Pesquisador do IDOR e da Fiocruz, o infectologista José Cerbino comenta o cenário real referente aos casos do cruzeiro e mostra que aprendemos importantes lições na última pandemia

O caso do cruzeiro e o medo de uma nova pandemia

Um navio de cruzeiro saído da Argentina viveu momentos de desespero em abril de 2026. Onze dos cerca de 150 tripulantes estavam infectados por hantavírus ao fim da viagem, com sintomas que variavam de febre e problemas gastrointestinais a quadros respiratórios mais graves. Os três óbitos e algumas internações em unidades de terapia intensiva (UTIs) decorrentes da infecção alertaram o mundo sobre o retorno dos viajantes aos seus respectivos países, alimentando na população global o medo e a lembrança de uma crise sanitária ainda recente.

Mas esse medo é realmente justificável ou seria uma resposta ao trauma coletivo? Muitos veículos de comunicação reportam cada agravamento de caso, mas nem sempre consideram as particularidades dessas contaminações e, principalmente, tudo o que os sistemas de saúde mundiais aprenderam com a pandemia de covid-19.

O Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino conversou sobre esse tema com o Dr. José Cerbino, pesquisador do Instituto e infectologista da Fundação Oswaldo Cruz. O cientista participa de reuniões frequentes da Organização Mundial da Saúde por integrar o Collaborative Open Source Consortia (CORC), grupo que reúne especialistas de todo o mundo para monitoramento e atualização sobre doenças infecciosas emergentes.

Como ocorre a infecção por hantavírus

O Dr. Cerbino explica que o hantavírus não é uma novidade no mundo, e sua infecção ocorre principalmente pela inalação de aerossóis contendo resquícios de pele, urina, fezes ou saliva de roedores silvestres infectados.

“Não é uma infecção simples. Digamos que exista um galpão em uma fazenda e um rato contaminado deixe excrementos no chão. Então, alguém vai varrer o local, e essa poeira com presença do vírus é inalada”, ilustra o pesquisador, criando o cenário de uma possível infecção.

Segundo o infectologista, existem duas formas clínicas da Hantavirose, a Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR), encontrada na Ásia e na Europa, e a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), encontrada nas Américas, inclusive no Brasil. A forma encontrada na Ásia e na Europa apresenta sintomas parecidos com outra zoonose mais familiar aos brasileiros, também transmitida por roedores: a leptospirose. Nesse caso, porém, a doença é causada por uma bactéria e ocorre com mais frequência em ambientes urbanos, sendo transmitida principalmente pelo contato direto com água ou superfícies contaminadas que entram em contato com mucosas e ferimentos na pele.

Na hantavirose os sintomas são preocupantes porque podem evoluir rapidamente para insuficiência respiratória, sangramentos e choque, necessitando de internação em UTI. Contudo, a transmissão entre humanos é restrita à cepa Andes do hantavírus — a mesma encontrada no navio — a única a apresentar registros de transmissão inter-humana até hoje.

Existe risco de transmissão no Brasil?

“Não temos registro de circulação dessa cepa no Brasil, todos os isolamentos até hoje ocorreram na Argentina e no Chile.”, tranquiliza o pesquisador. “E, mesmo se houvesse, a contaminação entre humanos não é tão fácil de ocorrer, pois a maioria dos casos não gera transmissão secundária. Ainda não sabemos exatamente como ocorre a infecção entre pessoas, mas é necessário um contato íntimo mais intenso com secreções respiratórias de quem está infectado”, detalha.

Isso não significa que a doença seja inofensiva. O pesquisador ressalta que ela possui um tempo de incubação longo, podendo chegar a até seis semanas, e apresenta uma taxa de mortalidade entre 20% e 40% dos casos. Ainda assim, há uma diferença importante entre reconhecer a gravidade da doença e estimular um pânico coletivo relacionado a uma contaminação em massa, considerada muito improvável.

“Apesar de toda a cobertura midiática, não há novidade, mutação ou qualquer elemento que justifique alarmismo em relação a uma pandemia. O diferencial, nesse caso, é que ocorreu em um navio, um ambiente propício para infecções desse tipo, já que reúne pessoas de diferentes países, confinadas por um período razoável e compartilhando os mesmos espaços”, afirma.

O que a pandemia de covid-19 ensinou ao mundo

Para além do medo de possíveis ameaças — mesmo as improváveis —, o pesquisador destaca que a pandemia de 2020 também trouxe aprendizados importantes para os sistemas de saúde, especialmente no monitoramento e na comunicação internacional sobre novas doenças emergentes.

“Desde o fim da década de 1960, a OMS criou o Regulamento Sanitário Internacional, que reúne uma série de protocolos atualizados de acordo com o avanço da ciência e da experiência epidemiológica. Após a epidemia de SARS, no início dos anos 2000 — também causada por um coronavírus e que atingiu cerca de 30 países em um período de oito meses —, a OMS atualizou esse regulamento, estabelecendo normas para vigilância e compartilhamento de informações entre países e criando a figura da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Com a pandemia de 2020, esses protocolos foram novamente aperfeiçoados, principalmente no que diz respeito aos critérios para decretar pandemias, definir acesso igualitário a vacinas e medicamentos, e ao monitoramento internacional de possíveis ameaças.”

O pesquisador explica que qualquer caso com maior risco epidemiológico, como o do hantavírus no cruzeiro, é acompanhado e notificado à OMS pelos serviços de vigilância de cada país. Essas medidas de monitoramento são protocolares para todas as nações, que também devem garantir transparência no compartilhamento dessas informações com os organismos internacionais.

Vigilância e informação como ferramentas contra o pânico

Embora os casos recentes tenham despertado preocupação internacional, especialistas reforçam que o cenário atual está longe de indicar o surgimento de uma nova pandemia. O hantavírus já é conhecido pela comunidade científica, possui formas de transmissão bem estabelecidas e segue sendo monitorado por redes internacionais de vigilância epidemiológica.

Ao mesmo tempo, o episódio evidencia como a experiência acumulada após a covid-19 fortaleceu a capacidade de resposta global diante de possíveis ameaças infecciosas. Mais do que alimentar o medo, situações como essa reforçam a importância da informação qualificada, da cooperação entre países e do investimento contínuo em ciência e saúde pública.