Com mais de 50 mil casos confirmado nas Américas, reemergência da doença expõe desafios que vão além da desinformação e passam por vigilância, cobertura vacinal e percepção de risco
Em 2026, o Brasil computou quase 40 casos de sarampo, a grande maioria na capital paulista. O surto local acontece em sintonia com a América Latina, que vive o cenário mais grave das últimas duas décadas, atingindo mais de 50 mil casos confirmados.
Se as dezenas de confirmações nacionais parecem pouca razão para alarme, o Dr. José Cerbino, médico infectologista e pesquisador do IDOR e da Fiocruz, retifica que todo o cuidado é pouco quando falamos do gênero Morbillivirus.
“A grande dificuldade no controle do sarampo é justamente sua altíssima transmissibilidade. Quem está infectado pode transmitir a doença para 12 a 18 outras pessoas, principalmente as não vacinadas. É por isso que computar os casos desde o início e agir rápido no controle do surto são ações imprescindíveis.”
O dado ajuda a explicar por que o sarampo exige uma resposta mais urgente que a adotada diante de doenças menos transmissíveis. O vírus também pode permanecer no ar por até duas horas, e a transmissão começa antes mesmo do aparecimento das manchas características da doença.
Hesitação vacinal: um desafio para a proteção contra doenças altamente infecciosas
Segundo o pesquisador, o Brasil passa por um declínio na cobertura do sarampo desde 2017, com o quadro se agravando durante a pandemia de covid-19. A necessidade de isolamento fez as pessoas evitarem exposição em postos de saúde, e desde esse período, a desinformação e os movimentos antivacina vêm enfraquecendo a imunização dos brasileiros.
Um estudo fraudulento também tem responsabilidade no aumento dessa chamada hesitação vacinal, que é o sentimento de insegurança em relação aos imunizantes. Em 1998, um estudo publicado no The Lancet associou a vacina tríplice viral, contra sarampo, caxumba e rubéola, com autismo em crianças.
Essa pesquisa foi progressivamente contestada pela comunidade científica até que foram descobertos dados fraudulentos e conflitos de interesse não revelados no estudo, o que resultou, mais de 10 anos depois, em sua retirada da revista e na cassação da licença médica do pesquisador principal. Todos os outros estudos feitos sobre o tema até então são categóricos em explicitar: não há relação causal entre a vacina e o autismo.
Vírus importados encontram lacunas de proteção
Embora o Brasil tenha extensão continental, o nosso sistema público de saúde tem uma ótima capilaridade, gratuidade e a capacidade de fazer uma cobertura vacinal eficiente contra o sarampo.
“Para que o sarampo não vire um surto endêmico, é necessário que 95% da população esteja vacinada, porque é um vírus altamente contagioso. Além disso, é preciso homogeneidade nessa cobertura. Se um município possui 98% de cobertura enquanto os vizinhos estão em 70%, os surtos não serão erradicados. Mas o Brasil possui o certificado da OPAS de país livre de sarampo desde 2024. Para manter esse certificado é preciso interromper a transmissão sustentada de uma mesma cepa do vírus em até 12 meses. Até agora, não perdemos esse título”, informa Cerbino.
Segundo o Ministério da Saúde, em 2025, a cobertura estimada no Brasil para a primeira dose da vacina contendo o componente contra o sarampo foi de 92,9%, e a da segunda dose, de 78,3%, ambas abaixo dos 95% considerados necessários para interromper a transmissão. Essa média nacional pode ainda esconder municípios ou comunidades com grandes bolsões de pessoas suscetíveis. Nesses locais, a chegada de um único caso pode dar início a uma cadeia de transmissão.
Vigilância é essencial para controle epidemiológico internacional
O infectologista acrescenta que, além de uma boa infraestrutura para imunização, o SUS também faz um trabalho de vigilância, identificando as cepas e vínculos epidemiológicos dos vírus circulantes.
“Com o surto que está ocorrendo em toda a América Latina, estrangeiros infectados vêm ao Brasil e encontram uma população com a imunidade fragilizada, uma combinação perigosa de fatores. Mas com a vigilância é possível rastrear se a infecção vem de uma cepa local ou importada, o que garante melhor controle do contágio”, acrescenta.
A circulação internacional é particularmente relevante porque o Brasil não está isolado do cenário regional. A OPAS considera a mobilidade populacional um dos fatores que aumentam o risco de introdução e disseminação do vírus. Ao mesmo tempo, a vigilância permite distinguir casos importados de cadeias de transmissão estabelecidas localmente e orientar medidas como investigação de contatos e vacinação de bloqueio.
Diminuição da percepção de risco: quando o sucesso da vacina faz a doença parecer distante
Para os nascidos a partir da virada do milênio, as lembranças do sarampo vêm principalmente de desenhos animados e livros escolares, mas, para quem viveu nos decênios anteriores, os surtos endêmicos da doença eram sazonais, ocorrendo a cada 3 ou 4 anos. Dados da OMS calculam que a vacinação contra o sarampo poupou cerca de 59 milhões de vidas de 2000 a 2024, principalmente de crianças menores de 5 anos.
“O sucesso das vacinas tende a criar esse paradoxo: a doença é controlada e as pessoas sequer ouvem falar em casos de sarampo. Com o passar dos anos, o vírus não parece uma ameaça e a vacinação não é tratada como prioridade, então a cobertura vacinal começa a declinar”, comenta Cerbino.
Esse fenômeno é conhecido como diminuição da percepção de risco. Quando uma doença deixa de fazer parte da experiência cotidiana, seus efeitos podem ser esquecidos justamente porque as medidas de prevenção foram bem-sucedidas.
Em um atual estudo do qual o pesquisador participa, o levantamento de um senso vacinal em uma comunidade do Rio de Janeiro já revela que muitas pessoas estão com a carteira vacinal desatualizada por falta da priorização, e não por falta de acesso ao imunizante.
Manter o sarampo longe exige mais do que vacinas
A conjunção de todos esses fatores cria um cenário muito perigoso para uma população que desconhece ou mal lembra dos riscos da doença, cujas complicações vão além de febre e manchas na pele, podendo causar pneumonia, encefalite, desidratação grave e outras complicações, especialmente em crianças menores de cinco anos.
Nesse cenário, a vacinação continua sendo a principal ferramenta de prevenção, mas não atua sozinha. Manter a eliminação do sarampo exige coberturas elevadas e homogêneas, busca ativa de pessoas não imunizadas, vigilância epidemiológica e laboratorial, investigação rápida dos casos e comunicação de risco capaz de enfrentar dúvidas e informações falsas.
O atual cenário das Américas mostra por que essas ações precisam ser contínuas. O sucesso da vacinação não elimina a necessidade de vacinar: ele é justamente o que permite que uma doença tão contagiosa permaneça distante da população. E o Dr. José Cerbino reforça: “Se perdeu a sua carteira de vacinação ou não lembra se tomou todas as doses da tríplice viral, é seguro e recomendado tomar novas doses no posto de saúde mais próximo”.
IDOR: Compromisso com a segurança vacinal
No Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), os estudos com vacina ganharam uma área de pesquisa própria desde a pandemia, quando o instituto coordenou mais de 6.000 voluntários em ensaios clínicos e participou dos primeiros testes de imunizantes contra COVID-19 no país, incluindo os estudos da vacina Oxford/AstraZeneca e condução e apoio a pesquisas com as vacinas CoronaVac (Butantan/ Sinovac) e Clover.
Atualmente, estudos com vacinas são listados na página de ensaios clínicos, no portal do IDOR.