Revisão de quase 50 mil pacientes expõe desigualdades importantes nos desfechos da pneumonia adquirida na comunidade em unidades de terapia intensiva 

 

Uma revisão científica publicada no periódico NEJM Evidence, coordenada pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), avaliou desfechos de adultos com pneumonia adquirida na comunidade (PAC) internados em unidades de terapia intensiva (UTIs) de países de renda intermediária, como o Brasil.  

Em contraste com países de alta renda, onde a mortalidade varia entre 16% e 26%, o estudo encontrou taxas significativamente mais elevadas nos países analisados. O trabalho reuniu 52 estudos e cerca de 48.707 pacientes, revelando uma mortalidade agregada de 37,1%, que aumenta para 59,3% entre aqueles que necessitam de auxílio respiratório. 

 

Pneumonia grave ainda é um problema ainda subestimado 

A pneumonia adquirida na comunidade (PAC) segue como uma das principais causas de internação em unidades de terapia intensiva em países de baixa e média renda, com mortalidade substancialmente superior à observada em países de alta renda, onde os desfechos são consistentemente mais favoráveis.  

Apesar de avanços no manejo clínico e no suporte intensivo, o estudo mostrou que mesmo após duas décadas os desfechos permanecem graves para países não ricos, especialmente em contextos com limitações estruturais. Os autores reforçam que a mortalidade elevada observada não pode ser explicada apenas pela gravidade individual dos pacientes, mas também por diferenças sistêmicas no acesso e na qualidade do cuidado. 

 

Como o estudo foi conduzido 

A pesquisa seguiu rigorosos parâmetros internacionais de qualidade científica, sendo registrado no PROSPERO, principal banco de dados mundial de protocolos de revisões sistemáticas. 

Os estudos incluídos na análise foram publicados ao longo de 22 anos, de 2002 a 2024, e também passaram por avaliação de seu rigor metodológico. Ao todo, foram analisados 52 estudos envolvendo 48.707 pacientes, com foco em países de baixa e média renda e na mortalidade de curto prazo, seja durante a internação em UTI ou em até 30 dias. 

 

Mortalidade elevada e o papel da ventilação mecânica 

Os resultados reforçam o contraste entre sistemas de saúde. A mortalidade geral foi de 37,1% nos países de média renda analisados, valor que se mantém muito acima do observado em países de alta renda, onde os desfechos para a mesma condição costumam variar entre 16% e 26%. Esse diferencial se torna ainda mais evidente nos casos graves. 

Entre pacientes que necessitaram ventilação mecânica, a mortalidade atingiu 59,3% nos países analisados, aproximadamente o dobro do observado em países de alta renda, onde gira em torno de 26%. Esse dado reforça que o suporte respiratório, embora essencial, está associado a desfechos muito mais desfavoráveis quando inserido em contextos com menor disponibilidade de recursos e infraestrutura de terapia intensiva. 

A população estudada tinha idade média de 65,4 anos, com predominância masculina de 60,8%. Entre as comorbidades mais frequentes estavam hipertensão (38,7% dos casos), doença pulmonar obstrutiva crônica (26,2%) e diabetes (20,9%).  

Os autores também destacam que idade avançada e ventilação mecânica explicam mais de metade da variação dos desfechos de mortalidade entre os estudos, indicando que esses são os principais determinantes clínicos do prognóstico, independentemente do país, embora seus efeitos sejam potencializados em contextos de menor renda. 

 

Desigualdade global e lacunas importantes de informação 

Um dos achados mais relevantes do estudo é a distribuição desigual dos dados disponíveis. A análise incluiu estudos de 18 países, com predominância da China, com 25 estudos, e do Brasil, com 6 estudos, além de outras nações de renda média.  

Nenhum estudo proveniente de países de baixa renda foi identificado dentro dos critérios de qualidade metodológica aplicados, ausência que evidencia uma lacuna importante na produção científica global sobre pneumonia em terapia intensiva e limita a compreensão completa do impacto da doença em contextos mais vulneráveis. 

“O estudo é importante pois confirma com dados a falta de informações consistentes e estruturados sobre pneumonia comunitária grave em UTIs de países de baixa e média renda. Apesar de ser principal causa de internação clínica em UTIs do mundo todo, a pneumonia comunitária grave continua apresentando alta mortalidade. Novos estudos são necessários para embasar políticas de saúde, alocação de recursos, treinamento de equipes e ajuste de protocolos a realidade de cada região”, comenta a Dra. Melissa Pitrowsky, primeira autora do estudo, médica do Hospital Copa D’Or e pesquisadora da UFRJ. 

 

Um gradiente de mortalidade entre sistemas de saúde 

O conjunto das evidências indica um padrão consistente de pior desfecho da pneumonia adquirida na comunidade em UTIs conforme diminui o nível de renda dos sistemas de saúde. Em países de baixa e média renda, a mortalidade permanece elevada, especialmente entre idosos e pacientes que necessitam de ventilação mecânica, enquanto em países de alta renda os desfechos são significativamente mais favoráveis. 

Os autores atribuem essas disparidades a fatores estruturais, como atraso no acesso ao sistema de saúde, chegada tardia dos pacientes aos serviços de terapia intensiva, limitação de recursos, escassez de equipes treinadas e ausência de protocolos clínicos padronizados. Soma-se a isso a falta de dados sistemáticos sobre vacinação e prevenção, que também podem influenciar os resultados observados. 

Os achados da revisão reforçam a necessidade de fortalecimento dos sistemas de saúde, ampliação do acesso precoce à terapia intensiva e produção de dados mais representativos em todas as regiões do mundo. 

Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu. 

 

Pesquisadores e profissionais IDOR / Rede D’Or envolvidos na publicação: 

15.10.2026 Antonio Paulo Nassar Junior Jorge Salluh Bruno Adler Maccagnan Pinheiro Besen Pedro Povoa