Não podemos contar só com a vacina para acabar com a pandemia de COVID-19

O volume de vacina disponível nos próximos anos pode ficar aquém da demanda global, e os países pobres serão os mais prejudicados pela provável escassez.

 

Não podemos “deixar rolar” até que a tão esperada vacina chegue, pois a maioria da população não tem defesas no organismo para passar pelo vírus com a certeza de que este não afetará de forma grave a sua vida. A imunidade de grupo também não é uma opção, pois há de se considerar inúmeros fatores que não estão sob nosso controle. E, como ainda não temos uma vacina base para o coronavírus – que poderia ter sido desenvolvida para o SARS-CoV, mas parou no início dos estudos -, o processo atual torna-se ainda mais demorado.

 

Agora se faz imprescindível a corrida de laboratórios e governos que buscam uma vacina contra o SARS-CoV-2, o novo coronavírus. A disputa pelo desenvolvimento da imunização movimenta bilhões de dólares e ainda vai levar meses para se chegar a uma solução capaz de imunizar a população de forma segura. Dentre as empresas que buscam a fórmula da liberdade, a Johnson & Johnson montou parceria de 1 bilhão de dólares com o governo dos Estados Unidos para acelerar o desenvolvimento e produção da provável vacina. Mas esses estudos, como outros, podem falhar. Se isso acontecer, teremos de esperar mais alguns meses até os próximos resultados.

 

A companhia anunciou há um mês que o uso emergencial da vacina estará disponível no início de 2021, se tudo der certo. Mas não sabemos quanto tempo levará até que ela chegue para a massa da população. Para que 70% da população mundial seja imunizada, sabemos que será necessário fabricar 5,6 bilhões de doses, o que pode levar anos. Considerando-se os custos da compra, um dos estressores para países pobres, é bem possível que as vacinas de início se concentrem nas mãos de países que terão maior facilidade em pagar por elas. Isso estenderá o tempo de chegada da imunização na maior parte do planeta.

 

Uma questão a se pensar aqui é que essa pandemia, como o nome já diz, está em todo o globo, não é um problema local, mas transnacional. Sem uma forma eficiente de imunização, uma nação poderia estar segura se as fronteiras fossem fechadas, as importações proibidas e os habitantes mantivessem rotina firme de higienização. Ou seja, quase impossível.

 

Outras questões relevantes são: quem vamos imunizar primeiro, quais organismos respondem bem à vacina, quais são seus efeitos adversos. A eficácia em animais pode acontecer, mas isso não significa que estamos seguros de imediato. Pessoas com doenças crônicas – por exemplo, que apresentam doenças cardíacas ou diabetes – podem estar mais vulneráveis às reações da imunização. Populações diferentes também podem apresentar respostas imunes divergentes. A vacina expressa da Ebola demorou 5 anos para ser desenvolvida, e esse foi um recorde absoluto de concepção, se comparadas a outras linhas do tempo.

 

O SARS-CoV-2 não vai sumir por si só. Por isso, a pressa para o desenvolvimento de uma vacina que proteja residentes internacionais se justifica plenamente. Isso gera questões-chave: quais países receberão as primeiras inoculações? Por isso é mandatório que governos revejam suas prioridades e passem a investir em pesquisa para a saúde. Novas pandemias podem surgir, e, sem investimento em ciência, sempre estaremos longe de boas soluções.  A conta desta negação será paga em vidas.

 

Escrito por Luiza Mugnol Ugarte

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