientistas em entender a como o vírus afeta a gestação, já que a doença não possui cura nem vacinação, e pode trazer consequências gravíssimas para o feto, mesmo em infecções assintomáticas. 

 

Quase 8 mil gestantes analisadas 

Para investigar essa relação de forma mais detalhada, os pesquisadores utilizaram dados de cinco bases públicas de saúde do estado do Rio de Janeiro entre fevereiro de 2015 e dezembro de 2018. 

A amostra total incluiu 7.870 gestantes. Desse grupo, 2.269 mulheres tiveram infecção por Zika confirmada por exame molecular do tipo RT-PCR, enquanto 5.601 não apresentaram evidências da infecção. 

Além do histórico clínico das mães, os pesquisadores também analisaram informações detalhadas dos recém-nascidos, incluindo perímetro cefálico, exames de imagem do cérebro e testes oftalmológicos e auditivos. Para reduzir possíveis vieses, os cientistas aplicaram modelos estatísticos que controlam fatores como idade materna, escolaridade e características sociodemográficas. 

 

Risco de malformações mais que dobra 

Entre as gestantes infectadas pelo vírus Zika, os pesquisadores identificaram 49 casos de microcefalia ou outras anomalias no sistema nervoso central em recém-nascidos. Isso representa uma prevalência de 2,16%, equivalente a cerca de 194 casos para cada 10 mil nascidos vivos. 

No grupo de mulheres sem infecção, foram observados 44 casos, o que corresponde a 0,78%. Após ajustes estatísticos, essa análise mostrou que a exposição ao vírus Zika aumentou em 2,46 vezes a chance de malformações neurológicas nos bebês. 

O momento da infecção durante a gestação também se mostrou decisivo. Quando o contato com o vírus ocorreu no primeiro trimestre da gravidez, 5,5% das gestantes com zika tiveram bebês com alterações no sistema nervoso central, enquanto no segundo trimestre esse número caiu para 1,5%.  

Segundo os autores do estudo, a maior vulnerabilidade durante os dois primeiros trimestres está relacionada ao período crítico de formação do sistema nervoso do feto, pois o vírus pode interferir diretamente na formação de células neurais e no funcionamento da placenta. Esse processo pode comprometer o desenvolvimento do córtex cerebral, estrutura essencial para funções cognitivas e motoras. 

Felizmente, no terceiro trimestre de gravidez, esse risco caiu para 0,79%, ou seja, quase o mesmo risco enfrentado pelas mulheres que não tiveram a doença, o que traz um pouco de alívio para as gestantes que estão próximas do parto. 

 

Nem só microcefalia: complicações neurológicas e sensoriais nos bebês 

Entre os recém-nascidos expostos ao vírus durante a gestação, os exames revelaram diferentes alterações estruturais no cérebro. Calcificações intracranianas apareceram em 74,3% dos casos analisados, enquanto ventriculomegalia, uma dilatação anormal dos ventrículos cerebrais, foi observada em 65,7%. 

Também foram identificadas alterações sensoriais importantes. Anomalias oftalmológicas apareceram em 55,5% dos bebês avaliados, e problemas auditivos foram detectados em 33,3%. 

Entre as gestantes infectadas, os sintomas mais relatados foram manchas na pele, conhecidas como exantema, presentes em 83,7% dos casos, e coceira, relatada por 61,3%. 

 

Monitoramento contínuo é essencial 

Como ainda não existe tratamento específico para a síndrome congênita do Zika, os autores defendem que a principal estratégia clínica seja o acompanhamento contínuo das crianças expostas ao vírus durante a gestação. 

Esse acompanhamento deve incluir avaliação neurológica, motora, auditiva, visual e ortopédica ao longo do desenvolvimento. Mesmo bebês que aparentemente nascem sem alterações visíveis podem desenvolver dificuldades mais tarde. 

Em regiões onde o vírus ainda circula, o monitoramento de gestantes e recém-nascidos continua sendo uma ferramenta essencial para reduzir o impacto das complicações associadas à infecção. 

Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu. 

 

Pesquisadores e profissionais IDOR / Rede D’Or envolvidos na publicação: 

25.08.2026 Arnaldo Prata-Barbosa