Estudo do IDOR investiga por que mulheres após o câncer de mama enfrentam intolerância ao esforço físico e o papel do metaborreflexo muscular
Anos após o fim do tratamento do câncer de mama, muitas mulheres continuam apresentando dificuldade para realizar esforços físicos, além do risco de problemas cardiovasculares. Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em colaboração com instituições nacionais e internacionais, identificou um possível mecanismo por trás desse quadro: uma alteração no metaborreflexo muscular, sistema responsável por sinalizar ao cérebro a necessidade de aumentar a atividade cardiovascular durante o exercício.
Publicado no American Journal of Physiology – Heart and Circulatory Physiology, o estudo mostrou que mulheres tratadas com os quimioterápicos doxorrubicina e trastuzumabe apresentaram menor ativação dos nervos simpáticos e um aumento mais discreto da pressão arterial durante o exercício quando comparadas a mulheres saudáveis. Essas respostas são fundamentais para garantir o fornecimento adequado de sangue e oxigênio aos músculos em atividade.
Para investigar essa condição, os pesquisadores avaliaram 19 pacientes de câncer de mama e 14 mulheres saudáveis com idade e perfil físico semelhantes. Em média, as participantes do grupo de sobreviventes haviam recebido o diagnóstico cerca de nove anos antes e concluído o tratamento há aproximadamente oito anos.
Durante os experimentos, as voluntárias realizaram um teste de handgrip, no qual apertavam um dispositivo com a mão durante três minutos. Em seguida, os pesquisadores interromperam temporariamente a circulação sanguínea do braço por meio de uma braçadeira inflável. Esse procedimento permitiu isolar o metaborreflexo muscular, eliminando a influência de outros mecanismos que também participam das respostas ao exercício. Ao longo de todo o protocolo, foram monitorados parâmetros como pressão arterial, frequência cardíaca, fluxo sanguíneo e atividade dos nervos simpáticos.
Uma resposta cardiovascular mais fraca ao esforço
Os resultados mostraram diferenças marcantes entre os grupos. Durante a ativação isolada do metaborreflexo, as pacientes de câncer de mama apresentaram aumento médio de apenas 12 mmHg na pressão arterial, enquanto no grupo controle esse valor chegou a 21 mmHg. A atividade dos nervos simpáticos também foi menor entre as pacientes, indicando uma resposta atenuada do sistema responsável por coordenar as adaptações cardiovasculares ao esforço.
O estudo ainda identificou diferenças na forma como o coração respondia ao exercício. Entre as pacientes, houve uma redução no volume de sangue bombeado a cada batimento durante o esforço. Embora exames de ecocardiograma tenham mostrado que a capacidade geral de contração cardíaca permanecia preservada em repouso, foram observados sinais de maior rigidez do músculo cardíaco durante a fase de relaxamento. Essa característica pode dificultar o enchimento adequado do coração quando a demanda do organismo aumenta durante a atividade física.
O que explica a intolerância ao exercício?
Os achados indicam que a dificuldade para realizar esforços físicos após o tratamento do câncer de mama não está relacionada apenas ao condicionamento físico, mas também a alterações persistentes nos mecanismos que regulam a comunicação entre músculos, sistema nervoso e sistema cardiovascular.
Os pesquisadores sugerem que os tratamentos quimioterápicos podem provocar alterações na musculatura esquelética capazes de reduzir a sensibilidade dos receptores responsáveis por detectar os sinais químicos produzidos durante o exercício. Com isso, o organismo deixa de ativar adequadamente as respostas nervosas necessárias para elevar a pressão arterial e redistribuir o fluxo sanguíneo para os músculos em atividade.
Na prática, isso significa que o corpo pode ter mais dificuldade para sustentar esforços físicos, favorecendo o aparecimento precoce da fadiga e contribuindo para a redução da capacidade funcional observada em parte das sobreviventes de câncer de mama.
Implicações para a reabilitação cardiovascular
Os resultados ampliam a compreensão dos efeitos cardiovasculares de longo prazo associados ao tratamento do câncer de mama e apontam o metaborreflexo muscular como um possível alvo para futuras estratégias de reabilitação.
Segundo os autores, novas pesquisas deverão investigar em maior profundidade as alterações moleculares e celulares envolvidas nesse processo, incluindo possíveis danos aos receptores dos músculos esqueléticos responsáveis por detectar os metabólicos produzidos durante o esforço físico. A identificação desses mecanismos poderá contribuir para o desenvolvimento de programas de treinamento e reabilitação mais personalizados, voltados para a recuperação da capacidade funcional e da saúde cardiovascular de sobreviventes de câncer de mama.
Escrito por Manuelly Gomes
Revisado por Mônica Vac